Odenildo Sena

30 Nov

Olha essa do Renato

 

Desde que se entendia por gente convivia com a convicção de que essa coisa de gripe ou dor de cabeça não era páreo para sua saúde de ferro. Não que nunca tivesse sido acometido por elas. Apenas as ignorava e as tirava de letra. Sempre dizia aos amigos, em um tom de discreta arrogância, assim como elas vêm elas vão, não perco meu humor por causa disso. Muito menos tomo remédio. Mas aquele dia estava sendo diferente, ao ponto de precisar negociar com o chefe imediato sua dispensa do trabalho uma hora e meia antes do fim do expediente, decisão que tomou a contragosto.
Tudo conspirou contra no retorno para casa. Teriam todos se combinado para sair mais cedo do trabalho? O vagão do metrô estava tão acachapado de gente que, num dado momento, ergueu com dificuldade a perna esquerda, para debelar uma incômoda coceirinha no tornozelo, e, ao tentar retornar à posição anterior, notou que não havia mais espaço para o seu pé. Fez o percurso de três estações imaginando o estoicismo do personagem do Ziraldo, o Saci-Pererê. Como não bastasse, retirou brevemente a mão do apoio de segurança, para resolver outra coceira num lugar pouco recomendável, e, ao retorná-la, havia perdido a vez para o vizinho. Passou o resto da viagem ao sabor dos empurrões, feito aqueles bonecos teimosos que, empurrados para um lado e outro, acabam recuperando o equilíbrio.
Ao chegar a casa, a dor de cabeça havia passado dos limites. Precisou de três tentativas para se certificar de que a chave era aquela mesma e não estava tentando abrir a porta do vizinho. Seria algum castigo dos céus? Afinal, nunca levara dor de cabeça a sério. Tolice. Lembrou-se de que não acreditava nessas coisas. Quem sabe algum mau olhado no trabalho? Era só o que faltava! Uma mente cética, quase agnóstica, embarcando nessas crenças. Sem essa! Não cederia a essas vãs filosofias, mas à ciência. Lembrou-se que a irmã, a rainha da dor de cabeça, andava sempre com seu variado estoque de medicamentos atualizado para as mais variadas formas de manifestações das enxaquecas. Aliás, nesse mister, diante de qualquer reclamação tinha sempre na ponta da língua o diagnóstico e o comprimido certo para cada tipo de incômodo. Renato se viu obrigado a deixar o machismo de lado, sempre evocado pela irmã nas arengas entre os dois, e curvou-se à sua competência naquilo que por aí chamam de prática ilegal da medicina. Foi atendido em pé, diante da porta do banheiro, uma vez que ela se encontrava embaixo do chuveiro, coincidentemente relaxando após a superação de uma de suas crises. Essa, curada com um remédio milagroso recém-lançado no mercado. Me fala quais os sintomas da tua cefaleia. Não, eu estou mesmo é com muita dor na cabeça. Tá bom, Renato, como é a tua dor na cabeça? Não dá pra explicar. Só sei que está me azucrinando o juízo. Assim não dá! Não posso te receitar um medicamento sem fazer a correlação entre sintoma e terapêutica. Para os quintos dos infernos com a correlação terapêutica, eu preciso só de um comprimido pra dor de cabeça. Tá bom, teimoso, vou te indicar um genérico que serve para todo tipo de cefaleia. Na minha bolsa vermelha, que está na mesinha da sala, tem um comprimido vermelhinho que é bater e ver. Lançamento recentíssimo. Toma e me deixa em paz. Vai deitar.
Impaciente pra se ver livre daquele tormento, não contou conversa. Desembestou em direção à sala, expulsou o comprimido do invólucro na palma de sua mão, ensaiou correr até a geladeira pra pegar água, mas decidiu ingeri-lo no seco, assim ganharia tempo. Não satisfeito, abriu de novo a bolsa, pegou um segundo comprimido e, aí sim, foi até a cozinha e o empurrou com ajuda de um copo com água. Em seguida, refestelou-se na cama de seu quarto.
Passado algum tempo e já um tanto aliviado da dor, com os olhos fechados começou a rever alguns conceitos sobre a irmã. No fundo eles se davam muito bem. Eram bons amigos, mas sua vida era implicar com a hipocondria dela. Vejam só! Ela acertou na mosca e ali estava ele já martelando planos para o fim de tarde no boteco da esquina, quando ouviu um grito que vinha da sala. Renato! Mas Renato, tu tomaste o meu anticoncepcional de sexta e sábado! A Inês era morta.
 

