O software da cidadania
A sobrevivência de certas palavras e expressões que povoam o nosso universo lingüístico depende muito do tratamento que os falantes dedicam a ela. Algumas, por exemplo, caem no esquecimento com a mesma rapidez com que foram postas em circulação. São de uso temporário. Cumprem seu papel e se retiram de cena. Outras, quando circulam de forma intensa e embalada, sobretudo, pelo extraordinário poder da mídia, correm muitas vezes o risco de sofrerem um certo esvaziamento semântico, o que se dá principalmente pela banalização de seu uso associada ao pouco reflexo de seu sentido no dia-a-dia dos falantes. Não há nenhuma gratuidade nisso. Lembro-me de que, no período da ditadura, os presidentes militares e os políticos a seu serviço passaram quase vinte anos falando em “abertura”, sem que a palavra projetasse coisa alguma de concreto. Podia referenciar tudo e, ao mesmo tempo, nada. Era uma espécie de anomalia lingüística.
Mas aonde quero eu chegar com toda essa viagem? À expressão da moda: “inclusão digital”. Penso que, neste caso, o risco se dá pela panacéia com que se tem projetado a expressão, afinal, uma forma de esvaziar os sentidos de uma palavra é, também, atribuir-lhe um vasto universo de referências. Pode-se até vislumbrar aí um certo oportunismo de plantão, lembrando sempre que não há inocência no uso das palavras.
Até onde tenho acompanhado essa trajetória, tem-se privilegiado o uso da expressão voltado muito mais para os aspectos puramente técnicos que envolvem o acesso à tecnologia. Diariamente, então, constata-se o quanto jornais e revistas ocupam espaços divulgando as mais diferentes iniciativas voltadas para a criação de laboratórios de informática, instalação de computadores em escolas públicas e tantas outras iniciativas, dando a impressão de que isso, por si só, será a salvação da pátria. Ou seja, semelhante à equivocada didática de que o professor de Língua Portuguesa ensina gramática normativa com a única finalidade de que o aluno aprenda gramática normativa, no caso da propalada inclusão digital apela-se para a necessidade de acesso e conhecimento da tecnologia com a finalidade de que o usuário tenha acesso e conhecimento da tecnologia. Isto é, reduz-se à condição de produto o que, a rigor, deveria funcionar como instrumento, ou, ainda, trata-se como fim o que deveria servir de meio.
Ao lado dessa questão, que já fornece pano para muita manga, uma vez que limita e empobrece a dimensão social do que seja inclusão digital (e a rima não é por acaso!), a sobrecarga de significados atribuídos ao termo apaga um efeito de sentido que representa, pode-se dizer, a causa primeira de toda essa mobilização que, aos poucos, deixa de ser uma bandeira de poucos para ser uma política de Estado: refiro-me ao sistema operacional de código aberto, ao Linux, ao software livre. Falar em inclusão digital sem a busca desse suporte é criar uma cortina de fumaça que esconde um efeito nocivo e exatamente contrário: a exclusão.
Ora, mesmo arriscando aventurar-me em uma área que, em princípio, nada tem a ver com o meu campo privilegiado de estudo – a lingüística e o discurso – penso não ser difícil entender essa questão. Se, por um lado, o chamado software proprietário (leia-se Windows), esconde a sete chaves o seu código fonte, torna acessível ao usuário o produto, mas oculta-lhe o processo. Se, por outro lado, o chamado software livre oferece abertamente esse código ao usuário, permite-lhe liberdade para criar e aperfeiçoar o produto de acordo com suas conveniências. Em outras palavras, diria que o primeiro escraviza o usuário, à medida que limita suas potencialidades, enquanto o segundo o liberta, à medida que dá asas à imaginação e, com isso, estimula uma espécie de partilhamento que tem como principal virtude o retorno caracterizado pela contribuição e aprimoramento de suas ferramentas em benefício de todos, o que se traduz na própria socialização da produção do conhecimento. E isso não é pouca coisa para um país tecnologicamente ainda tão dependente das águias de plantão como o nosso.
Dito isto, declaro a quem interessar possa que, no pleno controle de minhas convicções, tornei-me um ardoroso defensor do software livre!


