A foto do candidato
Nesta época de caça aos votos, vive-se a ilusão de que a cidade é embalada por um contagiante clima de alegria e prosperidade. Nos cruzamentos mais movimentados, o colorido das diferentes bandeiras partidárias tremula insistentemente chamando a atenção dos que passam. As centenas de cabos eleitorais curtem com entusiasmo o ganho de ocasião, fazendo os santinhos dos candidatos chegarem às mãos dos eleitores. Os carros de som invadem as ruas mais recheadas de transeuntes e quebram o silêncio em alto e nem sempre bom tom, impondo a todos o ritmo das marchinhas com letras que revelam as qualidades, virtudes e promessas dos pleiteantes a um cargo. Enfim, é como se, de uma hora para outra, nos déssemos conta de que éramos felizes, mas não sabíamos.
Todo esse clima de aparente encantamento é acentuado por um outro lance que não passa despercebido. Vivi isso durante o feriado que passou. A temporária ausência do caos nosso de cada dia no trânsito permitiu-me percorrer com atenção e mais tranqüilidade algumas ruas e avenidas da cidade. Com os postes, à direita e à esquerda, todos milimetricamente disputados pelas fotos dos candidatos, tive a sensação de estar passando pelo que se poderia chamar de corredor polonês de uma fábrica de felicidade: à medida que avançava, era efusivamente saudado por uma impressionante variedade de sorrisos. Todos na foto olhavam e sorriam. Como sorriam! Senti-me, naquele momento, como alguém que desfruta a presença de dezenas de velhos e bons amigos numa emocionante manifestação de carinho, afeto e solidariedade à sua pessoa. Confesso que, se não tivesse me segurado, teria esquecido os contratempos da vida e me deixado envolver por aquele benfazejo e contagiante ambiente de alegria.
Mas esse universo, que, imagino, deixaria o “jogo do contente” da personagem Pollyana no chinelo, tem mais um ingrediente de encantamento não menor que os outros. Revela, em cada foto dessa fábrica de felicidade, a realização de uma aspiração que sempre tocou forte o sentimento de vaidade dos pobres mortais: a perenidade da juventude. Emoldurado pelo arranjado ensaio fotográfico de sorrisos, o que se vislumbra em quase todas as fotos são pessoas desabrochando em escancarado ardor juvenil, desafiando mesmo o pessimismo da lógica musical de Cazuza: o tempo não pára. Alguns candidatos e candidatas parecem ter-se encharcado de tal modo com o elixir da juventude, que estão mesmo irreconhecíveis, pois conseguiram o milagre de congelar o tempo (extraordinária conquista!) em plena exuberância dos quinze aos dezoito anos, fato que, imagino, pode mesmo provocar indecisão em alguns eleitores de caráter mais conservador, que, provavelmente, se perguntariam: “como votar em uma pessoa tão nova, com pouca experiência de vida, ainda com arroubos juvenis, para cargos tão importantes como vereador e prefeito?”
Ao lado dos seus efeitos risíveis, o quadro pintado acima parece conspirar contra o ideal de construirmos um conceito de fazer política que se paute na honestidade e na transparência das atitudes, mesmo nas mais banais, como a divulgação de uma simples foto que revele, com franqueza, para o eleitor, a realidade dos traços físicos de quem lhe está pleiteando o voto. Diante disso, o que esperar de um candidato a homem público que constrói a sua campanha política anunciando um produto que não terá condições de entregar aos interessados? No mínimo deveria ser enquadrado no Artigo 37 do Código de proteção e defesa do consumidor, que diz ser “proibida toda publicidade enganosa ou abusiva”.