17 Nov

Bertha Becker

Sabia que voltaria àquele texto. Já se passara mais de um mês do meu encontro com ele. E lá estava no canto direito da mesa me instigando para um reencontro. É sempre assim quando algum lance de uma leitura fica azucrinando minha cabeça. Quer seja por se ajustar às minhas expectativas quer seja por contrariá-las. Nesse caso particular, a razão foi a primeira.
Impressionam a sensibilidade e o pragmatismo com que Bertha Becker vislumbra o desenvolvimento da Amazônia sem o falso purismo dos que, vivendo no conforto das grandes metrópoles, advogam a preservação usando a ferramenta do santuário e da intocabilidade, como se essa parte do país fosse habitada por mais de 20 milhões de anjos que dispensassem bens materiais, qualidade de vida e pleno direito à felicidade. Por essas e outras me vi compelido a reler a entrevista concedida pela geógrafa a Maurício Barros de Castro, da National Geographic Brasil, e dela compartilhar dois pontos que considero fundamentais para qualquer debate sobre a região, tão cobiçada por outros, mas peremptoriamente desprezada pelos brasileiros.
Vejo, por exemplo, como um tom forte e mobilizador o princípio traçado por Bertha para sustentar o peso de seus argumentos: “A Amazônia não pode mais ser vista como o almoxarifado de recursos naturais de outras regiões do Brasil”. Acerta na mosca! O que se tem visto ao longo da história senão o odioso hábito de se extraírem matérias-primas brutas da região, sem nenhuma agregação de valor, as quais são enviadas para fora e, quando muito, ironicamente devolvidas sob a forma de produtos finos e sofisticados que nos custam os olhos da cara? Essa prática perversa sempre gerou um círculo vicioso no qual, de um lado, expropriam-se nossas riquezas e, de outro, impede-se a construção de cadeias produtivas completas e organizadas que possam gerar emprego, renda e bens materiais que sustentem a felicidade das populações que aqui vivem. É muito cômodo para a indústria lá fora arrotar marketing e fama de sustentabilidade em cima da marca Amazônia sem, entretanto, assumir seu papel de geradora de riqueza na própria região.
Outro aspecto que fortalece o discurso de Bertha em prol da economia como mecanismo fundamental para preservar a Amazônia é entender que a região tem características próprias de sofisticação e, como tal, deve ser tratada com sofisticação. Qual o significado disso? Não se pode preservar sem se conhecer; não se pode tirar proveito econômico e social das incontáveis riquezas da rica biodiversidade amazônica sem se gerar novos saberes acerca dela. E aí entra a defesa intransigente da geógrafa de que, nesse caso, o modelo de desenvolvimento da Amazônia passa, necessariamente, por um percurso “em que ciência e tecnologia definam modos adequados de uso, sem destruição, com distribuição equitativa da riqueza gerada no próprio local”.
Como bem se pode ver, aquilo que Bertha enxerga com tamanha clareza continua sendo um ponto cego para o restante do Brasil e seus sucessivos governantes, que teimam em negligenciar a região e em não saber o que querem da Amazônia. Apenas lamentável, se não fosse trágico.
 

