Odenildo Sena

31 Ago

Monumento à soberba

Dias atrás, andei trocando mensagens no Tuíter com o jornalista Valmir Lima. Tudo começou quando usei meus sagrados 140 caracteres para partilhar minha alegria com fato do governador Omar Aziz ter sinalizado, em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, com a autonomia da Fapeam. De pronto, ele indagou-me se o ex-governador Eduardo Braga havia prometida a mesma coisa. Disse-lhe que nunca isso havia sido cogitado. Ele ironizou, dizendo que “essa história da autonomia no governo Braga”, lembrava-se bem. No dia seguinte, Valmir Lima me encaminhou uma matéria via Tuíter, postada pela jornalista Aruana Brianezi, comprovando que o ex-governador havia, sim, prometido a autonomia da Fapeam em 2007, mas recuado alegando a queda da CPMF. Diante do fato, postei um texto no mesmo Tuíter reconhecendo o mérito da boa memória do jornalista e a falha do que eu chamei de minha cansada memória. Salvo engano, nesse mesmo dia, Valmir divulgou em seu blog, neste portal, um artigo que abordava o episódio. Enviei-lhe mensagem registrando haver lido seu texto e que em breve me permitiria comentários sobre o mesmo. Somente hoje arrumei tempo para isso e me permito fazê-lo enfocando apenas o aspecto que mais me inquietou.
Surpreende-me que, ao ter manifestado meu contentamento com a sinalização da autonomia da Fapeam pelo Governador Omar Aziz, o jornalista nada tenha me indagado sobre a essência da coisa, ou seja, o que é, de fato, isso? O que representa para uma instituição de fomento à pesquisa? Como, na prática, isso poderia mudar a forma de atuação da Fapeam? Quais novidades decorreriam disso no futuro da vida da instituição? Quais impactos a curto, médio e longo prazo poderiam ser vislumbrados? Há outras fundações de amparo à pesquisa que têm autonomia? Essas e tantas outras questões poderiam ser formuladas por um jornalista interessado em explorar o fato. Não foi o caso do jornalista Valmir Lima. Sua obsessão estava centrada em provar que o ex-governador tinha feito a promessa. O resto não importava. E isso está bem delineado no seu texto, onde a questão da autonomia aperece como mero acessório. Ora, sabe-se que o Valmir Lima teve uma refrega verbal com o ex-governador Eduardo Braga sobre a qual desconheço detalhes e nem caberia aqui entrar no mérito. Mas é impossível acompanhar os escritos do Valmir Lima – e faço isso com regularidade – e deles não depreender ressentimentos, mágoas e espírito de revanche em relação ao ex-governador. E uma prova a mais, das mais concretas, fica patenteada no episódio a que estou me reportando. Valmir precisava de mais um troféu e foi em busca dele com uma extraordinária sede. Não fez jornalismo, praticou revanchismo. E não estou aqui advogando que se apague a história. Não é de minha natureza. Convenhamos, porém, que neste caso o tema principal e atual – a autonomia – tornou-se acidental frente à sofreguidão de querer provar a promessa não cumprida. Por outro lado, embora tente em seu artigo assumir zelo e preocupação com a autonomia da Fapeam, desconheço que o jornalista tenha produzido, após aquela promessa não cumprida, alguma grande reportagem sobre o assunto que viesse a partilhar com seus leitores o significado da autonomia. Neste caso, se me perguntasse eu diria a ele que, das 24 fundações estaduais de amparo à pesquisa do país, apenas a de São Paulo tem autonomia de fato. E isso há 48 anos.
A desforra de Valmir Lima, como se diz popularmente, sobrou pra mim. Cita-me nominalmente para dar soberbas lições de história, algumas factuais, outras a merecerem correções, mas todas com a imponência, a vaidade e a certeza do poder, marcas que, infelizmente, têm sido abraçadas por muitos que confundem essa nobre profissão chamada jornalismo. Sobre tais lições, não farei comentários, sob pena de ceder à soberba, coisa para a qual não tenho a mínima veleidade.
Pra terminar, sei que o espaço do Tuíter é público. Mas há uma ética tácita que aos poucos vem sendo construída entre os usuários dessa extraordinária ferramenta. Posso citar um exemplo. Sempre que dois usuários estão polemizando, muito raramente um terceiro entra na conversa, mesmo que tenha proximidade com um dos interlocutores. Quando isso acontece, em geral vem um pedido de permissão para entrar no circuito. Acho isso bastante salutar. Por outro lado, embora nada impeça que terceiros se apropriem das polêmicas entre dois tuiteiros, devo dizer que eu não me daria o direito de usar esses diálogos em qualquer outra circunstância sem antes, por respeito, consultar o meu interlocutor. Repito: mesmo considerando o caráter público do Tuíter. Não sei se por novato no Tuíter ou por considerar natural esse tipo de expediente, o jornalista Valmir Lima não hesitou em se achar no direito de reproduzir em seu artigo as mensagens trocadas entre nós. Se ele acha isso natural, paciência. De minha parte, não me sinto a vontade para confiar novos diálogos entre nós, mesmo que no espaço público do Tuíter.
Aqui encerro, não sem antes deixar claro que continuarei leitor dos escritos do Valmir, sempre na torcida para que ele continue se aprimorando nesse grande desafio que é ser jornalista.
 

