Odenildo Sena

30 Jun

A ciência do olhar

Havia um padre holandês chamado João de Vries. Quase sem sotaque, falava do alto dos seus quase dois metros. Dividia seu tempo entre as obrigações sacerdotais e a fotografia. O meu curioso olhar ginasiano era espectador permanente das exposições que promovia de seus trabalhos. Eram pôsteres enormes, em preto e branco, retratando sempre o dia-a-dia da gente simples das redondezas e do bairro onde me criei. Nutria profunda admiração pela habilidade com que captava aqueles instantâneos, o que me deu o passaporte para uma duradoura amizade. Lembro-me do dia em que confiou a mim a chave do laboratório e um negativo com doze fotos para serem ampliadas. Com as substâncias químicas diante de mim, nas bandejas brancas de plástico, mergulhei a primeira folha de papel fotográfico na solução reveladora. A pinça com que eu fazia leves movimentos circulares naquela folha transformou-se, de repente, numa espécie de varinha com extraordinários poderes. Senti-me o senhor da criação. As imagens, lenta e gradualmente, saltaram para a vida diante de meus olhos naquela sala em penumbra, num momento repleto de fascínio e emoção que ficou tão bem guardado em minha memória. Preservada aquela agradável lembrança, descobri com o tempo que eu havia sido apenas instrumento intermediário de uma vida que, na verdade, nascera do afinado olhar do João de Vries. Isso mesmo! Porque, embora não se deva desprezar a contribuição sofisticada de um bom equipamento e domínio técnico, penso que a fotografia depende muito pouco de um simples clique. Se assim não fosse, com a popularização das máquinas digitais, os grandes mágicos da fotografia já teriam sumido. São fundamentais, muito aquém e além dos cliques, a empatia e a emoção com o objeto; a sábia opção, nem sempre fácil, pelo momento mais apropriado; a sensibilidade na escolha do ângulo inusitado; a paciência como arma para a perfeição; a busca contumaz pelos detalhes, muitas vezes, só revelados pela paixão que atravessa as lentes do equipamento. Essas qualidades são alimento indispensável para o que eu chamaria de a ciência do olhar. E essa eu devo ao João de Vries.

 

22 Jun

Amazonas faz ciência

Há revoluções que, por natureza, são silenciosas. Estou me referindo ao campo da ciência, onde pesquisas, em geral, exigem um tempo de maturação que não se confunde com outras atividades. Muitas vezes, o final de um longo experimento acaba sendo apenas um indicador de que o cientista deve buscar outro percurso. O que se contabiliza aí não é tempo perdido, mas conhecimento acumulado que potencializa novas descobertas. Acontece que essa revolução se faz com gente altamente preparada. No caso particular da Amazônia, é ingenuidade achar que teremos domínio sobre ela sem produzirmos o maior volume possível de conhecimento acerca de suas riquezas. É fato óbvio: só se tem poder sobre aquilo que se conhece. Mas como dar conta de tamanho desafio, quando se conta com um número tão reduzido de pesquisadores. No caso particular do Amazonas, há uma revolução silenciosa em processo que, em apenas seis anos, colocou-o numa privilegiada posição de destaque ao lado de estados que têm longa tradição de investimentos em ciência e tecnologia, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Algumas ações pinçadas do relatório de atividades da Fapeam no período 2003-2008 podem ilustrar esse importante avanço. Se o maior dos desafios para a ciência no Estado é o reduzido número de pesquisadores responsáveis pela geração de novos conhecimentos sobre a região, é confortável registrar que, nesse período, a instituição investiu na formação de 277 doutores. Esse número solto pode não representar muito, mas se considerarmos que a Ufam, hoje, conta com 360 doutores e esse quadro começou a ser formado a partir de meados da década de 70, o salto é extraordinário. Para os que desconhecem o processo, é bom ressaltar que um pesquisador-doutor demanda quatro anos de formação para, a partir daí, começar a construção de sua efetiva carreira. Portanto, do total dos bolsistas citados, apenas 10% já defenderam suas teses, mas há de se imaginar o enorme impacto futuro desse investimento em capital intelectual para o Amazonas. Isso sem contar com os 825 bolsistas em nível de mestrado financiados no mesmo período. É certo que ainda é muito pouco para o muito de que precisamos, mas é revolucionário diante do que se deixou de fazer ao longo de tantas décadas.

