Odenildo Sena

17 Nov

O jeito TAM de voar

Sou admirador extremado de frases publicitárias. Principalmente daquelas que não deixam espaço para que o suposto destinatário se coloque fora de seu raio de alcance. Talvez seja uma forma de compensar minha frustração por não ter buscado a carreira. Gosto muito, por exemplo, daquela frase enunciada pelos comissários da TAM, ao final de cada vôo: “Sabemos que a escolha da companhia aérea é uma decisão do cliente. Obrigado por escolherem a TAM”. Não importa a contingência que levou o passageiro a estar naquela aeronave. Pode ter sido até falta de opção, afinal, o mercado brasileiro não é nada competitivo, ou mesmo puro alheamento, ou, ainda, oportunidade de um preço inferior. O fato é que a segunda parte da frase ratifica, de forma indefensável, que o passageiro escolheu convicta e livremente a empresa. Mas há outras frases, bem formuladas, com o propósito deliberado de não colocar o usuário contra a parede. Apesar de permitirem toda e qualquer forma de encaixe, conduzem habilmente à referência ao produto originalmente anunciado, cumprindo, assim, o objetivo maior da publicidade, que é colar no consumidor determinada marca. Estou me lembrando do anúncio do publicitário Washington Olivetto sobre o primeiro sutiã. Quanta repercussão ele teve e tem até hoje, com a substituição do nome do produto pela conveniência de quem enuncia a frase. Tudo pela sua leveza, empatia e graciosidade. Há outros enunciados publicitários, entretanto, que, dependendo das circunstâncias, permitem certos encaixes que ressaltam muito bem as pisadas na bola da empresa anunciada. Estou agora me lembrando de uma outra frase que se refere ao “Jeito TAM de voar”. Dia desses, cheguei ao aeroporto de Manaus às 13h30. O vôo partiria às 15h para São Paulo. Feita a chamada, todos os passageiros embarcamos. Acomodados, aguardamos uns cinqüenta minutos até ouvirmos “tripulação, portas em manual”. Aeronave em deslocamento, concentro-me na leitura. Decorrido algum tempo, que me pareceu tão longo, ouço, de novo, a mesma frase. Estávamos de volta à ponte. Problema técnico em uma das turbinas. Mais um longo tempo e fomos convidados a desembarcar. Mais um longo tempo no saguão e fomos convidados a embarcar outra vez. Mais um longo tempo, “portas em manual”. Agora vai! Aeronave em movimento, concentro-me na leitura. Mais um longo tempo e desperto: “portas em manual”. Outra vez, convidados a desembarcar. Vôo cancelado. Mais de duzentos passageiros tontos, perdidos no saguão. Nenhuma orientação. Serviço de som emudecido. Nenhuma viv’alma vestida de vermelho. Reclamar a quem? Às 19h30 consigo minha mala de volta. Seis horas de aeroporto! Sem sair do chão. Volto pra casa abatido, desencantado do Infraero e da Anac. Seria esse o jeito TAM de ser irresponsável?

 