31 Ago

O dia aziago do Ribeiro

Lembram-se dele? Aguardava a liberação de sua velha pasta de couro frente à esteira dos raios-X do aeroporto, quando sentiu aquele bafo quente no cangote entremeado pela voz de prisão. Acompanhe-me, por favor. Sem imaginar que naquela manhã ensolarada e naquele exato momento estava começando o seu dia aziago, julgou trata-se de alguma brincadeira, ilusão, de pronto, desfeita pelo semblante fechado do senhor de paletó cinza, quase dois metros de moral, que apenas lhe indicou um corredor à frente. Os dois eram seguidos por uma terceira pessoa que, com as duas mãos distantes do corpo, evitando o contato direto com o objeto, transportava a surrada pasta do Ribeiro. Naquelas alturas, ele ouviu longe o anúncio da derradeira chamada para embarque do seu voo, com o som interrompido por um barulho pouco delicado de porta atrás de si. Lá estava o Ribeiro, sem entender patavina do que acontecia, sentado em uma cadeira e diante de dois estranhos com cara de poucos amigos. Documentos, por favor. O senhor é policial? Claro que não! Tenho cara de policial? Estou apenas indo pra uma conferência em Brasília. Conferência de quê? De ciência e tecnologia, trabalho na área. Quais eram seus planos? Planos? Tá havendo algum equívoco, meu amigo. Vocês devem estar me confundindo com outra pessoa. Só quero entrar naquele avião e seguir minha viagem. Se o senhor facilitar as coisas, resolveremos isso em pouco tempo. O que o senhor planejava aprontar? Aprontar? Eu? Meu amigo, eu sou um pacato cidadão que tá indo a um compromisso profissional. Vamos abrir esse jogo? O senhor tem porte de arma? Arma? O que eu vou fazer com uma arma? Tenha a santa paciência! Eu preciso ligar pro meu advogado. Esforçando-se por manter a calma, ensaia meter a mão no bolso pra pegar o celular. Parado! Depois da revista, um dos homens entrega-lhe o celular. Já bastante nervoso, liga para o superior da repartição e, enquanto narra seu infortúnio, o homem que lhe dera voz de prisão abre a pasta de couro, dela retira um velho 38, cano longo, verifica que está sem balas, repousa o trabuco sobre a mesa e lhe dirige a pergunta pelo olhar. Ribeiro desliga o celular, olhos esbugalhados na direção de seus inquisidores, face ruborizada. A ficha cai naquele exato momento. Pela semelhança entre elas, na pressa de sair de casa para o aeroporto, pegara a pasta errada, justamente aquela que costumava levar para o sítio nos fins de semana. Lasquei-me, pensou Ribeiro, que só se livraria daquele dia aziago doze horas depois, após ser levado à presença de um juiz.