 

16 Jun

A mídia e a presunção de inocência

É confortável ler um texto e nele encontrar perfeita sintonia com o que pensamos. Um pouco daquilo que os teóricos do discurso chamam de assujeitamento. Senti-me assim, outro dia, com um artigo do professor Felix Valois, publicado no Diário do Amazonas. Por diversas vezes me vi fazendo as mesmas perguntas por ele formuladas, diante de circunstâncias em que pessoas, sob qualquer suspeição, têm sua vida exposta ao domínio público na condição de julgadas e condenadas. E se depois as suspeitas não se sustentarem? Como ficará a vida do acusado? E as sessões de preconceito e deboche? E a sua vida profissional? E os seus filhos, depois dos olhares insinuantes e maledicentes dos colegas na escola? São situações de reversão impossível, mesmo com a ajuda implacável do tempo. Mas me permito discordar de Valois, quando diz não caber culpa à mídia e alegar – sobre o afastamento do desembargador de suas funções no Tribunal de Justiça do Amazonas – tratar-se de notícia que teria de ser publicada. A questão, generalizando para tantos outros episódios semelhantes, não me parece ser o quê, mas o como. Ilustro com apenas dois casos. Há algum tempo, surpreendi-me ao ler na revista Caros Amigos que o Supremo Tribunal Federal havia condenado a Rede Globo, anos e anos depois, a pagar uma indenização ao casal proprietário da então Escola Base em São Paulo. Lembro-me de que os dois frequentaram por longo período o noticiário policial acusados de abusar dos alunos. Inocentados, nenhum grande jornal ou rede de televisão estampou o fato. A vida deles foi definitivamente estragada. Algumas semanas atrás, li no esquecido rodapé de página de um jornal, em pequeníssimo parágrafo, que o deputado federal José Genoino havia sido absolvido, pelo mesmo STF, da acusação de praticar crime de gestão fraudulenta. O espaço ocupado e o texto lacônico em nada se comparavam à extravagância das sucessivas manchetes em jornais de todo o país. Ora, se o comportamento da mídia se nivela em pirotecnia e sensacionalismo e, ao seu modo, despreza a presunção de inocência, ela rompe seu compromisso social com os fatos e a crítica e, portanto, tem, sim, responsabilidade no cartório.

 

08 Jun

Meu Cinema Paradiso

Sempre que me perguntam qual o filme de minha vida, respondo na bucha: “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore. Durante anos, da meninice à adolescência, grande parte de meu tempo foi vivida naquele mundo mágico chamado cine Ideal. Ficava em São Raimundo, onde me criei. Guardo até hoje infindáveis histórias que, pelo sabor de encanto e aventura, entrelaçavam-se de tal modo com minha existência, que perdiam a fronteira entre a realidade e a ficção projetada naquela imensa tela do cinema de minha infância. Lembro-me, por exemplo, de que eu e meus colegas tínhamos por predileção um namoro de horas e horas com o material de propaganda dos filmes exposto em quatro vitrines protegidas por vidros e situadas horizontalmente na fachada principal do prédio. A primeira delas, da esquerda para a direita, acima da estreita abertura onde funcionava a bilheteria, exibia sempre os cartazes da atração do dia. As demais apresentavam as futuras estreias. Sem dinheiro para os ingressos, fazíamos daquele namoro um compromisso diário, espécie de expediente sempre cumprido religiosamente com zelo e dedicação. Era a alternativa que encontrávamos para compensar o perverso muro que nos impedia de partilhar com nossos heróis suas aventuras. Aliás, nem sempre entendíamos o porquê de ficarmos do lado de fora. Afinal, eram tantas as afinidades com esses heróis, que julgávamos aquele impedimento uma profunda injustiça. Mas lá ficávamos, olhinhos vidrados nos cartazes. Cada um, por sua vez e ao seu modo, embalado pela vital necessidade de sonhar, contribuía para construir imaginariamente uma história paralela àquela que a falta do ingresso nos impedia de ver. Sempre que um de nós exagerava na fuga àquele texto coletivamente construído, alguém apontava o desvio e aqueles fragmentos iam, pouco a pouco, ganhando incrível nexo em nossa cabeça. Quando notávamos, por outro lado, que a projeção do filme havia começado, corríamos para a lateral do cinema, que dava para uma rua – quanta coincidência! – chamada Boa Vista. É que havia uma janelinha, bem no alto, daquelas de treliças, por onde conseguíamos vislumbrar pedaços de imagens no canto direito da tela. Mas o encanto não ia longe. Sabedor do nosso hábito, o gerente do Ideal, implacável e friamente, acionava um cordãozinho e fechava a janela, negando-nos aquele prazer. Era o carrasco do nosso cinema Paradiso.