11 Nov

A brava resistência de Cuba

Abro o Diário do Amazonas. Desvio, de propósito, das matérias sobre economia. Já estou sem paciência para agüentar os humores do tal mercado. Ainda assim, não resisto a uma declaração, no mínimo, graciosa do presidente Obama. Ele afirma que a crise é global, por isso a solução tem que envolver a todos. Na leitura da declaração, eu já me permito construir paralelamente outra: “nós fizemos a farra, mas os prejuízos têm que ser divididos com todos vocês”. Tivesse em minha plena meninice, eu saberia muito bem responder a ele com aquela famosa história da pimenta, acrescida daquela frase que era muito do gosto de minha mãe: “quem pariu Mateus que o embale”. Passo a página e uma pequena manchete no cantinho me chama a atenção. Pela décima sétima vez a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução pedindo o fim do embargo econômico e comercial imposto pelos EUA a Cuba há meio século. Só que, desta vez, com um placar arrasador. Apenas três, dos 102 países que integram a ONU, incluindo naturalmente os donos da crise econômica mundial, votaram contra. Ato contínuo, ativo a memória e me vem à lembrança a recente e primeira viagem feita à Ilha, sonho quase tão antigo quanto o tempo de pura prepotência americana contra aquele minúsculo país do Caribe. Nada como ler, conhecer e conviver, ainda que por pouco tempo, para formar convicção das razões do ódio de meio século que os americanos nutrem por Fidel e seu regime. Note-se que, de propósito, excluí Cuba desse ódio. Sim, porque do ponto de vista geográfico e físico tudo no país, principalmente em Havana, me levou a crer o quanto os americanos adoravam e se deliciavam com os prazeres postos a sua disposição por Fulgencio Batista, uma espécie de capataz a serviço do tio Sam. Os vestígios dessa outra farra, inevitavelmente corroídos pelos cinqüenta anos desde a Revolução Cubana, espalham-se por todos os lados em Havana. As centenas e centenas de carros americanos das décadas de 40 e 50, todos modelos de extremo luxo para a época, circulam sofregamente, alguns, por puro milagre; outros, pelo excesso de zelo e conservação. Se, de um lado, representam a enorme capacidade de reinvenção e resistência do povo cubano, de outro, simbolizam o que foi uma ostensiva e descabida intromissão em terra alheia. Um antigo exemplo de que os americanos estão acostumados a promover a farra e cobrar a fatura de seu prejuízo e estupidez ao resto do mundo.

03 Nov

O mercado no divã

Os comentaristas econômicos me causam incômodo. Com espantosa naturalidade, atribuem personalidade e caráter a esse ente abstrato e materialmente inexistente chamado mercado de capitais, transferindo-lhe reações e sentimentos exclusivos do ser humano. Incomum, por exemplo, ouvirmos que o mercado, num dado momento, ficou inquieto e nervoso em conseqüência das declarações de fulano ou sicrano? Ou, ainda, que amanheceu disposto, provocando otimismo nos investidores, mas ao final do dia teria se estressado com a incerteza nos rumos da política americana, provocando uma forte queda nos índices das bolsas de valores? Essa odiosa personificação acaba rimando com a ilusão de que o mercado encarna a figura de um sujeito sensível, emotivo, responsável e extremamente preocupado com o bem-estar do próximo. E esse perverso jogo ganha extremo realismo com o papel coadjuvante da mídia. Dia desses, um certo jornal estampava em sua primeira página que nem Freud teria explicações para o atual comportamento do mercado. Simplesmente cômico, se não fosse trágico. Pois não é que a realidade imitou a ficção! O mercado acabou sendo o tema paralelo mais discutido entre os participantes do recente Congresso Brasileiro de Psiquiatria reunidos em Brasília! Aliás, não exatamente o mercado, mas as trágicas conseqüências – para entrar na onda da personificação – de sua explícita irresponsabilidade. Os especialistas ressaltam que as crises financeiras representam um elemento propulsor para o aumento das doenças psíquicas, do consumo de álcool e de drogas e que as pessoas com predisposição para determinados distúrbios mentais, levadas pelo estresse e pela ausência de perspectiva, tornam-se propensas a atitudes extremas, como o suicídio. Mas a tragédia não termina por aí. Mesmo quem não colocou um tostão sequer de seu parco dinheirinho nas mãos do mercado sofrerá as conseqüências dessa orgia na forma de recessão, menor crescimento econômico, desemprego e fome. Isso é o que verdadeiramente se chama de distribuição de lucros entre poucos (quando o mercado está um bom camarada) e socialização da desgraça entre todos (quando ele resolve ficar mal-humorado).