25 Ago

Tempos de arribação

Desafio quem mais tenha feito mudanças do que mãe. E isso sempre dentro do mesmo espaço geográfico, o velho bairro de São Raimundo, onde me criei. Viúva e sem posses materiais, dava sustento a oito rebentos e agregados com o salário mínimo que recebia na condição de servente da Santa Casa de Misericórdia. Os tempos ainda eram de milagres. E não estou brincando. Mãe detinha o extraordinário poder da multiplicação. Era capaz de, em poucos minutos, transformar o conteúdo de uma pequena lata de sardinha Coqueiro num esplêndido almoço ou jantar. Sempre que aparecia um novo agregado, ela nos fazia acreditar em sua premissa básica, sempre comprovada, de que onde comem oito comem doze. Era bater e ver. Sentados à mesa, frente a frente nos dois extensos bancos de madeira, cada um recebia o prato feito diligentemente servido por mãe. Ao final, todos levantavam satisfeitos. Mas eu estava falando mesmo das nossas tantas mudanças, explicadas pelo fato de mãe, enquanto nos deu sustento, nunca ter sido proprietária de um imóvel. Vivíamos, portanto, de aluguel e em permanente arribação feito ciganos, como ela mesma dizia. Nessa condição, rara a rua em que não moramos em São Raimundo. Estou aqui contabilizando rua da Sede, 5 de Setembro, Beira-mar, rua da Cachoeira, do Rosário, Beco da Cachoeira. A expectativa da garotada por uma nova casa, sempre de madeira e com um quintal cheio de vida e de fruteiras, como eram as casas da minha infância, fazia de cada mudança uma festa sempre muito esperada que envolvia, principalmente, a vizinhança que ficaria para trás. Como os parcos recursos não permitiam contratar uma carroça, todos se envolviam solidariamente com o transporte das nossas poucas tralhas que, sem nenhum pudor, percorriam alegremente as ruas do bairro rumo à nova morada. Lembro-me bem de que, certo período, chegamos a morar em três diferentes casas na rua da Cachoeira. De uma delas tenho vívida memória. Era construída sobre esteios a um metro do chão, o que nos protegia das enchentes mais agressivas do igarapé que fazia fronteira entre os bairros de São Raimundo e Glória. Mas a subida das águas, que alcançavam os cinco degraus de madeira da porta principal, também nos proporcionava um espetáculo que hoje, pra nossa tristeza, sobrevive apenas nos desvãos da memória. Atraíamos os peixes com restos de comida ou farinha e ficávamos a observar de camarote a frenética disputa entre eles nas águas ainda cristalinas do igarapé. Lembranças. Apenas lembranças.

10 Ago

Dia aziago

Acertaram. O título não é de minha lavra. Emprestei-o de uma conhecida crônica do velho Machado. Já devem ter lido em alguma aula de língua portuguesa. Era texto obrigatório em muitos livros didáticos. Tudo porque zanzei de um lado para o outro sem encontrar um conceito que melhor definisse o que representou aquele dia na vida do Ribeiro. O teimoso Ribeiro, que, até então, não havia se convencido de que um dia pagaria caro por sua distração. Sempre que alertado pelos amigos e parentes, vinha sempre com o mesmo argumento na ponta da língua. Vou passar dos cem anos com essa minha tranquilidade. E ainda arrematava com a música do Zeca Pagodinho. “Deixa a vida me levar, vida leva eu”. Tudo na tentativa de justificar a crença de que o mundo conspirava em seu favor. Pois bem. Deu-se que surgiu um compromisso em Brasília, uma conferência nacional em sua área de interesse, e se achou no dever de marcar presença. Tucano quase de carteirinha, isso não o impedia de ser admirador do presidente Lula, que, por sinal, abriria oficialmente o evento. Chegado o dia, já um tanto atrasado Ribeiro arrasta consigo uma de suas duas velhas e surradas pastas de couro e ruma no primeiro táxi em direção ao aeroporto. Resolvidos os procedimentos no balcão da empresa, o suor ainda marejando em seu rosto, deposita a bagagem de mão sobre a esteira dos raios X e, solenemente, atravessa o detector de metais sem nenhum alarme. Enquanto espera a devolução de sua pasta, que considerava uma extensão de sua vida, por tudo que lá guardava, põe-se em alinho. Saca o lenço colorido, enxuga o suor do rosto, ajeita a gravata de pura seda, presente do último aniversário, abotoa o paletó, confere as horas, 15h17, ergue a cabeça e assume aquela postura de general convicto da vitória. De longe, acena com garbo para alguns rostos conhecidos espalhados pela sala de embarque. Aquele era o ritual de sempre e no tempo exato para receber de volta sua pasta. Como isso não acontecera, virou-se em direção à esteira e viu-se diante de uma cena, no mínimo, esquisita. Os funcionários da Infraero, dentre os quais três mulheres, estavam amontoados, olhos arregalados que se alternavam entre o monitor e a figura do Ribeiro. A princípio, pensou estar diante de quatro anônimos admiradores de sua discreta elegância e lançou um de seus clássicos e brejeiros sorrisos, arma certeira de sua estratégia em conquistar empatia. Sem entender a falta de reciprocidade, sente algo lhe roçando a nuca. Vira-se às pressas. Um armário de quase dois metros sussurra em seu ouvido. O senhor está preso. Acompanhe-me discretamente. Ribeiro nada entendera, mas ali começava o seu dia aziago.