 

02 Jun

O Enem ou a vida!

Para que guardar tanta tralha? Minha falecida mãe sempre implicava com esse meu hábito de querer guardar tudo. De velho já basta eu, dizia ela. Pois até hoje cultivo a mania. Sempre acho que lá na frente aquele guardado terá alguma utilidade. É bater e ver! Dia desses, revirando uma pilha de jornais vencidos, deparei-me com uma notícia que anunciava o efeito milagroso de um livro. Garantia o domínio de macetes para “entender até bula de remédio e se dar bem na prova”. Afora o teor ridículo e pedagogicamente insustentável do anúncio, chamou-me atenção o eixo central da promessa. Não importam os meios, os processos ou percursos, o fundamental é o indivíduo, no sentido bem “Gérson” do termo, já incorporado à nossa cultura, se dar bem na prova. O resto é o resto. Trata-se de uma concepção estreita que resume a complexidade do longo processo de aprendizagem de um cidadão a algumas horas diante de um punhado de questões geralmente cretinas de uma prova. Isso acabou me levando a pensar na nova onda do momento. Há dias que a mídia repercute o anúncio espalhafatoso de nossas sábias autoridades sobre o mais novo milagre da educação brasileira: o Enem. As notícias correntes dão conta tratar-se da “maior mudança desde a criação do vestibular em 1911. Uma verdadeira revolução!” Deixará de exigir dos alunos grande quantidade de informações para priorizar raciocínio lógico e capacidade na resolução de problemas. Absurdo acreditar que foi necessário aguardar um século para se descobrir que as provas dos vestibulares nunca se prestaram a avaliar o desempenho intelectual dos egressos do ensino médio. Absurdo maior, ainda, autoridades da área de educação manifestar, de pronto, a necessidade de se adaptar a grade curricular atual às características do exame salvador da pátria. Tudo em função do Enem! Décadas de pesquisas básica e aplicada voltadas para a educação – e o Brasil tem excelência nesse campo – têm como endereço a lata de lixo, numa inconsequente inversão de papéis que transforma uma atividade essencialmente intermediária – uma prova – em um objetivo supremo. Apenas mais um dos infindáveis modismos desastrados que sempre comprometeram a qualidade da educação no país.

 