28 Out

Unindo forças contra a malária

As fundações estaduais de amparo à pesquisa representam a grande novidade no estímulo ao avanço da ciência no Brasil. Até há pouco tempo restritas a cinco estados, hoje elas somam vinte e três instituições. Ao lado das agências federais de fomento, somam esforços e recursos para oferecer condições favoráveis a que o país ocupe o seu merecido lugar ao lado de outras nações que despertaram para o fato de que produzir conhecimentos científicos e inovação tecnológica são fatores essenciais ao desenvolvimento e à consolidação da soberania. Reporto-me a isso em função de três considerações que têm estreito nexo entre si. A primeira tem a ver com o relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), dando conta de que o Brasil está entre os 30 países com maior incidência de casos de malária, particularmente concentrados na Região Norte e nos estados do Mato Grosso e Maranhão. Apesar do desencontro dos números (A OMS diz terem sido registrados 1,4 milhão de casos da doença no país; o ministro da Saúde bate pé que foram apenas 550 mil), o fato inquestionável é que o número de mortes causado pela doença, principalmente entre crianças menores de cinco anos, o rastro de sofrimento deixado pelo caminho e a fabulosa soma de recursos públicos investida no seu controle são razões suficientes para empreender uma luta mais sistemática contra a malária. A segunda consideração – que representa uma grande novidade – diz respeito à iniciativa do Amazonas, por meio de sua fundação de amparo à pesquisa – Fapeam, em articular a criação de uma rede de pesquisa em malária – a Rede Malária – que, solidariamente, encontrou eco em seis outros estados da federação – Pará, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso. Somados, os recursos estaduais e federais, via CNPq, já indicam investimentos de 20 milhões de reais, podendo alcançar os 30 milhões com a boa parceria do Ministério da Saúde. Na prática e no formato da Rede, pela primeira vez, e de forma articulada, tantas fundações estaduais de amparo à pesquisa, instituições federais e cientistas unirão esforços, recursos e diferentes competências científicas em prol de uma causa objetivamente comum. A terceira e última consideração tem como foco o IX Encontro Nacional de Pesquisadores em Malária, sediado em Manaus a partir deste domingo e reunindo mais de duas centenas de cientistas brasileiros e de diversas outras nacionalidades. Não poderia haver melhor cenário para socializar o ineditismo da ação, que resultará na criação da Rede Malária.

 

18 Out

Era só o que faltava

Acredite, se quiser. Acostumado a viver de apagar incêndios, com ações de caráter sempre imediatista, o Brasil já convive com uma situação no mínimo inusitada: a carência de capital intelectual no setor tecnológico, notadamente nas chamadas engenharias, aponta para o comprometimento do avanço econômico do país. Diante desse flagra, denunciado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), começam a surgir idéias para amenizar o problema. Sabe-se que há um número considerável de engenheiros desenvolvendo atividades no exterior. Mas como trazer essa gente de volta, com salários pouco compatíveis em relação aos pagos nos países onde se encontram? E preciso privilegiar investimentos para a formação de mestres e doutores nas engenharias. Mas como obter retorno, se a demanda está minguando a cada ano e os estudantes da área são fisgados com ofertas irrecusáveis de estágio, o que muitas vezes redunda no atraso da conclusão do curso e torna pouco atrativa a pós-graduação? Outra saída é investir pesadamente em pesquisa. Mas de que adiantaria, se sobram recursos e faltam projetos e pesquisadores nessas áreas? A situação é muito mais séria do que se imagina, porque põe um freio no desenvolvimento, justo quando o país desfruta de investimentos assegurados e, o que é mais importante, toma-se plena consciência de que não há outro caminho para ele ocupar o seu merecido lugar ao sol senão pelo avanço da ciência e da inovação tecnológica. Penso que tudo o que foi, por pura provocação, contestado acima, precisa continuar sendo feito. Mas se faz necessário investir a longo prazo, a perder de vista. É preciso começar a formar hoje os engenheiros e os cientistas de amanhã. E é exatamente aqui que entra o grande mérito do Programa Ciência na Escola, o PCE, iniciativa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas em parceria com a Sect, Seduc e Semed. Pioneiro no país, ele investe no estímulo e nas condições para que alunos e professores do ensino público fundamental construam sua paixão pela ciência. E tudo como manda o figurino. Os projetos são avaliados por um comitê de especialistas, que julga o seu mérito, os participantes recebem bolsa de estudos da Fapeam e se obrigam, ao final de seis meses, a apresentar publicamente o produto de seu trabalho, em rigoroso processo de avaliação. Em outras palavras, o programa mira no presente para acertar no futuro, além de representar uma acertada política de inclusão social pela ciência.