17 Nov

Senhoras e senhores passageiros

Não está fácil ser passageiro de transportes aéreos no Brasil. Nada a ver com os enormes avanços tecnológicos alcançados a partir da inovação do mineiro Santos Dummont. Muito pelo contrário. A cada lançamento, esses pássaros de ferro se mostram mais seguros, confortáveis e modernos. E ponha modernidade nisso! São máquinas maravilhosas que encurtam caminhos e nos levam de um lugar para outro em período de tempo antes inimaginável. A questão, portanto, não está nisso nem naquilo. Vai muito além disso e daquilo. Não está no que, mas essencialmente no como. Pra ser mais exato, a questão está, como se diria de forma sofisticada, na negligência com que se dá o modus operandi. E, para constatar o fato, não precisa ser um viajante regular. Mesmo porque o raro é não passar por situações de desconforto. Quer ver? Conto só algumas experiências mais recentes, recheadas de acontecimentos que têm jeito de cômico, não tivessem forte dose de perversidade.
Uma das duas empresas que dividem a grande fatia do mercado inventou uma forma bastante original de dar mais agilidade ao embarque, sobretudo quando o voo está atrasado e alguém precisa assumir esse ônus. Esse alguém, claro, são sempre os passageiros. Ou seja, aquilo que é repetido à exaustão nas locuções - "para seu maior conforto" - é para o conforto dela, da empresa. Anunciam prosaicamente o início do embarque. Darão prioridade aos passageiros com alguma dificuldade de locomoção, passageiros acompanhados de crianças e portadores daqueles cartões fidelidade. Acontece que, muito antes das prioridades se aproximarem da entrada da ponte de embarque, a turba é imediatamente liberada logo atrás.  Parece um estouro de boiada. Aí é um salve-se quem puder. As prioridades que se defendam pra não serem atropeladas pela barbárie que, a todo custo, quer ser a primeira a entrar na aeronave. Como tenho alguma dificuldade de locomoção, por diversas vezes já tive que me proteger dos bárbaros encostando-me à parede e liberando a passagem para eles. Aí a prioridade passa a ser minha. Sou o último a embarcar, mas pelo menos chego ao destino ileso.
Não é incomum a negligência na manutenção do espaço dedicado aos passageiros. Dias desses passei por uma incômoda situação. Pra mim. Para os que estavam nas proximidades acabei propiciando momentos de boas risadas. Mesmo contidas. A aeronave decolou e, à medida que foi ganhando altura, o encosto de minha poltrona, em câmera lenta, foi cedendo em direção ao passageiro sentado atrás de mim. Surpreendido pela situação, o jeito foi nadar no seco com os braços em movimento como se estivesse me afogando. Resultado: cheguei ao aeroporto de destino com a coluna em desgraça pelo desconforto de equilibrar a mim e a poltrona.
Essa outra foi o fim da picada. Pra começar, um voo com destino ao Rio de Janeiro teve a escala em Brasília transformada em conexão. E isso da forma mais sorrateira. "Aos passageiros que aqui desembarcam, obrigado por tê-los tido a bordo. Demais passageiros com destino ao Rio de Janeiro favor permanecer a bordo". Daí a dez minutos, sem qualquer pedido de desculpas ou explicações, a manjada voz da comissária simplesmente avisa aos passageiros para desembacarem e se apresentarem a "um agente de aeroporto". Não satisfeita, a mesma voz nos dá o consolo de que, para "seu maior conforto", as poltronas na outra aeronave serão de "livre escolha dos senhores passageiros". Não é difícil imaginar como se deu o civilizado embarque na outra aeronave. Protegi-me como pude da turba, desesperada na correria rumo ao portão de embarque.
Mas a coisa não terminou por aí. O voo teve que ser desviado do Santos Dummont para o Galeão, depois de uma ameaça de pouso em Viracopos. Estacionada a aeronave, no procedimento chamado remoto, e a turba desesperada para desembarcar, a comissária avisa, na maior cara de pau, que teríamos de aguardar a disponibilidade de uma escada. O aeroporto estava com superlotação. Ficamos os passageiros em cárcere privado por mais de trinta minutos. Acredite se quiser.