25 May

Ciência: o Brasil cresce e aparece

Como sempre, em se tratando dessa área, a mídia brasileira deu pouca importância. O feito mereceria mais respeito. O Brasil deu um considerável salto no disputado ranking mundial de publicações científicas. Ocupa, agora, o 13º lugar. Saltou de 19.436 artigos em 2007 para 30.451 publicações em 2008. Os cinco primeiros colocados são Estados Unidos, China, Alemanha, Japão e Inglaterra. Na sequência, tem-se França, Canadá, Itália, Espanha, Índia, Austrália e Coreia do Sul. Para se ter ideia da vantagem americana, aquele país registrou a marca dos 340.638 artigos publicados, contra 112.804 da China, segundo colocado, e 35.569 da Coreia do Sul, 12º colocado. De um lado, o Brasil é líder na América Latina, à frente de países que já surfaram na dianteira, como Holanda, Suíça, Polônia e Suécia; de outro, passa a competir com grandes potências que sempre mantiveram invejável hegemonia nesse item. Não é pouca coisa. Principalmente se considerarmos o período relativamente curto desse feito, o que, por prudência, não deve ser desprezado, pois nos alerta para o fato de que o país ainda está em plena fase de consolidação do seu Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação e trabalha, ainda, na construção de uma cultura que torne as ações na área uma prática política de estado. De qualquer modo, podemos assegurar que o Brasil já coleciona experiências de comprovado sucesso que podem servir de modelo a ser partilhado com outros países. Ao lado de programas criados no âmbito do Ministério de Ciência e Tecnologia, como os Núcleos de Excelência e os recentes Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, capitaneados pelo CNPq em parceria com as fundações estaduais de amparo à pesquisa, e aqueles destinados ao desenvolvimento tecnológico, administrados pela FINEP, há outras iniciativas inovadoras que podem adensar essa vitrine. A robusta parceria gestada aqui no Amazonas, que envolveu sete fundações estaduais de amparo à pesquisa, o CNPq e o Ministério da Saúde, e resultou na criação da Rede de Pesquisa em Malária, é um exemplo de mecanismo de apoio à ciência que pode ser referência para muitas outras ações, inclusive com a participação de outros países. Bem a propósito, a recém-lançada Rede amazônica de pesquisa e desenvolvimento de biocosméticos, envolvendo Amazonas, Pará, Maranhão, Tocantins e Acre indica uma clara tendência para uma forma de parceria que tem como principal mérito somar recursos, competências, infra-estrutura e esforços em prol de objetivos comuns e mais seguramente socializáveis. Não se pode desprezar, também, a valiosa experiência, de resultados comprovados, com os programas de iniciação científica, afinal, o fato de o Brasil ter ultrapassado a marca da formação de 10 mil doutores pesquisadores ao ano tem sua gênese assegurada na educação científica de milhares de crianças e jovens. A estrada, portanto, está construída. É preciso, agora, zelo e carinho permanentes para sua manutenção.

 

18 May

A dita nunca foi branda

Tremo nas bases quando alguém manifesta desejo de que a ditadura militar volte a imperar no país. Ou que detesta política e que não acredita em políticos. Há poucos dias li profissões de fé dessa natureza. E, repito, tremi nas bases, o que me leva a tocar num tema para o qual, imagino, conseguirei pouquíssimos adeptos. Mas faço isso com a convicção de que há momentos na vida do país em que é preciso quebrar a unanimidade. Quer seja para se vislumbrar a existência de outros caminhos, quer seja para se confirmar que aquele em evidência tem razão de ser. De qualquer modo, é sempre bom e prudente tratar a unanimidade com cautela. Não sei se vou conseguir relacionar uma coisa a outra, mas estou aqui me lembrando daquele episódio em que o ex-ministro Rubens Ricúpero, com cara e jeito de bom samaritano, deixou escapar para os indiscretos microfones que a coisa no então governo funcionava assim: o que era bom se mostrava; o que era ruim se escondia. Afora o espírito sórdido da frase, para o bem de todos e da democracia, não prevaleceu a vontade daquele senhor e do governo a quem ele servia. A tentativa de criar a nociva unanimidade de que tudo ia muito bem foi de pronto denunciado por grande parte da mídia. Salto para os dias de hoje e vejo com preocupação a unanimidade, em forma e conteúdo, com que a maior parte da mídia vem abordando os escândalos envolvendo as diferentes esferas de poder. Causa-me a sensação de que, na ordem inversa daquela odiosa frase do ministro de Collor, a ordem agora é: o que é ruim a gente mostra; o que é bom a gente esconde. Para ficar apenas em um exemplo representativo de tantos outros, observe-se o caso do uso das cotas de passagens pelos congressistas. E não quero aqui entrar no mérito da questão, que tem aspectos tenebrosos pertinentemente trazidos à tona pela mídia, que, nesse caso, cumpre um de seus papéis mais relevantes para a democracia e para a sociedade. Quero me referir ao viés categórico dado à abordagem, construindo uma unanimidade tal, que coloca todos, deputados e senadores, no mesmo e insensato barco de farristas, como se já não houvesse salvação, como se todos, indistinta e inapelavelmente, estivessem em mora com a sociedade. Não penso que a situação se reduza a isso. Se assim o fosse, não mais valeria a pena acreditar que uma instituição como o Congresso Nacional, tão cara a qualquer democracia, seja indispensável. Há, sim, deputados e senadores que trabalham, e muito, e que dignificam o voto de seus eleitores. Mostrar isso faz parte, também, do papel da mídia. Afinal, na ausência do parlamento ocupa o seu espaço a dita, que só foi branda para quem tem memória curta e brinca com a História.

