Odenildo Sena

24 Fev

A matreira voz dos slogans

O senso comum tem uma compreensão bastante ingênua do fenômeno da linguagem. Cristalizou o conceito de que a língua é apenas um instrumento que torna possível a comunicação entre os falantes, no sentido de que ela se presta tão somente a exercer o papel de veículo daquilo que se diz. Talvez isso explique a atuação de muitos professores que, a pretexto de habilitar seus alunos no domínio da variedade culta da língua, fazem das normas e das regras da gramática normativa o seu único deus. Trata-se de um viés que não só desconsidera a enorme complexidade que cerca a linguagem como também tenta apagar os mecanismos que fazem dela um fenômeno ideológico por excelência.

Muito a propósito, um dos campos de estudo da linguagem mais promissores atualmente é a chamada Análise do Discurso. Sua proposta de abordagem prioriza sempre o processo, não o produto. Ou seja, mais importante do que aquilo que se diz é o como se diz. Mais relevante do que aquilo que está literalmente posto na frase é o que está implícito, isto é, aquilo que, de uma certa forma, esconde-se por trás do dizer. Mais significativo, portanto, não é trabalhar as aparências, mas por elas chegar aos sentidos daquilo que discursivamente se pretende.

O tema é oportuno nesse período de caça aos votos, em que os candidatos, ao lado daqueles variados e condenáveis expedientes perversos e populistas, tentam, pelo discurso, seduzir os eleitores a compartilhar com suas idéias e ideais. Aí está incluído o apelo ao uso dos chamados slogans de campanha. Muito mais do que inocentes frases constantes nas peças publicitárias e repetidas à exaustão pelos cabos eleitorais, os mais bem preparados slogans carregam na sua economia de palavras um vasto universo ideológico de sentidos que agem silenciosamente sobre a consciência de muitos eleitores.

O que pensar, por exemplo, de uma frase como “A prefeita de todos nós” ? Numa leitura despretensiosa, que se contente apenas com os elementos lingüísticos, diz muito pouco, parece mesmo um enunciado que começa e termina no próprio limite das palavras que o compõem. Vista, entretanto, na perspectiva discursiva, alia-se à sua literalidade uma gama de outros sentidos, esses sim, reveladores da sua interpretação.

Só para trabalhar alguns aspectos, observe-se que, ao iniciar a frase com o artigo definido (A prefeita…), particulariza-se e determina-se o substantivo (não é qualquer um) e impõe-se categoricamente que não é alguém que está pleiteando, mas alguém que já se revela como tal, é a prefeita, fato consumado. Observe-se, ainda, que a presença do pronome (todos) tem valor globalizante, ou seja, ninguém fica de fora, todos os sujeitos eleitores estão necessariamente aí incluídos. Não se trata de alguns ou da maioria, mas de todos! Por outro lado, a marca da primeira pessoa do plural (nós) é discursivamente envolvente, inclusiva, uma vez que agrega a fala de todos os leitores do slogan naquilo que os estudiosos do assunto chamam de o mesmo espaço enunciativo. Dito de outro modo, no contexto da frase analisada, o “nós” cria a ilusão de que todas as pessoas estão solidariamente unidas em torno de um propósito comum.

Ao lado desses aspectos, só que de forma mais generalizada, tem-se também na frase “A prefeita de todos nós” o possível subentendido revelador da existência de um antagonista, alguém que ocupa ou ocupou o cargo, mas foi ou é o prefeito de alguns poucos, da minoria, mas não de todos. Enfim, essa sucinta análise nos demonstra que os sentidos mais representativos do slogan, aqueles que agem no subconsciente do eleitor, são estratégica e aparentemente silenciados pelo aspecto visual daquilo que se limita aos elementos lingüísticos do enunciado.

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