O tempo da ciência e o tempo da política
Tenho dito e repetido que, em países que ainda não consolidaram a cultura do investimento pesado em Ciência, Tecnologia e Inovação, iniciativas dessa natureza exigem ousadia e decisivo espírito público. Isso, apesar do indiscutível reconhecimento de que os países que estão na crista da onda e são detentores de invejáveis avanços no campos social, tecnológico e no registro de patentes, só conseguiram esse lugar de vanguarda e poder de ditar as regras no comércio internacional graças ao enfrentamento e superação desse desafio. Minha afirmação ampara-se no fato de que, apesar dos investimentos em ciência e inovação decorrerem de uma decisão estritamente política, deve-se reconhecer que o mundo da política e dos políticos tem sempre um caráter imediatista, exige sempre retorno para o dia seguinte ou, no máximo, até às eleições seguintes, afinal, a conquista do poder numa democracia pressupõe o voto, a preferência da maioria. Já o mundo da ciência tem outra lógica, um outro tempo, uma outra dimensão. O preparo de um pesquisador doutor, por exemplo, demanda investimentos de, pelo menos, quatro anos, para sua formação inicial, sem contar com outros tantos de experiência acumulada, até atingir maturidade intelectual e o topo de seu ritmo de produção. Pesquisas em inovação tecnológica, por outro lado, que são indicadores fundamentais para se aquilatar a vanguarda de um país na produção de conhecimentos e produtos cobiçados pelos demais, exigem recursos e intensa busca pelo novo. A ciência em favor da saúde e da qualidade de vida, para citar mais um exemplo, encontra-se permanentemente diante de desafios que não cessam e que, portanto, dependem de investimentos contínuos, para fazer frente aos males gerados pela própria evolução da humanidade. É de justiça, por outro lado, ressaltar que nunca em sua história o Brasil e, particularmente, o Estado do Amazonas dispensaram tanta atenção à ciência. De qualquer modo, uma vez que o tempo da política não é compatível com o tempo da ciência, melhor separar um do outro, encarando o primeiro como inerente e necessário à democracia e o segundo como ação de Estado fundamental para assegurar o desenvolvimento, a soberania e a independência do país.