04 Ago

Quanto custa um doutor?

A conversa girava em torno do avanço da ciência no mundo. Passamos pela vanguarda dos americanos e de outros povos que, ancorados em projetos de desenvolvimento e soberania, conseguiram construir em seu país a cultura dos investimentos em ciência e tecnologia como absoluta necessidade. Ficou claro que tais conquistas não se dão no curto prazo ou por puro milagre. Trata-se de projeto de nação desenvolvido ao longo de décadas que independe do bom ou mau humor de qualquer agente público. O dever desses agentes é cumprir com esse compromisso, espécie de pacto tacitamente assumido por todos. Conversa vai, conversa vem, chegamos aos custos dos investimentos para se alcançar esse fim. Afora os projetos estruturantes, necessários ao alicerce para uma plataforma dessa natureza, há custos altos com laboratórios e equipamentos sofisticados. Mas qualquer sonho nessa direção passa, sobretudo, pela formação de capital intelectual. Aí o caldo quase entorna. Falei para o meu interlocutor, burocrata competente no que faz, que o custo para formar um pesquisador fora do estado em nível de doutorado e ao longo de quatro anos requer investimentos de R$ 130.500,00, considerando o valor da bolsa de estudos da Fapeam. Diante do espanto, disse-lhe que nos EUA ou na Europa esse valor deve triplicar. Percebendo que não o convenceria com argumentos relativos aos impactos sociais e econômicos do avanço da ciência, naveguei pelo seu pragmatismo imediatista. Afinal, burocrata que se preza adora números. Com dois ou três anos de formado, um jovem pesquisador tem condições de trazer para o estado, de uma só vez, o valor correspondente aos investimentos feitos em sua formação. Na medida em que consolida academicamente sua posição, as possibilidades de, a cada ano, captar mais recursos aumentam. Basta concorrer aos editais nacionais e internacionais das agências de pesquisa. Quanto mais tarimbado se torna, mais o pesquisador abre frentes para ter projetos aprovados. Para ficar num só exemplo, seis pesquisadores do INPA, da Ufam e da UEA, no edital dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), captaram 19 milhões de reais em recursos federais para serem aplicados em pesquisa ao longo de quatro anos aqui no Amazonas, o que dá uma média de 3,1 milhões de reais por pesquisador. Calei o burocrata. Mas essa é a forma mais pobre de esclarecer alguém da importância de se investir em capital intelectual altamente qualificado.

27 Jul

Pra que servem doutores?