17 Nov

Ressonância

O ritual que o antecede não é diferente de tantos outros exames. Fui encaminhado a um apertado cômodo, onde já me esperava uma proteção para os pés, em substituição aos sapatos, e uma bata azul, como sempre, vários números acima do meu tamanho, mas misteriosamente curta, deixando minhas canelas expostas ao frio do ar condicionado. Lá mesmo foi-me disponibilizado um pequeno armário, espécie de aluguel temporário enquanto lá permanecessem meus pertences. Enquanto curtia a indecisão de me exibir naqueles trajes e procurava em vão um bolso onde pudesse guardar a chave do armário, três toques diligentes na porta seguiram-se de uma voz orientando-me a aguardar na sala à direita, após o corredor. Como de praxe nesses momentos, somos dominados por um estranho sentimento de docilidade e obediência. Fiz o que me mandaram e lá me deparei com, pelo menos, dez criaturas em iguais condições: bata azul, chave pendurada em uma das mãos e olhares fixos no teto, como que eletrizadas por uma disputada atração. Não era nada disso. Só depois caiu a ficha. Olhar para o outro, naquelas condições, significava ver o ridículo de si próprio, mas com o consolo de que aquela indumentária nos fazia iguais durante aquela forçada convivência, sem nenhum ensaio para a fraqueza  da vaidade. As diferenças, em alguns casos, só seriam reveladas por aquela maravilha tecnológica que invade nosso corpo e fotografa nossas entranhas com absurda definição. Mesmo assim, sem oportunidade de compartilharmos esses resultados.
Chegou, enfim, minha vez. Escalei os dois ou três degraus que me permitiram alcançar aquela espécie de mesa metálica e me entreguei ao juízo daquela geringonça que atende pelo nome de ressonância magnética. Não havia dito antes, mas o doutor queria saber como andava minha cabeça, supondo encontrar alguma pista, mínima que fosse, para diagnosticar a razão de minha insistente e duradoura incompatibilidade com o que, outrora, sempre fora razão de prazer e deleite: o sono. Mesmo tendo-lhe adiantado durante a consulta que havia sido irresponsável comigo mesmo, impondo-me mais de cinco anos sem o ócio, criativo ou não, o que indicava tratar-se de estresse profundo, como bom profissional preferiu invocar o espírito de São Tomé e me fez recorrer ao quase falido plano de saúde. Dito e feito. Lá estava eu com a alma atenta e a matéria entregue à vontade e ao veredicto da tecnologia.
A doce atendente não entrou em muitos detalhes operacionais. Ajeitou-me no centro daquela plataforma, acomodou minha cabeça em um capacete que, de imediato, me fez sentir o próprio Darth Vaden, encaixou em minha mão direita um dispositivo macio que lembrava um interruptor e mandou um recado: se precisar manter contato, aperte esse botão que em pouco tempo a gente lhe atende. A máquina deu dois suspiros e meu corpo começou a ser tragado para as profundezas de uma cápsula fria, o que, desta vez, me fez sentir o próprio personagem que comanda aquele avatar no filme do James Cameron. Ameaça de pânico e só então entendi aquele recado sobre o botão. Contei até três, respirei fundo. Abortar aquela missão significaria reiniciar o processo do zero. Não podia deixar que tal acontecesse. Enquanto trabalhava uma alternativa para aquela emergência, a máquina começou a estrebuchar e a emitir uns zumbidos ora harmônicos ora desarticulados. Não contei dúvida. Fechei os olhos, respirei fundo de novo e encarnei o avatar do tempo de eu menino, correndo pelos quintais de minha infância, escalando as frondosas árvores frutíferas, alimentando as galinhas no terreiro do vizinho, observando os pacientes giros de um cata-vento e mergulhando profundamente nas águas claras e límpidas do igarapé de São Raimundo.
 

17 Nov

Exames laboratoriais

A pouca atenção para os detalhes ainda não me havia permitido perceber a curiosa cena. Fui alertado por uma amiga. Você já observou o que acontece quando as pessoas vão a um laboratório levar material para exames? Nada me motivou para que a ficha caísse. Fiquei aguardando que ela me desse a resposta, na expectativa do inusitado que tivesse me passado despercebido nas tantas e tantas vezes que estivera naquela situação. Pra falar a verdade, lembrei-me mesmo foi do tempo de eu menino, quando mãe anunciava na véspera que, no dia seguinte pela manhã, a rabiocada seria acordada cedo para colher material para os exames solicitados pelo doutor. Costumávamos dar uma de esquecidos, alimentando a malandragem de que cairia no esquecimento. Mas era assim, sempre que ela, do alto de sua experiência de mãe quinze vezes, diagnosticava que a turma miúda estava pálida, com fastio, bucho meio protuberante e nos levava ao prédio do Iapetec, onde funcionava o que talvez fosse um dos primeiros experimentos do SUS. Era o único e mais alto prédio de Manaus, vistosamente localizado frente à arborizada praça do antigo prédio da prefeitura, na rua Bernardo Ramos. A propósito, há até uma antiga história, disputada entre os mais antigos, que juram ser verdade, e os mais novos, que defendem ser anedota, que reza o seguinte. Primeira vez que um amazonense chegou ao Rio de Janeiro, ficou tão deslumbrado com a quantidade de prédios na Cidade Maravilhosa, que teria desabafado na maior das inocências: "Caramba, aqui tá cheio de Iapetec!" Mas não quero me envolver nessa celeuma, senão fujo do assunto.
Dizia, então, que na véspera havia todo um preparo logístico. De um lado, mãe reunia os vidrinhos recolhidos no quintal, que ficavam de molho com água e sabão, eram enxaguados e, depois, passavam por um processo de esterilização com água fervida em uma lata de leite Ninho em um dos dois fogareiros que ficavam no jirau de nossa casa. Idêntico tratamento recebiam as latinhas destinadas, digamos assim, ao material mais sólido. Cuidadosamente enxuto, esse vasilhame era identificado com o nome de cada um dos rebentos com a ajuda de tiras de esparadrapo. De outro lado, mãe nos orientava para mantermos o resguardo e a concentração, a fim de não anteciparmos o planejado. E não adiantava eventual tentativa de quebra daquele pacto. Bastava ela nos olhar e fazer um breve movimento com os lábios, para entendermos as consequências. O bom dessa história é que ela nos proporcionava um raro passeio até à cidade, nome que se dava ao centro de Manaus.
Mas voltando ao comentário de minha amiga, antes que dele eu me esqueça e acabe fazendo outro texto, fiquei interessado e ela me esclareceu, justo na véspera de minha ida ao laboratório para a coleta de sangue para o PSA, que faço religiosamente todos os anos. Em lá chegando, peguei minha senha e, enquanto aguardava que o painel cravasse meu número, antecedido daquele detestável toque de campainha, dei uma panorâmica pela sala de espera e visualizei o curioso cenário. Parece haver um acordo tácito de que ninguém olha pra ninguém, como se o material sólido e líquido guardado naquelas diversas sacolas não revelasse o elo inquestionável que coloca todos os seres humanos em condições de absoluta igualdade. Isto é, não fosse a luta de classes denunciada pelas sacolas do Carrefour, Zara, Mercadinho São José, Top, Lojas Americanas, C&A, DB, Arezzo, Ásia Fashion, Arsenal, Óticas Veja. Ô mundo desigual, eu hein?
 