14 Out

A devassidão do mercado

Não sei quem é o mercado. Nunca o vi mais gordo. Nem sei onde ele mora. Como diria o velho Machado, não o conheço nem de vista nem de chapéu. Também duvido muito que o nosso mais célebre escritor tenha tido qualquer interlocução com esse ente. Não me cabe, portanto, falar de nenhuma proximidade com a tal criatura. Tenho vivas na memória, entretanto, algumas lembranças de terceiros que diziam ou pareciam ter bastante intimidade com o dito. Sei, por exemplo, que no reinado do sociólogo-presidente-do-Brasil, dizia-se a bocas largas que o mercado era uma referência de juízo e competência, em quem se poderia depositar cega confiança. Tanto que carregava consigo o extraordinário poder de administrar as relações comerciais e empresariais entre os cidadãos de um país e do mundo. Tanto que a mídia, pela voz uníssona de nossos abalizados economistas de plantão, referia-se a ele na intimidade como “mercado regulador”, salvação de qualquer pedaço do mundo que compreendesse e se submetesse a uma tal de globalização, também conhecida por muitos, mas vista por tão poucos. Tanto que se generalizou a fé, ardorosamente, aliás, professada e defendida com fervor pelo sociólogo-presidente-e-seus-fervorosos-seguidores, de que ao Estado caberia recolher-se à sua insignificância e estupidez, entregando as rédeas da economia da nação ao mercado, só ele competente para dar conta da complexa tarefa de entender e bem administrar os desafios impostos a nós pobres mortais. Tanto que, em nome desses inabaláveis princípios, vivemos, como todos bem se lembram, a desenfreada febre da privatização. Vendeu-se quase tudo no país. A Petrobrás, nossa galinha dos ovos de ouro, escapou fedendo, como se diz pelas bandas de cá. Mesma sorte não coube à nossa Cosama, que, em compensação, teve merecidos momentos de glória nessa campanha eleitoral. Enfim, proclamava-se que o mercado tinha que ser grande e o Estado mínimo. Continuo sem entender muita coisa. Os jornais dizem que o mercado anda bastante nervoso e inquieto, tem perdido a calma. Na semana passada chegou a se estressar e entrar em pânico. Nem o velho Freud teria explicações para isso. Só sei dizer que, de minhas lembranças, sempre que enfrenta crises existenciais, o mercado torna-se perverso, devasso, irresponsável e oportunista. E tem sempre o odioso hábito de curar sua ressaca às custas de quem não comeu, não bebeu e nada teve a ver com sua orgia.
 

07 Out

O fantástico mundo do texto e da leitura

Não estou dizendo nenhuma novidade. Apenas lembrando um fenômeno pouco perceptível, mas de enorme alcance e complexidade. Ao se postar diante de um texto, incluindo naturalmente este que você começa a ler, o leitor nunca se comporta como um ser passivo. Embora, no geral, ele não tenha consciência disso, a sua interlocução é permanente, sem que para isso precise esboçar qualquer manifestação visível: algumas vezes torna-se cúmplice do que lê, outras, reage com indignação; num dado momento propõe correções ao rumo do texto, em outro, silencia ou até se acovarda; em certas circunstâncias absorve linearmente o que está sendo dito, em outras, remete o texto a outros textos e contextos, além de, ao longo da leitura, construir textos paralelos que obedeçam aos seus interesses e às suas representações sociais internalizadas. Enfim, o texto não é um objeto acabado. Trata-se de uma obra sempre aberta, de uma rede complexa de infinitas relações que estão sempre além e aquém dele próprio. Um exemplo? Quem já não passou pela experiência de produzir um texto, permitir a ele um período de descanso em algum canto da mesa ou alguma gaveta e, num dado momento, reencontrá-lo e se dar conta de que não era bem aquilo que se desejaria dizer, não era bem daquele jeito que se queria construir algumas frases, não era bem aquela a melhor posição de um adjetivo ou advérbio, não era exatamente aquele efeito de sentido que se desejaria atribuir? Uma explicação? Ao retomar contato com aquele texto, outras e infinitas leituras já haviam gerado tantos e tantos outros textos que passaram a ocupar espaço no disco rígido de nossa memória, desbancando, inclusive, outros textos aparentemente salvos e consolidados. Razões não faltam para isso. Uma delas está no fato de que um texto, seja ele qual for e de que natureza for, nunca reflete um produto de pura originalidade. Sempre será resultado de fragmentos de outros textos que, velada ou explicitamente, ao longo de nossa experiência de vida, acabaram sendo absorvidos. Trata-se da intertextualidade ou da interdiscursividade referidas pelos estudiosos da literatura e do discurso. O trabalho, portanto, de quem escreve um texto consiste na tentativa de dar unidade a pedaços de textos que não são seus e, o que é mais sério, sob ordens que a própria razão desconhece. Trata-se de uma obra de engenharia e arquitetura. Somos, enfim, meros atravessadores dos textos alheios. Ou você ainda tem alguma dúvida de que este texto que acaba de ler é, no fundo, uma uma bem engendrada colcha de retalhos?

