Odenildo Sena

18 Mai

Os cinemas de minha meninice

Não gosto dos cinemas de hoje. São extremamente impessoais. Ficam escondidos e acanhados no interior desses templos de consumo chamados shoppings. São divididos em diferentes salas cuja identificação se resume unicamente a um número frio. “Sala 1”, “sala 6” e por aí vai. Há sempre a preocupação de homogeneizar esses espaços. Pouco ou nada têm de diferentes entre si. A distinção se dá muito mais pelo título do filme que está em exibição. Decididamente, não gosto dos cinemas de hoje. Eles são destituídos de cara, de personalidade, de características próprias. Como eram diferentes os cinemas de minha meninice! Aqueles, sim, eram entes pelos quais nutriamos carinho, afeição, simpatia. Eles tinham vida própria e se espalhavam pelos bairros e pelo centro da cidade. Lembro-me da emoção que era entrar no cine Odeon. Havia uma imensa e bem decorada sala de espera. Aquela enorme cortina de veludo vermelha, que, a um toque bem característico indicando o início da sessão, abria-se lentamente, estimulando nossa fantasia. O cine Avenida, também na Eduardo Ribeiro. Menos sofisticado, mas igualmente charmoso. Quando reunia meus parcos trocados, gostava sempre de chegar bem antes do início do filme. Deliciava-me na sala de espera, grande e retangular, com suas paredes repletas de cartazes dos novos filmes que me deixavam livre a imaginação. E o cine Polytheama, no final da Getúlio Vargas? Nossa! Tinha uma tela tão imensa, que nos dava a sensação de convivência real com nossos heróis. Já o Guarany, no lado oposto, com sua tradicional galeria e com a sessão das 13 horas, aos domingos, abria espaço em sua frente para uma verdadeira feira de escambo. As revistas e gibis já devorados serviam de moedas para novas leituras. Como era estimulante aquela prática! Lembro-me, também, do cine Ypiranga, na Cachoeirinha, de tamanho inimaginável; do Éden, próximo à primeira ponte da Sete de Setembro, abrigo seguro, quando os demais cinemas do centro estavam lotados. Havia, ainda, o Vitória, no bairro de Educandos, simples, mas tão acolhedor, e até o Popular, na Silva Ramos, carinhosamente conhecido como “cine pulga”. Ah, havia também o cine Pálace, no Boulevard Amazonas. Recordo-me da alegria indescritível de ter participado da sessão inaugural, com o filme “A queda do Império Romano”. Estranha coincidência: o Pálace teve uma vida tão curta. Não posso me esquecer, por fim, do cine Ideal, no bairro de São Raimundo. A glória de pertencer à equipe de limpeza do cinema me franqueava o direito de, aos domingos, assistir a cinco filmes, aí incluídas a expectativa e a emoção do seriado exibido no intervalo entre os dois filmes da sessão de 1 hora da tarde. O Ideal foi o meu Cinema Paradiso.

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