Minha discordância com o Borges
Não, não concordo com o Borges. Afinal, não dá pra aceitar que o leitor seja um ser passivo, apenas um repositório daquilo que ele literalmente absorve de um texto. O leitor é muito mais que isso. Ele tem aquilo que Bahktin chamou de “atitude responsiva ativa”. Em outras palavras, simultaneamente ao contato com o texto, vai construindo, ainda que silenciosamente, o seu próprio texto: incorpora o que foi dito pelo escritor, discorda, faz reparos, acrescenta detalhes, apresenta alternativas diferentes das que estão sendo postas, omite-se covardemente, reage com intolerância, torna-se cúmplice, entra em conflito, emociona-se, é levado a sonhar, a ficar perplexo, além de tantas e tantas outras reações por ele mesmo imperceptíveis, uma vez que decorrem daquilo que os estudiosos da linguagem chamam de formação discursivo-ideológica. Por essas e outras que não posso concordar com o Borges. A propósito, recentemente, ao ler uma crônica do Rubem Fonseca, meu inquieto sentimento de leitor buscou, de pronto, cumplicidade para reforçar minha discordância com o Borges. Lá pelas tantas, Fonseca registra que “o leitor compartilha do livro não apenas estética e emocionalmente: ele tem uma participação criativa. Ele sempre `reescreve` o livro à sua maneira”. Numa reação típica de um leitor, aliei-me de imediato àquele trecho, para fortalecer minha discordância com o Borges. Ora, se, na perspectiva de sua completude, o texto nunca é um objeto inteiramente acabado (aliás, alguém, não me lembro quando, nem onde, teria dito que um texto não se acaba, abandona-se), pode-se dizer que o leitor nunca é passivo diante dessa incompletude. Penso mesmo que todo texto é, na realidade, pretexto para o leitor deitar e rolar. Por isso, por essas e por tantas outras que não vou aqui explicitar, dou-me o sagrado direito de discordar do Jorge Luis Borges, quando afirma, não sei onde, nem quando, que o mais importante de um livro é o seu autor.


