As malícias da linguagem
Em se tratando da linguagem, não há espaço algum para a ausência de sentidos e muito menos para a neutralidade. Ora, sendo esse o fenômeno que dá ao ser humano a sua condição de racionalidade, tudo o que se diz, o que não se diz, como se diz e de onde se diz envolve a construção de sentidos. Não temos, portanto, para onde correr.
Quando dizemos algo, em quaisquer circunstâncias da vida social, nunca o fazemos sem algum propósito, mesmo que esse propósito não se mostre explícito no plano da consciência. Afirmar, por exemplo, que a atual tarifa do transporte coletivo em Manaus é justa não se limita ao que está sendo dito. Por trás dessas palavras, pretende-se convencer o interlocutor de que a razão está com quem fez a afirmação. Ou seja, sempre que nos manifestamos, nunca queremos apenas ser ouvido, mas respeitados, acreditados, admirados.
Quando evitamos falar, resguardando-nos no silêncio, acreditamos que nenhum sentido foi produzido para o interlocutor. Ledo engano. Calar, por exemplo, diante da afirmação de que é importante criar uma coordenadoria para defender a imagem da CMM e de seus vereadores acaba traduzindo, no mínimo, cumplicidade com o que foi dito. Ou seja, o silêncio fala. Ele existe no plano puramente fisiológico, da não manifestação pela fala, mas é sempre carregado de sentidos.
Quando construímos nosso discurso, achamos que tanto faz dizer de um jeito ou de outro, que os sentidos serão sempre os mesmos. Não é bem assim. Em uma manchete de jornal, por exemplo, há muita diferença entre “Mais de 170 mil estão sem livros didáticos” e “Estado tem 170 mil estudantes sem livros”. Ou seja, a projeção de sentidos não se restringe apenas ao que se diz, mas, sobretudo, ao como se diz.
Quando ouvimos diferentes pessoas falarem, não costumamos relacionar o que elas dizem à posição social que ocupam, mas isso tem tudo a ver com os sentidos do seu discurso. Teria passado em brancas nuvens, por exemplo, a frase do então deputado Severino Cavalcante estabelecendo um prazo ao Presidente da República para nomear um apadrinhado seu, se ele não estivesse na condição de Presidente da Câmara dos Deputados. Ou seja, o lugar social de onde se fala tem interferência direta na construção e repercussão dos sentidos do discurso.
Em se tratando da linguagem, no mínimo devemos nos dar conta dessas particularidades e as administrarmos sem ingenuidade.