Não, não estou falando daqueles que, no dia seguinte à colação de grau, se auto-intitulam como tal e assim exigem que sejam tratados. Há até a história daquele juiz que perdeu ação na justiça do Rio de Janeiro ao exigir reparação dos demais condôminos do prédio onde mora porque não o tratavam por doutor. Saiu ridicularizado. Estou me referindo àqueles que optaram pela carreira acadêmico-científica. Cursaram a graduação, dois anos de pós-graduação em nível de mestrado, enfrentaram quatro anos em nível de doutorado, defenderam publicamente uma tese, resultado de um projeto de pesquisa e, somente a partir daí, iniciaram uma carreira de pesquisador. Isso porque, neste caso, o título não é o fim, mas apenas o começo de um percurso que irá exigir, a cada dia, muitas e muitas horas de trabalho e dedicação. Afinal, na prática, pra que servem os doutores? Leio nos jornais, por exemplo, que após mais de 20 anos de pesquisas, começa-se a vislumbrar, ainda que distante, a possibilidade de uma vacina contra o HIV. Da mesma forma, há esforços concentrados, particularmente em nosso país, para se chegar a descobertas que permitam controlar a disseminação da malária, da dengue e da tuberculose. Por trás desses avanços, estão os doutores. Dentre os grandes desafios atuais da humanidade, está a produção de alimentos em quantidade e qualidade. É preciso, também, fazer frente às diferentes doenças que surgem com os novos tempos, dando-lhes respostas com medicamentos de alta complexidade, tudo isso para aumentar a expectativa de vida que, para os brasileiros, já chega aos 72 anos de idade. Hoje há uma busca frenética por energias alternativas e renováveis que ofereçam mais saúde e longevidade ao planeta. Os transplantes de órgãos, desde a primeira experiência do doutor Zerbini, em São Paulo, hoje se tornaram rotina. A cada dia os avanços tecnológicos de última geração ficam ao nosso alcance e, numa mensagem de 140 caracteres pelo Twitter, podemos nos comunicar com o mundo. Eletrodomésticos e portáteis modernos já não são privilégio de quem tem alto poder aquisitivo. Por trás de tudo isso, trabalhando no silêncio dos laboratórios, estão os doutores. Como estão, também, nas universidades e nos institutos de pesquisa formando novas gerações de novos doutores. Eles são o que chamamos de capital intelectual de um país e representam, em todas as áreas do conhecimento, o suporte seguro de desenvolvimento e soberania de uma nação.

20 Jul

O cerol do Calango

Há pouco tempo escrevi sobre o tema. Mas não me contive. Tudo por causa de uma foto no portal do Diário. Belíssima foto. Pelo menos aos meus olhos que, naquele momento, não eram os de hoje, mas os olhos vivos e inquietos de minha infância. A foto, na sensível perspectiva do artista, retratava um molequinho de costas empinando um papagaio que, por sua vez, tinha como cenário ao fundo o vão inicial da ponte sobre o rio Negro e as nuvens incandescestes que lhe serviam de ampla moldura. Não deu outra. Embarquei, de novo, no túnel do tempo e me vi nas ruas do bairro de São Raimundo tentando emplacar a subida de uma curica. Das espécies derivadas do papagaio, com certeza era a de menor prestígio. Sua confecção dispensava matéria-prima mais sofisticada como tala de buriti, armação, goma, papel de seda em variadas cores e grande experiência no ramo. Uma folha de papel que aliviávamos do caderno que minha mãe comprava na FENAME (Fundação Nacional de Material Escolar) era o suficiente para se transformar em uma curica. Em último caso, nada que uma folha de revista velha ou mesmo um pedaço de jornal encontrados na rua não resolvessem. Isso, mais alguns metros de linha de costura reduzidos com discrição da bobina da velha máquina de costura Singer de mãe, e a curica estava pronta para ganhar os céus. Quer dizer, nem tanto assim. Sua autonomia de vôo era bastante efêmera. O bom mesmo era poder saltar para o outro estágio, mas ai já dependia de amealhar alguns trocados com mãe e os irmãos mais velhos. Escolher um bom papagaio, a linha mais adequada e o cerol apropriado. Pra tudo tinha mistério. O Gilona, jogador de vôlei de quase dois metros, era imbatível na arte de fazer papagaio. Precisava encomendar com antecedência. Mas o que mais causava frenesi entre a pirralhada estava no segredo, guardado a sete chaves, do cerol do Calango. A especulação corria solta. Alguns atribuíam sua insuperável qualidade ao vidro de magnésia, de cor azul; outros, ao vidro das lâmpadas fluorescentes, que, moídos, dariam um enorme potencial de corte ao cerol; outros, ainda, juravam que as barras de cola, derretidas até certo ponto, eram a razão da qualidade daquele produto. Outros, por sua vez, acreditavam no toque final com três gotinhas de álcool. Pra encurtar a história, como o Calango reinava absoluto no mercado que envolvia os vizinhos bairros de São Raimundo e Glória, sempre que um adversário conhecido ensaiava trançar, gritávamos convictos: “Não entra que é o mesmo cerol, o do Calango!” Tempos depois, descobrimos estarrecidos que o bruxo Calango fabricava dois tipos de poção: a mágica, para seu próprio consumo, e a genérica, que abastecia a nossa ilusão. Passou a ser odiado.