29 Set

O jornalismo da neutralidade

Gosto muito mais do tempo em que se acreditava piamente que o chamado texto jornalístico era marcado pela neutralidade e que o jornalista era o sujeito que tinha a sagrada missão de passar aos leitores o relato fiel dos acontecimentos, sem nunca manchar a matéria com o que achava ou deixava de achar. Opinião? Nem pensar! Presença camuflada ou não das marcas da primeira pessoa do verbo? Uma mácula inaceitável que comprometia a pureza e a imparcialidade do texto! Uso de adjetivos? Ostensivamente proibido! Denunciava o supremo envolvimento do profissional com os fatos e dava margem a que seu texto fosse classificado como subjetivo. Palavras de efeito conotativo? Prática desaconselhável!Poderia suscitar interpretações dúbias, portanto diferentes daquela projetada pelo autor da matéria. A escolha deveria recair sempre nas palavras de efeito denotativo, tidas como as que melhor expressavam a realidade. Todo esse zelo chegava até aos editoriais. Apesar de tradicionalmente representarem o ponto de vista do veículo, eram produzidos com a parcimônia de quem falava na condição de um sujeito sempre distante, intangível, neutro e, por conseqüência, dono de verdades inatacáveis. Os textos que se permitiam contrariar essas regras eram assinados pelos colunistas, a quem era imputada a responsabilidade por eventuais desatinos. Lembro-me muito bem de que textos outros passíveis de transgredir as regras de imparcialidade apareciam, na mídia impressa, com uma cercadura. É fato, por outro lado, que os modernos estudos sobre o fenômeno da linguagem, notadamente no campo da Teoria do Discurso, desconstruíram a ilusão da neutralidade. Pelo princípio de que o social e o ideológico são constitutivos da linguagem, a subjetividade passou a ser vista como inerente a ela. Ainda assim, eu continuo gostando mais daquele tempo em que havia “neutralidade” nos textos jornalísticos. Pelo menos essa crença desafiava os profissionais da área a focar suas matérias muito mais nos acontecimentos, o que é perfeitamente possível, e menos naquilo que acham ou deixam de achar. Muito mais que mediadores, hoje eles se acham os donos absolutos e intocáveis da verdade.

