As vozes do silêncio
É admirável a desenvoltura com que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso navega nas palavras. Em tom sempre categórico e malicioso, suas declarações revelam aos desavisados um extraordinário poder de persuasão, mas não resistem ao mais elementar resgate das vozes que são reprimidas e sufocadas pela fachada de tudo o quanto ele diz. Para isso, é dispensável ser um especialista na área do discurso, basta um pouco de memória para trazer à tona as falas que o seu discurso tenta sufocar.
A questão me salta à memória motivada pela leitura de recortes de jornal (mania de guardar papel!) que registram falas recentes do ex-presidente acerca da crise política e moral envolvendo, principalmente, alguns dirigentes e parlamentares do Partido dos Trabalhadores. Incomoda, sobretudo, o caráter de ineditismo que ele atribui à crise, insinuando que os oito longos anos de seu reinado passaram incólumes a tudo isso. Pois bem, desafiado pela memória, tirei o sossego de algumas pastas empoeiradas em minhas velhas estantes e arregimentei um pouco dos muitos fatos que, amplamente divulgados pela mídia à época, tiveram como pano de fundo a sua passagem pela presidência da República e revelam vozes históricas que o príncipe da sociologia teima em apagar de seu discurso.
Em 1995, por exemplo, o então presidente do Banco Central, Pérsio Arida, afastou-se do cargo por ter sido acusado de privilegiar o banqueiro Fernão Bracher. Providências? O silêncio. No mesmo ano, o embaixador Júlio César Gomes dos Santos, encarregado do cerimonial do Planalto, foi denunciado por ter aceitado favores de lobistas da Raytheon, aquela empresa americana que, coincidentemente, ganhou a milionária concorrência do Sivam. Providências? O embaixador ganhou um cargo no exterior.
1997, por sua vez, foi o ano do escândalo da compra de votos para a emenda da reeleição. A cotação, segundo revelações da imprensa naquele momento, chegou a R$ 200 mil por voto favorável. Lembram-se do senhor Ronivon Santiago, aquele do PFL que renunciou ao mandato de deputado com outros dois colegas do mesmo partido? Dá para acreditar que aquelas renúncias se deram em nome da inocência? A quem beneficiou a reeleição? Quais as enérgicas medidas adotadas para esclarecer o turvo episódio?
Quando se pensava que o céu fosse de brigadeiro, eis que em dezembro de 1998 brilha a estrela do escândalo do grampo no BNDES. Envolvia a disputa entre algumas empresas pela privatização do sistema Telebrás. As fitas revelavam esquisitas conversas entre o presidente da República, o diretor do banco, André Lara Resende e o então Ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros. O próprio mandatário maior, segundo transcrições fartamente divulgadas à época, foi flagrado dizendo o que não cabia ser dito pelo chefe da nação naquelas circunstâncias. Astuciosa saída? O grampo era ilegal, os dois auxiliares deixaram o cargo para tocar a vida na iniciativa privada e ficamos conversados.
Já se passara pouco mais de um ano e pensava-se que o mar estivesse plácido como marinheiro gosta. Ledo engano. Em fevereiro de 1999, o presidente do Banco Central, Francisco Lopes, foi demitido do cargo sob acusação de ter favorecido com informações privilegiadas alguns amigos banqueiros na desvalorização do real. Nada demais. Chamou-se o Armínio Fraga e tudo foi resolvido. Enfim, a calmaria? Ledo engano, de novo. O ano de 2000 pegou pesado. Em janeiro, o senhor Élcio Álvares foi fritado e, posteriormente, afastado do Ministério da Defesa: não conseguiu explicar a relação entre o seu escritório de advocacia, sua assessora Solange Resende e o sempre vivo jogo do bicho no Espírito Santo. O azeite nem esfriou. Em maio chegou a vez do ministro do Esporte, o alegre Rafael Greca (lembram-se?), saltar da nau capitânia sob acusação de envolvimento com os donos de casas de bingo. Caminho natural para os dois casos? Retornou o ex-senador Álvares ao seu escritório de advocacia e o deputado Greca à Câmara, afinal, o primeiro precisava ganhar a vida e o segundo completar seu mandato no Congresso. Assim se fez.
Como bem se pode ver, esses tenebrosos episódios, cada um a seu tempo, deitaram-se no berço esplêndido do esquecimento e da impunidade. Curioso como eles espelham uma espécie de tomografia de alta definição, reveladora daquilo que o senhor Fernando Henrique e seus seguidores teimam em apagar. Penso eu, entretanto, que ela permite às tantas vozes apagadas dos atuais e eloqüentes discursos de FHC saltarem das sombras para se reafirmarem na história.