14 Jul

A ciência na ordem do dia

Qual país mais investe em Ciência, Tecnologia e Inovação? Onde estão concentradas as maiores e melhores universidades do mundo? Onde está concentrada a maior densidade de capital intelectual do mundo? Onde estão os maiores centros de pesquisa avançada do mundo? Qual país registra o maior número de patentes e processos inovadores? Em função desses ingredientes, qual o país mais poderoso do mundo? Para estas e outras perguntas de igual natureza, a resposta é conhecida: EUA. Já em se tratando do Brasil e para as mesmas perguntas, a resposta também é de todos conhecida: S. Paulo. Neste caso, sem entrar no mérito das razões que contribuíram para transformar aquele estado em referência de tal porte, é indiscutível o fato de que, na soma dos ingredientes elencados, está a chave de tudo. Trago isso à tona por várias razões. Trata-se, inicialmente, de reflexão que precisa estar sempre na ordem do dia, para não nos esquecermos de que, se sonhamos com um país social e economicamente desenvolvido, soberano e dono de seu rumo, não há outra saída senão fincar pé nessa trajetória. Afinal, os exemplos estão escancarados diante de nós. Trata-se, também, de lembrar que, nos últimos anos, o Brasil vive um clima extremamente favorável de fortes investimentos em C,T&I que não podem, sob qualquer hipótese, sofrer descontinuidade, sob pena de retrocessos dos mais nefastos para o país. E o grande aspecto novidadeiro desses investimentos está na desconcentração de recursos para as regiões menos desenvolvidas. Trata-se, por fim, de destacar que semelhante clima vive o Amazonas, com indicadores que já colocam o estado na linha de frente da corrida no avanço da ciência. Entre 2002 e 2008, só pra ficar em um exemplo, segundo dados do CNPq, se a Região Norte foi a que mais avançou em número de doutores (149%), o Amazonas foi o estado que mais cresceu nesse item (146%), à frente, inclusive, de estados da Região Sudeste como S. Paulo, que ficou com 83%. A propósito, de todos os grandes estados da federação, o Amazonas perdeu apenas para a Bahia, que avançou 202%. Aqui, sem dúvida, já se tem um pouco dos impactos da presença da Fapeam, que no último mês contabilizou investimentos na formação de exatos 500 novos doutores, dos quais 121 já titulados e desenvolvendo atividades em nossas instituições de ensino e pesquisa. Trata-se de uma vitória que merece ser comemorada por todos, mas sem perder a perspectiva de que, se é muito para o que não tínhamos, é pouco, ainda, para o de que efetivamente precisamos.

