Odenildo Sena

18 Mai

Lula, apesar da mídia

Lembro-me de 1994. Cursava o doutorado na Paulicéia. As informações já antecipavam a campanha vindoura. Informalmente, Lula já era candidato. Embalado pelas “Caravanas da cidadania”, que percorriam o país de ponta a ponta, estava disparado nas pesquisas. Fernando Henrique navegava no sucesso do Plano Real, sem assumir ainda sua candidatura. Na época, o avançado era ser leitor da Folha de S. Paulo. E eu não fugia à regra. Devorava-o diariamente. Motivado pela diversidade de leituras acerca da Análise de Discurso, chamou-me atenção a insistência com que, naquelas circunstâncias, a coluna “Painel”, a mais lida do jornal, citava o nome de FHC em detrimento de Lula. Resolvi montar e desenvolver um estudo de caso. O objetivo era análisar quantitativa e qualitativamente aquelas recorrências ao longo do período que antecedeu a formalização das candidaturas à presidência.

Publicado depois na revista da Associação de Pós-Graduandos da PUC-SP, o resultado do estudo me surpreendeu. Ficou evidente que, ao privilegiar, no espaço da coluna analisada, o então virtual candidato do PSDB e, ao mesmo tempo, expor com exagerada freqüência e de forma positiva o seu nome aos leitores, o jornal criou um cenário propício para a consolidação de sua candidatura. Lembro-me de um dado que revelou uma bem trabalhada obra de engenharia da manipulação. À medida que, ao longo das semanas, numa incrível proporcionalidade, o número de citações relacionando o nome de FHC ao Plano Real ia recuando, cedia lugar à consagração de seu nome como candidato. Odiosa manipulação, mas ele foi eleito no primeiro turno. Afinal, a credibilidade da mídia que havia contribuído para a eleição de Collor continuava em alta.

Purgando tantos outros episódios semelhantes, poucas vezes pude observar tamanha nocividade no comportamento de grande parte da mídia quanto na atual campanha. E não estou me reportando à atuação isolada, restrita a alguns veículos de abrangência nacional que carregam em seu currículo uma longa e já conhecida trajetória de manipulação travestida de jornalismo investigativo.

A atual campanha deixou-me a impressão de estar diante de uma premeditada e afinada orquestra a executar um samba de uma nota só. O que dizer, dentre incontáveis exemplos, de conhecidos articulistas que, na linearidade do texto, juram praticar um jornalismo que respeita a pluralidade de convicções dos leitores, mas não têm o mínimo constrangimento em demonstrar enorme preocupação com a possibilidade de Lula vir a ser eleito, ao ponto de oferecerem a Alckimin passos que, metodologicamente apresentados, poderiam reverter a sua desvantagem? O que dizer da disposição de se fabricar diariamente tamanha quantidade de matérias sobre a origem dos recursos para a possível compra de um dossiê contra Serra, ocultando a necessidade, tão importante quanto, de investigar e produzir matérias sobre o seu conteúdo? O que dizer, ainda sobre o mesmo caso, da trama, tão bem articulada por “respeitados” veículos de comunicação, que fabricou o segundo turno das eleições? O que dizer do tratamento deselegante, desrespeitoso e preconceituoso de jornalistas que se referem pejorativamente a “Lula e sua turma”, mas que não dispensaram nem dispensariam jamais idêntico tratamento a outros? Quem já leu ou ouviu expressões como “FHC e sua turma”, “Alckimin e sua turma”? O que dizer de outro jornalista que, com prepotência e igual preconceito, reporta-se genericamente ao partido do presidente da República como “quadrilha do PT”? Quem já leu ou ouviu desses mesmos profissionais expressões como “quadrilha do PSDB” ou “quadrilha do PFL”? Pautado por essa mesma química de arrogância, prepotência, falta de decoro e desrespeito explícito a milhões de eleitores que elegeram Lula, o que dizer do comportamento do senador amazonense que prometeu “dar uma surra” no Presidente da República? Quem, por maior destabanamento que pudesse ter, prometeu “dar uma surra” em FHC? E, na hipótese de ter acontecido, quem duvida de que a chamada grande mídia faria disso portentosas matérias? O que dizer da freqüente e perversa manipulação discursiva de manchetes, sempre que elas se reportam a conquistas dos quase quatro anos do governo Lula? Cito apenas um de tantos outros exemplos. O IBGE anuncia que, nos últimos 16 anos, portanto incluindo o auge do Plano Real, nunca se havia constatado uma redução tão significativa da pobreza no país. Fato histórico e jornalístico relevante para as circunstâncias? Sem dúvida, mas a mídia apaga sua importância e prefere ressaltar que a pobreza no país continua alta. Odiosa manipulação, mas Lula será reeleito por uma maioria respeitável de cidadãs e cidadãos.

Fico pensando que, tivesse a credibilidade da mídia em alta, a vitória do adversário de Lula seria tão arrasadora como foram as vitórias de Collor e FHC. Mas também vivo a angústia e o dilema de saber o quanto é vital para a democracia a credibilidade da mídia e o quanto é nocivo para essa mesma democracia o seu descrédito.
(Originalmente publicado em 29.10.2006 no Diário do Amazonas) 

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