17 Nov

A semana da ciência

Dia desses postei mensagem no Tuíter acerca do grande volume de informações que tem circulado diariamente nos meios de comunicação e nas redes sociais sobre acontecimentos científicos. E o fato não decorre apenas da vontade pessoal de que assim o seja, mas de um monitoramento rigoroso, feito de segunda a segunda por nossos colaboradores, constatando essa evidência. Penso que alguns aspectos podem ser considerados em torno desse alvissareiro acontecimento.
Em primeiro lugar, há que se levar em conta que se trata de algo novo, coisa dos anos mais recentes. Afora alguns poucos veículos de circulação nacional que sempre dedicaram espaços semanais ao tema, a grande maioria sempre se mostrou refratária a disponibizar para seus leitores, ouvintes e telespectadores matérias sobre ciência e tecnologia, exceção para aquelas pautas mais impactantes e sensacionalistas, principalmente na área médica. O princípio adotado pelas redações, como ouvi certa vez da boca de um diretor, era o de que “ciência não vende”.
Em segundo lugar, ainda que se tenha pela frente muita estrada a ser percorrida para colocar o Brasil entre as grandes potências científicas mundiais, caso dos Estados Unidos, Alemanha e Japão, é indiscutível que os investimentos em Ciência, Tecnologia e Inovação avançaram a olhos vistos na última década. Disso decorrente, mais pesquisas vêm sendo financiadas em todas as áreas do conhecimento, mais doutores vêm sendo formados (o país já alcançou os 12 mil por ano), mais e mais vem se incrementando a educação científica com a concessão de milhares de bolsas a estudantes do ensino fundamental, médio (o Amazonas é pioneiro nesses dois itens) e superior, sem contar com o início do processo (que é recentíssimo) de construção da cultura de que não basta somente desenvolver pesquisas sofisticadas, é preciso, respeitada a importância da pesquisa básica, transformá-las em produtos geradores de riqueza para a sociedade e em componentes de competitividade para o país frente a outras nações. Em outras palavras, ganha espaço a convicção de que inovar é a grande chave do negócio.
Em terceiro lugar, e o Amazonas também é pioneiro nessa ação, disseminou-se, entre profissionais e estudantes das diferentes vertentes da comunicação, o estímulo para a prática do chamado jornalismo científico, inclusive com a oferta de uma inédita pós-graduação lato sensu na área, parceria entre governo do estado, por intermédio da Fapeam, e a Fundação Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro. Com isso, vem-se criando um círculo virtuoso promissor no qual as ações se alimentam entre si. O aumento da produção científica e tecnológica cresce; com isso, cresce a abundância de pautas em todas as áreas; com isso, a mídia se vê motivada a compartilhar com a sociedade esses acontecimentos; com isso, a sociedade descobre que não só contribui com o financiamento da pesquisa como também é sua maior beneficiária; com isso, ainda, a sociedade torna-se a grande cúmplice e a maior avalista do propósito de que, descontinuar investimentos em CT&I, é um tiro no escuro.
Há, portanto, muito que se comemorar nesta 8ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Particularmente aqui no Amazonas.