06 Jul

Amargo jornalismo

Pura mania que, muitas vezes, me traz boas e agradáveis surpresas. Sempre que leio algum texto, seja em jornal ou revista, e algum detalhe nele me chama atenção, recorto e guardo numa pilha de papéis que cresce a cada semana. Uma espécie de caldeirão com ingredientes bem diversificados. A esperança é sempre a mesma. Quem sabe um dia esse material tenha utilidade. Pois neste último fim de semana tive minha atenção voltada para a divulgação nos jornais dos dados referentes ao Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Em um dos jornais (sempre mantenho a assinatura de dois) lá estava a manchete: “Educação no Brasil estaciona no Ensino Médio, mostra Ideb”. Como de praxe, preferi não ler o texto. Busquei o mesmo assunto no outro jornal. Lá estava a manchete: “Ideb aponta melhorias no ensino médio do País”. Diabos! E agora? A fonte, esse tal de Ideb, teria matreiramente plantado distintas declarações sobre o mesmo assunto pra confundir o meio de campo e espalhar a cizânia? Resolvi enfrentar os dois textos. Os dados não eram conflitantes. Em todas as situações os resultados haviam superado as metas traçadas em 2007 pelo Ministério da Educação. O ensino fundamental de 1ª a 4ª série alcançou índice de 4,6, crescendo 0,4 e superando os 4,2 previstos até 2009. Da 5ª a 8ª série o índice alcançado foi de 4,0, tendo crescido 0,2 e superado a meta em 0,3 pontos. Já no ensino médio, o crescimento foi menor, índice 3,6, apenas 0,1 acima da meta. O xis da questão estava, portanto, nos benditos mancheteiros de plantão, com direito a essa rima pobre. O primeiro, acabrunhado, pessimista e amargurado, preferiu partilhar esse seu estado de espírito com os leitores. Desprezou a voz comparativa dos números e apresentou sua versão. O segundo, contrito e otimista, mas factual, partilhou sua fidelidade à leitura fria dos números. Nessas alturas, eu jurava ter guardado alguma coisa naquela pilha de recortes que tinha algo a ver com isso. Virei e revirei os papéis no caldeirão. Foi bater e ver. Lá estava uma crônica do Carlos Heitor Cony com o título “Eu, pecador, me confesso”. Nela, o brilhante jornalista reconhece essa temerária e perigosa inversão de fatores em que, ao invés de ser pautada pelos acontecimentos da vida nacional, a mídia é que se arvora a pautar a vida nacional, “dando-lhe a régua e o compasso”. Que me perdoem os jornalistas modernosos. Pra mim, a segunda manchete tem mais jornalismo.

29 Jun

O empinador de papagaio

Essa história de pipa era coisa de gente da cidade. Era assim que nos referíamos aos bairros mais centrais, onde estavam o grande comércio e as famílias abastadas. Sempre que atravessávamos o igarapé na catraia em direção ao bairro de Aparecida ou fazíamos a longa viagem nos velhos ônibus de madeira, que tinham ponto final em frente à catedral, estávamos, pra todos os efeitos, indo à cidade. A ponte ainda era um projeto abandonado no primeiro alicerce, do lado do bairro de São Raimundo, que nos servia de belo trampolim na época em que o igarapé, com a cheia, era o nosso Oceano Pacífico. Pois bem. Pra nós, pipa era o velho e cansado caminhão Dodge que abastecia de água potável as latas e panelas do bairro, sempre que as poucas torneiras minguavam por dias e dias. Gostávamos mesmo era de empinar papagaio. Essa denominação, em verdade, era dada aos de maior porte e mais sofisticados. Havia a carrapeta, em tamanho menor, conhecida também como casqueta, que tinha como melhor característica a facilidade nas flechadas e embiocadas. Pra turma mais nova, que não brincou de papagaio, devo dizer que flechar nada tem a ver com flecha. Diz respeito à habilidade do empinador em conseguir os mais diferentes e versáteis movimentos da carrapeta, aí incluindo a embiocada, que consistia numa descida vertiginosa, enquanto se colhia rapidamente a linha, terminava numa brusca interrupção da queda e numa subida imponente da carrapeta como num lépido passe de balé. Para aqueles papagaios feiosos, sem estilo, feitos de uma única cor e mais grosseiros, dizíamos que eram cangulas. Não sei de onde inventávamos essas palavras. O fato é que fazer papagaio era uma arte para poucos. Começava pela escolha da tala. Os mais exigentes diziam que a palmeira do buriti era a mais recomendada por sua flexibilidade. Passava pelo corte simétrico das peças e pela perfeita montagem do esqueleto, que precisava ter o peso milimetricamente dividido, para que o papagaio não ficasse penso. Mas o acabamento com os coloridos papéis de seda exigia o fino da criatividade. Lembro-me dos detalhes e dos complexos traçados das finas tiras que pacientemente iam se transformando no escudo do Sul América ou do São Raimundo, times do bairro, ou de outra agremiação pela qual o fazedor de papagaio nutria alguma admiração. A glória maior era empinar aquela obra, vê-la subindo lenta e garbosamente em direção às nuvens, pronta para enfrentar os adversários a céu aberto.

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