 

11 May

Sobre filmes e manias

Já falei noutro dia que, nos últimos tempos, tenho frequentado muitíssimo pouco os cinemas, embora seja um apaixonado pela Sétima Arte. Não daquele tipo rigoroso e seletivo que transforma cada filme assistido numa peça sempre digna de profundas e complexas reflexões sobre a alma e o comportamento social dos seres humanos. Nem daquele outro tipo que vive ligado nos últimos lançamentos. Sou daquele time que simplesmente acredita que o cinema continua sendo a melhor diversão. Quanto ao distanciamento das salas de exibição, atribuo ao meu incontrolável comodismo, que sempre acaba me convencendo de que ficar em casa ainda é o melhor negócio. Mas compenso esse aparente ócio montando meu próprio acervo, coisa que faço já desde muito tempo, mesmo em descompasso com relação aos filmes recém-lançados, que acho sempre muito caros. Considero-me uma espécie de Indiana Jones caçador de promoções. Chego a passar meses, com paciência franciscana, namorando um DVD, até o momento acertado de arrematá-lo. O diferencial é que, dispor dos filmes em casa, atende a uma velha mania minha de poder rever, em diferentes momentos, aqueles que, por razões às vezes até não tão claras, me chamaram atenção por um detalhe ou outro. Nesses dias, enquanto admirava os títulos em minha estante, todos cartesianamente em ordem alfabética, não me contive e de lá retirei, com enorme zelo, “Sociedade dos poetas mortos”, do diretor Peter Weir. Quis matar a saudade de uma cena que sempre teve, para mim, um exclusivo significado pedagógico. Talvez isso se explique pela minha longa quilometragem acumulada exercendo os desafios do magistério. Para quem se lembra do filme, trata-se do momento mágico em sala de aula quando o professor John Keating, vivido por Robin Williams, tendo já conquistado a simpatia e o carinho da turma, surpreende a todos, estimulando cada um a subir em sua mesa e, do alto, portanto de uma posição incomum, vislumbrar aquele espaço de outra perspectiva. Brilhante iniciativa! Oportuniza os alunos a perceberem e confirmarem que a leitura do mundo não se resume a um quadro único e estático, o que rompe com o velho e tradicional paradigma de que as pessoas pensam e agem de forma idêntica, como se fossem autômatos. A depender de onde parte o olhar, as verdades são múltiplas e a compreensão do mundo e das coisas que nele habitam são monitoradas por essa visão particular. E o que pode ser mais fantástico senão a certeza de que essa heterogeneidade é a grande responsável pela construção da harmonia que torna possível a convivência entre os seres humanos?

 

04 May

Bush, Obama e os pajés

Passou quase despercebido. Ocupou apenas uma tripinha de coluna no canto esquerdo de página de jornal. Poucos notaram, pois dividia os demais 90% do espaço com um anúncio colorido que prometia fantásticos descontos na compra de carros zero quilômetro. Por isso mesmo não deve ter merecido atenção dos leitores. Eu mesmo, confesso, só cheguei a ele depois de algum tempo de viagem pelo dito anúncio, que desafiava qualquer espírito consumista com taxa zero de financiamento, zero de entrada, emplacamento grátis e Imposto sobre Propriedade Industrial reduzido, faltando pouco para dizer que o interessado receberia um folgado salário por mês para ficar com um dos carros. Digo isso por achar que o fato não é de menor importância. Afinal, para um país governado oito anos por um tosco, de pouca sabedoria e insensível ao destino do resto da humanidade, o ambicioso propósito de assumir, de forma escalonada, a redução das emissões de gases do efeito estufa representa uma novidade que deveria ocupar as primeiras páginas dos jornais e sites de notícias. Razões não faltam para isso. Estamos falando da nação que ostenta o troféu de maior responsável pela poluição mundial e que, sob a arrogante batuta do senhor Bush Júnior, manteve o propósito anterior, negando-se a subscrever o Protocolo de Kyoto e, com isso, prolongou a agonia do Planeta com consequências irreparáveis para a humanidade. De um lado, portanto, deve-se reconhecer como mérito a pressão de Barack Obama para que o Congresso dos Estados Unidos dê prioridade ao tema das mudanças climáticas, com vistas à elaboração de uma lei sobre “energia limpa”. De outro, por mais elogiosa que seja a iniciativa, não deixa de haver um forte componente, no mínimo, cômico no anúncio das novas medidas. Do protocolo de Kyoto até aqui já se vão doze anos e só agora, segundo a tripinha de notícia no jornal, a Agência de Proteção Ambiental americana declara serem “perigosas” para a saúde pública as emissões de gases do efeito estufa, razão pela qual o presidente Obama, ao participar em dezembro próximo da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, “quer mostrar ao mundo que os Estados Unidos tomaram consciência do que está em jogo”. Cômico, de fato, se não fosse trágico, pois tenta passar, com ostensiva desfaçatez, a ideia de pioneirismo sobre um tema que, na verdade, já está na agenda de preocupações do restante do mundo há décadas. De qualquer modo, repito, vale o mérito da decisão, embora chegue com bastante atraso. Afinal, até os nossos pajés do Alto Rio Negro se anteciparam, jogando a toalha e reconhecendo terem perdido a autoridade frente ao indócil comportamento da natureza. Os americanos nos devem mais essa.

