A bolsa do doutor e a bolsa do metalúrgico
Ano passado, o Brasil realizou um feito de extrema importância: conseguiu titular 10 mil doutores/ano. Essa densidade, em médio prazo, trará impactos qualitativos dos mais preciosos para a ciência no país: mais pesquisas, maior produção de conhecimentos, maior número de patentes, mais avanço em inovação tecnológica, maior autonomia científica, maior competitividade internacional, dentre tantos outros benefícios à nação. Há, entretanto, um histórico silencioso a demonstrar que a marcação desse gol deveu-se, ainda, menos ao estímulo que poderia ter sido dado e mais à vontade e ao empenho dos que se doutoraram. Observe-se, por exemplo, que em 1994, o valor da bolsa de doutorado pago pelas agências federais – Capes e CNPq – (R$ 1.073,00) correspondia a 15 salários mínimos. O congelamento desse valor ao longo dos oito anos da era Fernando Henrique Cardoso fez com que em 2003, quando Lula assumiu a Presidência, essa correlação caísse para apenas 4 salários mínimos, mantendo-se até hoje. Mesmo considerando que a partir de março próximo a bolsa de doutorado será reajustada em 20%, passando para R$ 1.673,00, essa correlação continuará em 4 salários mínimos. Dependendo do novo reajuste do mínimo para maio próximo, a relação tende a cair mais ainda, baixando provavelmente para 3 salários. À luz de tais números, pode-se dizer que, se o governo do professor doutor Fernando Henrique Cardoso foi extremamente perverso com os doutorandos e, por tabela, com o progresso da ciência no Brasil, o de Lula tem mantido essa perversidade estagnada, apesar de, na boa contra-mão desse viés, ter aumentado consideravelmente nos últimos anos os investimentos em pesquisa no país, sobretudo em inovação tecnológica.