13 Out

Os títulos de Lula

Como de hábito, acomodei-me na poltrona ao lado, bati a porta e preparei o mote da conversa para aquele percurso. É comum aproveitarmos o tempo, principalmente dos congestionamentos, para jogarmos conversa fora sobre a política local e nacional, a cidade, as barbaridades do trânsito, memórias da infância e as últimas do dia, que ele garimpa ouvindo nos noticiários das rádios locais. Já com o veículo em movimento, fiz o registro. A turma anda mesmo incomodada com os títulos que o Lula tem recebido mundo afora. Pela particularidade do tema, julguei que a resposta se limitaria a um “pois é”, sem gancho para outros desdobramentos. Enganei-me.
Com a frieza de quem tantas vezes enfrentou a escuridão das águas barrentas do Madeira para catar cascalho no fundo do rio em busca de ouro, sem saber se retornaria vivo à balsa na superfície, não se permitiu espaço entre minha provocação e sua história. “Sabe, professor, eu nunca tinha votado no Lula. Votei na última eleição dele. Engraçado isso. A gente sempre achava que pra ser presidente da República tinha que ter universidade, tinha que ser doutor, tinha que usar paletó e gravata. Ele chegou lá sem precisar disso tudo e fez tudo o que fez. Acho que isso ainda incomoda muita gente por aí”. Ora vejam, o que eu esperava dele como resposta acabou sendo a minha réplica. “Pois é”. Limitei-me a ficar em silêncio e a remoer aquelas palavras ditas com extrema simplicidade, mas de sentido político e social tão profundo. Ali estava a resposta, sem nenhum retoque, para a pergunta que havia circulado com intensidade nas redes sociais naquela tarde. Num ato falho que não surpreende a mim nem a muitos nesse país, uma repórter do jornal o Globo havia perguntado ao dirigente da instituição que concedera o mais recente título de doutor Honoris Causa a Lula, por que ele e não o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Senti que o dia estava ganho, mas meus inquietos botões não me deram sossego à noite, já em casa. E me pus a escanear na memória algum momento da história mais recente do país em que, com tamanha pontualidade e desfarçatez, diferenças políticas tenham servido de manto para acobertar o ódio e o preconceito que nossas elites nutrem por aqueles que, como Lula, se atrevem a contrariar suas tradições e interesses. Dos ex-presidentes da ditadura e passando por José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, nenhum registro que se assemelhe ao assinte, pra ficar em dois exemplos, de um deputado que se acha no direito de questionar a milenar Universidade de Coimbra por ter concendido a honraria ao ex-metalúrgico e do recente e grotesco episódio da correspondente do jornal O Globo.
Para meu conforto, entre uma reflexão e outra, deparei-me com um linque no Tuíter que me remeteu ao texto onde o jornalista argentino Martín Granovsky traduz com maestria o escondido desejo dos que se arvoram ser os donos do poder. “Seria bom que (Lula) soubesse que, antes de receber o doutorado Honoris Causa da Sciences Po, deve pedir desculpas aos elitistas de seu país. Um trabalhador metalúrgico não pode ser presidente. Se por alguma casualidade chegou ao Planalto, agora deveria guardar recato. No Brasil, a casa-grande das fazendas estava reservada aos proprietários de terras e escravos. Assim, Lula, agora, silêncio, por favor. Os da casa-grande estão bravos”.
Nada a acrescentar.
 