 

27 Apr

O amor é lindo

Juro que a história é verdadeira. Quem me contou foi a protagonista. Por formação, ela costuma ser muito factual naquilo que partilha com os amigos. Pois bem. Deu-se que estavam vivendo o mágico momento de reinvenção de suas vidas, o que os tornava absolutamente crentes naquilo que, outrora, encaravam com a solene descrença dos desiludidos: Deus escreve certo por linhas tortas. Afinal, vivendo em espaço geográfico distinto, cada um a seu modo havia enfrentado as tardias descobertas e os dissabores daquela ocasião em que o amor deixa de ser eterno e passa a ter os limites da tolerância, o que Vinícius de Moraes, hábil e poeticamente, traduziu como eterno enquanto dure. Entre a primeira troca de palavras e a súbita descoberta das afinidades, o tempo não lhes exigiu muito de estágio probatório. Estavam ali, os dois, indiferentes às conversas barulhentas e às gargalhadas alheias, que, misturadas ao velho e conhecido som de barzinho, espalhavam-se por todo o ambiente e se transformavam em ruídos indecifráveis. Depois de consideráveis idas e vindas do garçom, para repor o estoque de chope, tomaram a decisão de fazer daquela a primeira noite no apartamento dele, onde a interminável saideira quase desmente a assertiva do Cazuza de que o tempo não pára. O sono dos justos já ia longe, quando ela recebeu o primeiro sinal de que não deveria ter emborcado aquele derradeiro copo. Não, impossível ser essa a causa, resmungou consigo mesma e partiu para o veredicto, invocando sua experiência no ramo. Deve ter sido aquele último pedacinho de batata frita. Olhou para o lado. Melhor não incomodá-lo, afinal, não cabia vexame justo naquele primeiro dia. A luz era tímida. Lembrou-se de que não havia tido o cuidado de fazer o reconhecimento do terreno. Onde andaria a sensatez naquelas alturas? Mesmo assim, partiu para o desconhecido. Foi tateando as paredes até chegar ao que deveria ser a cozinha. Vasculhou o que pode, mas nada encontrou que parecesse um antiácido. Redirecionou sua expedição até encontrar o banheiro. Aproveitou para olhar-se no espelho. Sem comentários. Pelo menos uma pista. Encontrou um vidrinho de Mertiolate. Lembrou-se de um detalhe. Em uma das conversas, ele havia dito que raramente tinha problemas de saúde. Já na iminência de entrar em pânico, eis que descobre, quase escondido, no cantinho superior do armário, um vidro do milagroso Leite de Magnésia. Na ausência de um Mylanta Plus, vai tu mesmo! Não contou dúvida. Deu uma respeitada golada. Acordou com o final da manhã invadindo o ambiente. Disposta e sem ressaca. Ele entra no quarto, já havia tomado banho, vidro de Magnésia na mão, sorridente. Ao mesmo tempo em que lhe dá bom dia, derrama um pouco do líquido branco e viscoso sobre a ponta dos dedos e tranquilamente passa nas axilas. A silenciosa reação não poderia ser outra. Meu Deus, bebi o desodorante do homem!

 

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