A banda chinfrin da mídia
Penso que deixou de ser coisa para especialista observar uma certa tendência da mídia para o caráter seletivo e, cada vez, menos republicano na abordagem dos acontecimentos. Quando a vidraça, então, é o governo do Presidente Lula, os textos sempre deixam aflorar, mesmo para os leigos, um tratamento malicioso, perverso e discriminatório. Dias atrás, deparei-me com um exemplo típico desse comportamento. Comprei um jornal do Rio de Janeiro, mas de circulação nacional. Meu olhar foi direto à segunda manchete da primeira página: “Bailarinas do cartão corporativo viram 20 vasos com flores”. Dei-me conta de que aquela chamada era seqüência de uma anterior, quando o veículo denunciara que a Casa Civil da Presidência da República havia efetuado, com o tal cartão, o pagamento de 20 bailarinas. Instada a esclarecer a denúncia, a Ministra Chefe encaminhou ao jornal cópia da nota fiscal, com todos os carimbos da loja e o respectivo detalhamento, dando conta de que a despesa correspondera, na verdade, à compra de 20 vasos ornamentais, conhecidos como bailarinas, ao preço de 5 reais a unidade, num total de 100 reais, destinados a decorar a recepção daquele órgão. Deduz-se com segurança que o veículo, por falta do elementar procedimento de investigação, dera como fato o que, em verdade, não havia acontecido. Do episódio não está em julgamento a pertinência ou não da compra, mas o comportamento sibilino, maledicente e prepotente de quem faz o jornal. Volte-se à leitura da manchete: “Bailarinas do cartão corporativo viram 20 vasos com flores.” Acrescente-se a isso o fato de aparecer estampada, ao lado da matéria, a reprodução da nota fiscal com o devido crédito dado a ela. Em lugar de, a partir das evidências e do respeito à Ministra e ao leitor, reconhecer o grave erro e esclarecer os fatos, o editor constrói um odioso deboche que, sustentado no verbo “virar”, insinua que a Ministra Chefe da Casa Civil montou uma farsa e apresentou um documento falso. Comportamentos como esse não só contribuem para a vulgarização do fazer jornalístico, como também estimulam o descrédito numa instituição tão cara à democracia e à justiça, como é o caso da mídia.


