Olha essa do Renato
Desde que se entendia por gente convivia com a convicção de que essa coisa de gripe ou dor de cabeça não era páreo para sua saúde de ferro. Não que nunca tivesse sido acometido por elas. Apenas as ignorava e as tirava de letra. Sempre dizia aos amigos, em um tom de discreta arrogância, assim como elas vêm elas vão, não perco meu humor por causa disso. Muito menos tomo remédio. Mas aquele dia estava sendo diferente, ao ponto de precisar negociar com o chefe imediato sua dispensa do trabalho uma hora e meia antes do fim do expediente, decisão que tomou a contragosto.
Tudo conspirou contra no retorno para casa. Teriam todos se combinado para sair mais cedo do trabalho? O vagão do metrô estava tão acachapado de gente que, num dado momento, ergueu com dificuldade a perna esquerda, para debelar uma incômoda coceirinha no tornozelo, e, ao tentar retornar à posição anterior, notou que não havia mais espaço para o seu pé. Fez o percurso de três estações imaginando o estoicismo do personagem do Ziraldo, o Saci-Pererê. Como não bastasse, retirou brevemente a mão do apoio de segurança, para resolver outra coceira num lugar pouco recomendável, e, ao retorná-la, havia perdido a vez para o vizinho. Passou o resto da viagem ao sabor dos empurrões, feito aqueles bonecos teimosos que, empurrados para um lado e outro, acabam recuperando o equilíbrio.
Ao chegar a casa, a dor de cabeça havia passado dos limites. Precisou de três tentativas para se certificar de que a chave era aquela mesma e não estava tentando abrir a porta do vizinho. Seria algum castigo dos céus? Afinal, nunca levara dor de cabeça a sério. Tolice. Lembrou-se de que não acreditava nessas coisas. Quem sabe algum mau olhado no trabalho? Era só o que faltava! Uma mente cética, quase agnóstica, embarcando nessas crenças. Sem essa! Não cederia a essas vãs filosofias, mas à ciência. Lembrou-se que a irmã, a rainha da dor de cabeça, andava sempre com seu variado estoque de medicamentos atualizado para as mais variadas formas de manifestações das enxaquecas. Aliás, nesse mister, diante de qualquer reclamação tinha sempre na ponta da língua o diagnóstico e o comprimido certo para cada tipo de incômodo. Renato se viu obrigado a deixar o machismo de lado, sempre evocado pela irmã nas arengas entre os dois, e curvou-se à sua competência naquilo que por aí chamam de prática ilegal da medicina. Foi atendido em pé, diante da porta do banheiro, uma vez que ela se encontrava embaixo do chuveiro, coincidentemente relaxando após a superação de uma de suas crises. Essa, curada com um remédio milagroso recém-lançado no mercado. Me fala quais os sintomas da tua cefaleia. Não, eu estou mesmo é com muita dor na cabeça. Tá bom, Renato, como é a tua dor na cabeça? Não dá pra explicar. Só sei que está me azucrinando o juízo. Assim não dá! Não posso te receitar um medicamento sem fazer a correlação entre sintoma e terapêutica. Para os quintos dos infernos com a correlação terapêutica, eu preciso só de um comprimido pra dor de cabeça. Tá bom, teimoso, vou te indicar um genérico que serve para todo tipo de cefaleia. Na minha bolsa vermelha, que está na mesinha da sala, tem um comprimido vermelhinho que é bater e ver. Lançamento recentíssimo. Toma e me deixa em paz. Vai deitar.
Impaciente pra se ver livre daquele tormento, não contou conversa. Desembestou em direção à sala, expulsou o comprimido do invólucro na palma de sua mão, ensaiou correr até a geladeira pra pegar água, mas decidiu ingeri-lo no seco, assim ganharia tempo. Não satisfeito, abriu de novo a bolsa, pegou um segundo comprimido e, aí sim, foi até a cozinha e o empurrou com ajuda de um copo com água. Em seguida, refestelou-se na cama de seu quarto.
Passado algum tempo e já um tanto aliviado da dor, com os olhos fechados começou a rever alguns conceitos sobre a irmã. No fundo eles se davam muito bem. Eram bons amigos, mas sua vida era implicar com a hipocondria dela. Vejam só! Ela acertou na mosca e ali estava ele já martelando planos para o fim de tarde no boteco da esquina, quando ouviu um grito que vinha da sala. Renato! Mas Renato, tu tomaste o meu anticoncepcional de sexta e sábado! A Inês era morta.


