Odenildo Sena

04 Fev

Sonho de um almoço de verão

Deu-se que o almoço oficial estava marcado. Aconteceria ao meio dia, portanto depois de uma manhã inteira de trabalho. Respeitado o horário brasileiro e empurrado pelas circunstâncias, as atividades do seminário foram encerradas perto das 13 horas. Fui alertado por um certo instinto de sobrevivência, a me dizer que estava apenas com o café da manhã, o que aguçou a expectativa para, supunha eu, aquela variedade de pratos que, por tradição, abrilhanta essas ocasiões. Tive que impor paciência e disciplina aos sinais de fome que insistiam em se manifestar, uma vez que o trânsito distanciou-me em mais uma hora do desejável momento. Já eram 14 horas quando os convivas – eu no bolo – chegaram ao Palácio. Conduzidos pelos diversos garçons, elegantemente vestidos, começaram a circular os canapés. Alguns em formato e arquitetura tão inusitados, que pude visualizar a hesitação e a falta de jeito de algumas pessoas entre o momento de dominar aquelas coisas esquisitas entre os dedos até reunir coragem e levá-las à boca.

Mas a variedade de sucos que desfilava nas hábeis bandejas dos garçons acabava estimulando, ou melhor, empurrando aquelas estranhas criaturas goela abaixo. Menos por essas razões e mais por querer me guardar para o mais pesado, reprimi com rigor a fome, que teimava em se fazer anunciar, obrigando-me, algumas vezes, a simular tosse e rouquidão, para abafar a sua saliência. No meio de uma e outra conversa, contabilizava o tempo decorrido entre a espera e o não acontecido, num inexplicável rito de auto-sofrimento, quando, finalmente, chegou o anfitrião. Agora tudo se resolve, pensei comigo. Ledo engano. Manda o cerimonial que os presentes recebam cumprimentos, sob forma de apertos de mão. Um a um. Tudo parecia conspirar contra a chegada do desejado momento. Cumprida aquela formalidade, a chefe do cerimonial marcou o olhar em minha direção – será que vislumbrou o meu drama? - e orientou a todos que seguissem para a sala contígua, onde, finalmente, seria servido o almoço. Naquelas alturas, já não mais me interessava contabilizar o tempo decorrido. Fomos divididos em vários grupos, que tomavam assento em diferentes e grandes mesas circulares. Meu lugar estava identificado por uma plaquinha, ao lado do anfitrião e cercado por outras autoridades. À minha frente, um prato grande, que me pareceu ser de prata, cercado de facas, garfos e colheres por todos os lados. Por qual deles deveria começar? Movido por um certo ânimo, dei uma panorâmica na sala e estacionei o olhar no que eu achava ser a porta de onde viria a solução para tantas horas de forçado jejum. Não, não foi, ainda, o momento. De lá partiu uma revoada de garçons equilibrando elegantes garrafas de vinho branco. Mais uma etapa de espera. Manda a etiqueta que, antes de qualquer iniciativa precipitada, todos sejam servidos. Quando tudo parecia se encaminhar para o esperado desfecho, a chefe do cerimonial anuncia que o anfitrião deseja pronunciar algumas breves palavras. Vem a tradicional batidinha na taça. Todos nos levantamos. Não sei como consegui esse feito, tal o esforço para me desgrudar da cadeira.. O discurso, ainda que cronologicamente breve, pareceu-me uma eternidade. Veio, então, o brinde. O meu sorriso, inteiramente amarelado, já era produzido apenas pela compressão dos lábios e conseqüente dilatação das bochechas. Simulei levar a taça à boca e logo voltei a prostrar-me na enorme e pesada cadeira, que de mim exigiu um esforço sobrenatural para arrasta-la. Ingerir, ainda que um gole de vinho, pensei comigo, será fatal para as minhas entranhas vazias de qualquer suporte alimentar. Voltei a me animar um pouco e, novamente, arrisquei olhar em direção àquela bendita porta. Nada de novo. Mais paciência e contido desespero: manda a etiqueta que os convivas saboreiem lentamente o vinho por alguns minutos. Exigência burocrática absurda! Fico a exigir de mim mesmo concentração, no que não sou levado a sério. Absorto nesse episódio de rebeldia e autoridade, sem nada captar da animada conversa em redor, eis que pousa sobre a mesa, exatamente à minha frente e sobre o grande prato de prata, a primeira indicação de que a fome estava com os minutos contados. Precipitação minha, embora compreensível para aquelas circunstâncias. Tratava-se de uma entrada, apenas. Pouco animadora, confirmei em seguida. No meio do prato, cinco ou seis folhinhas arquitetonicamente entrelaçadas, com uma florzinha ao centro, de fazer inveja aos vãos livres da lavra do nosso Niemayer. De qualquer modo, não pensei duas vezes. Lancei mão dos instrumentos que estavam ao meu alcance e, em questão de segundos, dei conta das miseráveis folhinhas, que, fisiologicamente falando, nada resolveram, mas deslancharam um positivo efeito psicológico. Reuni um certo ânimo, alimentando a convicção, embasada em outras experiências vividas, de que, depois de uma entrada, sempre vem o prato principal. Assim é no mundo Ocidental! Mais uma infinita espera, até que os garçons recolhessem todos os pratos, tão desproporcionalmente ocupados antes pelas tais folhinhas. Voltei o meu olhar, já obsessivo, para a porta que ligava minha fome à copa. Exato momento em que aqueles admiráveis profissionais formados no Senac caminhavam em minha direção, cada um dominando habilmente três ou quatro bandejas. Louvado seja. Respirei aliviado. Era, como diria um velho amigo meu, “la bóia”. Tudo bem, percebi logo depois, nem tanto. O garçon aterrissou com muita maestria por entre os talheres e colheres um outro prato, no centro do qual repousava uma pequena tigela com um caldo grosso, tendendo ao pastoso. Num desespero represado, – já começava a me considerar desnutrido – olhei para os meus pares a ver de que modo eles iriam encarar o que, para mim, era uma espécie de segunda prévia, antes do principal, contrariando minha expectativa anterior. Armei-me com uma colher e parti para o ataque. Descobri haver, afogado no caldo pastoso, um estranho ingrediente não identificado. Não me deixei intimidar, afinal tratava-se só de uma entrada, nos moldes das folhinhas, razão pela qual agi com deliberada rapidez, na tentativa de apressar aquela seqüência. Preparei-me, então, para o grande momento, de olho, novamente, nos movimentos que vinham da porta. Frustração total: o garçon colocou diante de mim, com a maior naturalidade, um pequeno prato contendo uma fatia de bolo artisticamente decorada por uma bola de sorvete. Já era a sobremesa.

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