08 Out

Reecontro com Bandeira

O Arthur me pregou uma boa peça. Lembram-se do Arthur? Aquele primo meu que tem por arte e profissão cuidar de livros. Não, acho que estão confundindo. Ele não trabalha em nenhuma biblioteca. E se trabalhasse, com certeza dedicaria seu precioso tempo a tratar bem esse objeto milenar que tanto une as civilizações e mantém viva a História da humanidade. Arthur tem por ofício, que eu já chamei de raro e nobre, restaurar livros. Mais que isso, é um bruxo, um mágico que guarda consigo o extraordinário poder de rejuvescimento de livros. Pois foi aí que ele me pregou a tal peça. Conto agora pra vocês.
Deu-se que meu exemplar de “Estrela da vida inteira”, de Manuel Bandeira, corria sério risco de vida. Afinal, com seus 37 anos de existência, tantas vezes folheado e lido por mim e tantos outros olhares, estava em estado deplorável e em vias de perder sua unidade, com várias de suas folhas ensaiando um movimento separatista. Recorri, então, às mãos mágicas do Arthur, que, uma semana depois me devolveu o Bandeira – pasmem! – inteiramente rejuvenescido, com capa dura, sem descaracterizar a capa original, proteção plastificada, nova folha de rosto, páginas lavadas e enxaguadas e, o que é mais impressionante, com aquele cheirinho estimulante que só os livros novos têm. Não disse que ele é um bruxo? Mas eu preciso registrar um pequeno, mas para mim, relevante detalhe: O zelo e a paixão do Arthur foram tão grandes, que ele se deu o trabalho de voltar ao original todos os cantinhos superiores de página que, dobrados há três decadas e sempre à direita, marcavam meus poemas prediletos do Bandeira. Dei-me conta disso nesses dias. Curioso como me senti desnorteado com aquele golpe. Afinal, estava habituado ao gesto cômodo de me guiar pelas dobrinhas e chegar sempre ao porto seguro e escolhido das palavras e arranjos simples, mas deliciosamente poéticos do Bandeira.
Na busca de alento, imaginei que Arthur, bruxo que é, havia posto em minhas mãos o desafio de redescobrir Bandeira, vez que eu teria que empreender nova e paciente viagem por todas as quase quatrocentas páginas do volume. Num beco sem saída, não contei dúvida. Comecei, como se diz, do começo e, até agora, nada tenho de que reclamar. Estou reencontrando velhos poemas amigos e descobrindo outros, fantásticos, injustiçados por minha insensibilidade nas primeiras leituras. “Três idades”, por exemplo, havia passado batido e lá encontrei esta pérola de verso: “És triste até quando sorris…”  Do mesmo modo, “Desesperança”, onde o poeta crava na última linha um verso carregado de contundência: “ – Ah, como dói viver quando falta a esperança!” Ou, ainda, na primeira estrofe do “Madrigal melancólico”, quando Bandeira acena para a realidade simbólica do discurso: “A beleza é um conceito. E a beleza é triste. Não é triste em si, mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza”. Isso sem contar com a releitura de “Poética”, “Profundamente”, “Irene no céu” (Como eu gosto deste!), “Vou-me embora pra Pasárgada” (Refúgio de todos os sonhos!), “Último poema” (Tão tenso e dramático, meu Deus!) e tantos e tantos.
Ah! Não contem para o Arthur Sena que aumentou o número de páginas com o cantinho superior direito dobrado. Será bronca na certa.
 

27 Set

O caos nosso de cada dia

“Cruzamento. Sinal verde. Motorista acelera e avança. Freada súbita. Susto. Outro tranquilo motorista avançara o vermelho. Indignação. Mãe ofendida. Para o primeiro, uma estupidez. Para o segundo, fato corriqueiro. Afinal, estamos na cidade de Manaus. O rigoroso Código Brasileiro de Trânsito ainda não entrou em vigor. O que vale e se respeita é uma estranha convenção de rua. Como se tivesse força de lei. No que tange aos equipamentos do veículo, essa convenção tem estranhas particularidades. O pisca não tem valor algum. Dobrar a direita ou à esquerda, mudar de faixa, dá tudo no mesmo. Quando se trata de ônibus, às vezes ele é acionado. Mas para indicar ao motorista ao lado que se deve proteger. Se, numa rua movimentada, o pisca-alerta é ligado, indica apenas que o motorista está trocando umas palavrinhas ao celular. Não deve ser perturbado. No que tange à iluminação, também não é diferente. Lanterna, luz alta ou baixa, tanto faz. A conveniência é de cada um. O outro que fique cego e sem rumo. Os pneus, por sua vez, devem ser usados até o surgimento dos ferros. Mas se der para colocar um remendo, vão longe ainda. E a buzina? Nada de, numa situação extrema, dar aquele toque breve. Independente do local e da hora, ela pode ser acionada em alto e bom som. Já o cinto de segurança é objeto puramente decorativo.
A circulação de veículos também tem suas particularidades. Caminhões, carretas pesadas e ônibus têm preferência pela esquerda. E lá ficam grudados. Pequenos sinais de que alguém está pedindo passagem torna-se um insulto. O motorista à frente poderá reduzir a velocidade. A saída é ultrapassar pela direita. Não sem antes levar uma densa e negra baforada. Quem manda importunar. Mas, se você estiver dirigindo na pista da direita, com velocidade reduzida, e perceber insistente luz alta e agressiva buzinada, não hesite, sob pena de ser chamado de leso. Imprima bastante velocidade ou passe imediatamente para a esquerda. O decente atrás quer ultrapassá-lo. Nesse caso, perca a esperança de encará-lo e lançar um olhar de indignação. A película do carro dele é 100%. Por outro lado, se o veículo à sua frente trafega sobre a faixa que divide a pista, impedindo-o de qualquer ultrapassagem tanto pela esquerda quanto pela direita, entenda, por favor. A faixa tem outra função: auxiliar a atividade motora do condutor.
Tem mais. Estacionamento de veículos? Liberdade total. Na Bola do Mindu, por exemplo, nada mais comum que automóveis e caminhões parados na rótula. Os desinformados que deem seu jeito de desviar. Mas a preferência de muitos é exatamente ao lado daquelas superadas placas que indicam ‘proibido estacionar’. E à noite? Carretas, caminhões e ônibus ressonam, sem nenhum incômodo, no escuro meio-fio de qualquer pista. Incomodados que se lixem. Basta manter sempre luz alta e fazer desvios bruscos. Automóveis sem iluminação alguma em sua direção? Não xingue, você poderá aborrecer o seu companheiro motorista e ter o nome de sua mãe envolvido. Lembre-se: aqui, à noite, no trânsito, todos os gatos são pardos.
Cruzamento qualquer. Sinal vermelho. O motorista olha para um lado e outro. Lentamente avança. Está apressado? Transporta alguém necessitando de primeiros socorros? Como se dizia no tempo de eu menino, vai tirar o pai da forca? Não. Apenas avança compulsivamente rumo a um irrefreável e doentio estado de barbárie.”
Embora pareça atual, acredite, este texto foi publicado há sete anos!

