Odenildo Sena

01 Abr

Fetiche e inovação tecnológica

Nada se assimila e se naturaliza com tanta rapidez do que uma inovação tecnológica. Em outras palavras, pode-se dizer que há sempre uma forte tendência para que as pessoas se sintonizem ao presente e ao produto e, portanto, apaguem o processo. Ou seja, a elas interessa o quê, não o como. Quem atenta, por exemplo, para o fato de que, ao clicar um simples interruptor para ter a moderna iluminação de um ambiente, está dispondo de um conforto que, de Edson até os nossos dias, exigiu um percurso enorme de aprimoramento? Quem, dependente dessas infernais maquininhas chamadas celulares, que servem até como telefone, é capaz de se lembrar que até há tão pouco tempo era impensável reunir tantas funções em um só e diminuto equipamento? E dos gigantescos gravadores de antigamente, hoje substituídos por pequenas geringonças diminutas que cabem no bolso, quem se lembra? Fico pensando no meu velho Akai de rolo, que, para meu orgulho, reunia duas horas de música e hoje é humilhado diante do Ipod, capaz de armazenar e reproduzir música ao longo de meses ininterruptos! Quem se dá conta de que, ao tomar um minúsculo comprimido que o livra de uma terrível dor, ou ao tomar um poderoso antibiótico que domina uma infecção, está se beneficiando de um produto farmacêutico que exigiu altíssimos investimentos e muitas e pacientes horas, meses e anos de um exército de cientistas recolhidos aos seus laboratórios? Um transplante de coração é, já há algum tempo, um procedimento de rotina, mas pouquíssimos sabem ou se recordam de que, há quarenta anos, constituía um enorme desafio para a equipe do doutor Zerbini, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. E do avanço imunizador das modernas vacinas, que hoje oferecem segurança e saúde às nossas crianças e absoluta tranqüilidade aos pais, quem se recorda de que há tão pouco tempo a sua ausência contribuía largamente para aumentar a contabilidade da mortalidade infantil? Cito tais casos – mas os exemplos são incontáveis – , para lembrar que, exatamente pela fertilidade do campo para a construção do fetiche, investir em Ciência, Tecnologia e Inovação exige determinação, ousadia e, sobretudo, elevado espírito público do governante.
 

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