Monumento à soberba
Dias atrás, andei trocando mensagens no Tuíter com o jornalista Valmir Lima. Tudo começou quando usei meus sagrados 140 caracteres para partilhar minha alegria com fato do governador Omar Aziz ter sinalizado, em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, com a autonomia da Fapeam. De pronto, ele indagou-me se o ex-governador Eduardo Braga havia prometida a mesma coisa. Disse-lhe que nunca isso havia sido cogitado. Ele ironizou, dizendo que “essa história da autonomia no governo Braga”, lembrava-se bem. No dia seguinte, Valmir Lima me encaminhou uma matéria via Tuíter, postada pela jornalista Aruana Brianezi, comprovando que o ex-governador havia, sim, prometido a autonomia da Fapeam em 2007, mas recuado alegando a queda da CPMF. Diante do fato, postei um texto no mesmo Tuíter reconhecendo o mérito da boa memória do jornalista e a falha do que eu chamei de minha cansada memória. Salvo engano, nesse mesmo dia, Valmir divulgou em seu blog, neste portal, um artigo que abordava o episódio. Enviei-lhe mensagem registrando haver lido seu texto e que em breve me permitiria comentários sobre o mesmo. Somente hoje arrumei tempo para isso e me permito fazê-lo enfocando apenas o aspecto que mais me inquietou.
Surpreende-me que, ao ter manifestado meu contentamento com a sinalização da autonomia da Fapeam pelo Governador Omar Aziz, o jornalista nada tenha me indagado sobre a essência da coisa, ou seja, o que é, de fato, isso? O que representa para uma instituição de fomento à pesquisa? Como, na prática, isso poderia mudar a forma de atuação da Fapeam? Quais novidades decorreriam disso no futuro da vida da instituição? Quais impactos a curto, médio e longo prazo poderiam ser vislumbrados? Há outras fundações de amparo à pesquisa que têm autonomia? Essas e tantas outras questões poderiam ser formuladas por um jornalista interessado em explorar o fato. Não foi o caso do jornalista Valmir Lima. Sua obsessão estava centrada em provar que o ex-governador tinha feito a promessa. O resto não importava. E isso está bem delineado no seu texto, onde a questão da autonomia aperece como mero acessório. Ora, sabe-se que o Valmir Lima teve uma refrega verbal com o ex-governador Eduardo Braga sobre a qual desconheço detalhes e nem caberia aqui entrar no mérito. Mas é impossível acompanhar os escritos do Valmir Lima – e faço isso com regularidade – e deles não depreender ressentimentos, mágoas e espírito de revanche em relação ao ex-governador. E uma prova a mais, das mais concretas, fica patenteada no episódio a que estou me reportando. Valmir precisava de mais um troféu e foi em busca dele com uma extraordinária sede. Não fez jornalismo, praticou revanchismo. E não estou aqui advogando que se apague a história. Não é de minha natureza. Convenhamos, porém, que neste caso o tema principal e atual – a autonomia – tornou-se acidental frente à sofreguidão de querer provar a promessa não cumprida. Por outro lado, embora tente em seu artigo assumir zelo e preocupação com a autonomia da Fapeam, desconheço que o jornalista tenha produzido, após aquela promessa não cumprida, alguma grande reportagem sobre o assunto que viesse a partilhar com seus leitores o significado da autonomia. Neste caso, se me perguntasse eu diria a ele que, das 24 fundações estaduais de amparo à pesquisa do país, apenas a de São Paulo tem autonomia de fato. E isso há 48 anos.
A desforra de Valmir Lima, como se diz popularmente, sobrou pra mim. Cita-me nominalmente para dar soberbas lições de história, algumas factuais, outras a merecerem correções, mas todas com a imponência, a vaidade e a certeza do poder, marcas que, infelizmente, têm sido abraçadas por muitos que confundem essa nobre profissão chamada jornalismo. Sobre tais lições, não farei comentários, sob pena de ceder à soberba, coisa para a qual não tenho a mínima veleidade.
Pra terminar, sei que o espaço do Tuíter é público. Mas há uma ética tácita que aos poucos vem sendo construída entre os usuários dessa extraordinária ferramenta. Posso citar um exemplo. Sempre que dois usuários estão polemizando, muito raramente um terceiro entra na conversa, mesmo que tenha proximidade com um dos interlocutores. Quando isso acontece, em geral vem um pedido de permissão para entrar no circuito. Acho isso bastante salutar. Por outro lado, embora nada impeça que terceiros se apropriem das polêmicas entre dois tuiteiros, devo dizer que eu não me daria o direito de usar esses diálogos em qualquer outra circunstância sem antes, por respeito, consultar o meu interlocutor. Repito: mesmo considerando o caráter público do Tuíter. Não sei se por novato no Tuíter ou por considerar natural esse tipo de expediente, o jornalista Valmir Lima não hesitou em se achar no direito de reproduzir em seu artigo as mensagens trocadas entre nós. Se ele acha isso natural, paciência. De minha parte, não me sinto a vontade para confiar novos diálogos entre nós, mesmo que no espaço público do Tuíter.
Aqui encerro, não sem antes deixar claro que continuarei leitor dos escritos do Valmir, sempre na torcida para que ele continue se aprimorando nesse grande desafio que é ser jornalista.