20 Set

A escola e a vida

Velha mania que sempre dá certo. Por falta de tempo para a leitura imediata ou outra circunstância qualquer, sempre guardo frases, recortes de revistas ou jornais em um canto da mesa de trabalho. A esperança é que em algum dia e momento volte a me encontrar com esses guardados. Vez ou outra, quando o tempo me dá uma trégua, recorro a essa espécie de arquivo vivo e encontro pistas que acabam dando pano pra muitas e boas mangas. Nesses dias, flagrei nesse amontoado de coisas uma página subtraída da revista Carta Capital que me deixou bastante feliz. Nela encontrei uma curta matéria que aborda detalhes de uma pesquisa científica cujos resultados apontam para uma direção que eu já havia empiricamente trilhado e comprovado há muitos anos. Pode haver situação mais confortante do que ver nossa experiência pedagógica comprovada pela ciência? Dá uma alegria danada e até uma ponta de orgulho saber que, com isso, compartilhamos conhecimentos e contribuímos para a formação de tantas pessoas no espaço de sala de aula.
Mas afinal, de que trata a matéria do bendito recorte quase esquecido no canto direito de minha mesa de trabalho em casa? Simples. Desenvolvido por Edwin Morris, da Universidade de Edimburgo e publicado na revista Science, explica que “é mais fácil para o cérebro aprender mais sobre assuntos que já conhecemos. Para aprendermos um conceito novo existe um envolvimento mais amplo do córtex cerebral, mas adicionar um conhecimento é muito mais simples. A equipe do cientista descobriu um grupo de genes ativados somente para adicionar memória ao que já foi aprendido”. Em outros termos, um processo de aprendizagem se torna mais eficiente quando parte do conhecido para o desconhecido.
Caramba! Parece tão óbvio, não? É bem verdade, mas essa obviedade acaba sendo, no geral, desconsiderada por professores e livros didáticos de ampla circulação no contexto da escola. No caso particular do ensino da variedade culta de nossa língua, para ficar só nesse exemplo, os professores continuam entrando em sala de aula e prometendo aos alunos “ensinar-lhes língua portuguesa”. Como se possível fosse eles chegarem ao espaço escolar ignorantes de quaisquer conhecimentos acerca de sua própria língua materna. Ninguém precisa frequentar escola para dominar sua própria língua! Ela nos é socialmente imposta, independentemente de nossa vontade. O desafio da escola, então, não é “ensinar língua portuguesa”, mas motivar os alunos a aprenderem a variedade socialmente prestigiada e reconhecida, que alguns chamam de norma culta da língua. E se esse processo se dá capitalizando o conhecimento prévio do falante, como confirma cientificamente a pesquisa do doutor Morris, o caminho será mais curto e sem frustrações.
Pois foi a incompreensão dessa obviedade que levou a mídia e os linguistas de ocasião a injustamente lincharem o livro didático “Por uma vida melhor”, da professora e pesquisadora Heloísa Ramos. Lembram-se?
 

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