22 Set

Canalhice a toda prova

Quem não concordar que atire a primeira pedra: não há serviço mais humilhante, mais desrespeitoso e mais canalha do que o dispensado pelas empresas que atendem seus usuários pelo chamado call center. A começar pela interlocução inicial, que obriga o cidadão a escolher entre as infindáveis e confusas opções que lhe são impostas por uma voz metálica e impessoal. Mas a situação não pára por aí. Essa escolha nunca direciona para o atendimento que você deseja. É sempre necessário perambular por outras teclas, obediente ao comando imperturbável da dita e odiosa voz. Penso que o propósito inicial é mesmo fazer com que a pessoa desista logo de entrada, reduzindo a demanda pelo atendimento. Sem contar com a longa tortura inicial de espera, ao longo da qual a pessoa é obrigada a ouvir, numa interminável repetição, os apelos para aquisição dos mais variados pacotes de invejáveis serviços, como se ela não estivesse perdendo seu precioso tempo exatamente para reclamar deles. E sem contar, ainda, com toda a probabilidade de, na sorte de ser atendido, a ligação cair (será acidental?) e o otário (do cliente, é claro!) precisar iniciar todo o processo e entregar mais trinta minutos a uma hora de seu preciosíssimo tempo a esses abomináveis atravessadores de plantão. Recentemente fui vítima de uma dessas situações surrealistas e absurdas. Há quase uma semana sem o serviço de banda larga (?), vi-me obrigado a enfrentar esse rosário. Após fornecer repetidos dados de meu prontuário de cliente e os sucessivos intervalos de espera (o sistema está sempre muito, muito lento, embora a empresa venda serviços de banda larga), narrei minha história (inúmeras vezes interrompida pelo enfadonho pedido “um momento senhor”) e apelei pelas providências. Em seguida aos vários truques manjados de liga e desliga o modem, a voz da criatura sentenciou que no dia seguinte mandaria um técnico à minha residência, não sem antes, para minha surpresa, ameaçar que, caso não estivesse em casa, eu seria obrigado a pagar uma taxa de “visita improdutiva”. Indignado, lembrei-lhe que há uma semana estava improdutivo e perguntei quem pagaria por isso. Respondeu-me, armado de deboche e cinismo, quase rindo, que nada poderia fazer. Pedi para falar com seu superior, disse-me que não era possível. Insisti, apelando para os meus direitos de cidadão. A criatura fez ouvido de mercador e silenciou. Dei-me conta de que o mundo de lá é dos nets; o daqui, dos otários.

16 Set

Da leitura à infância

Um texto não é apenas um repositório de informações. Esse é o mais visível de seus propósitos, mas há um sem número de outros que formam uma complexa teia de relações. Um texto não tem um fim em si. Ele é um elemento intermediário. No mínimo um pretexto que conduz o leitor a outros textos, outros mundos e a uma infinidade de situações vividas ou a viver. Um despertador que aciona lembranças e segredos adormecidos em nossa alma. Explico-me. Lia um pequeno texto, em uma dessas revistas de bordo, que falava de uma nova opção de lazer chamada “turismo eólico”. Trata-se de conhecer e curtir vastos campos enfeitados por gigantescos moinhos, usados para a geração de energia limpa e renovável, coisa que os europeus, com muita sensibilidade, apelidaram de “fazendas de vento”. Num dado trecho – e só me dei conta disso minutos depois –, em que autor ressalta ser muito antiga a admiração humana por moinhos, deixei lentamente a revista de lado e fui conduzido a um outro contexto, bem distante no tempo, mas vivo na memória. Meus moinhos e cata-ventos! Eu os construía com paciência e tenacidade quixotescas. Recolhia sobras de madeira desprezadas no fundo do quintal e aparelhava dois pedaços estreitos e retangulares. Calculava com exatidão o seu ponto central, no qual abria um pequeno furo com ajuda de uma ponta de um prego em brasa aquecida no velho fogareiro da casa, juntava-as em forma de cruz e fixava as duas peças com miúdos preguinhos. O passo seguinte era catar latas de óleo (os quintais de minha infância eram sempre férteis em matérias-primas!), abri-las com muito cuidado e cortar quatro pedaços em tamanhos iguais que, pregados na extremidade de cada haste de madeira, davam forma a uma espécie de hélice, que, com os complementos, lembravam um avião sem as asas. Restava o desafio de prender o cata-vento na ponta de uma longa vara, ergue-la e fixá-la com a ajuda de barbante e pedaços de arame velhos. Agora era deitar no chão do quintal e, tendo o céu por testemunha, ver o vento dando incessante vida àquela máquina maravilhosa. O motivo de minha paixão pela brincadeira, tão simples, um dia vou encontrá-lo em outros textos e outras leituras.

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