Odenildo Sena

26 Mai

As verdades da mídia

Para que serve a mídia? No sentido mais clássico, como meio a fim que os fatos cheguem ao conhecimento dos cidadãos, que, por sua vez, formam livremente juízo daquilo que lêem. Ou seja, ela não é formadora de opinião, apenas serve de veículo para que tal aconteça. Num outro sentido, mais modernamente vinculado à sociologia do discurso, tem um papel determinante na forma de pensar e agir dos cidadãos. Ou seja, a mídia é formadora de opinião; não apenas o veículo, mas também o motor ideológico dirigido pelos interesses velados ou explícitos daqueles que a administram em suas diferentes formas de atuação. Entre a ingenuidade do primeiro conceito, que atribui neutralidade ao papel da linguagem, e a consistência do segundo, que vislumbra o social como constitutivo da linguagem, há um terceiro, que tem ocupado expressivo terreno nos últimos tempos: a mídia como fabricante da verdade. Não são poucos os registros que denunciam essa perigosa vertente. Há algumas semanas, por exemplo, ganhou força no noticiário nacional aquilo que, desde o início, foi denominado de “dossiê anti-FHC”. Pouco tempo foi necessário, entretanto, para se revelar que se tratava de uma simples planilha, com os efetivos gastos do ex-presidente, capitalizada politicamente por um senador da oposição. Não adiantou a desconstrução do conceito pelos fatos trazidos a público pela própria mídia, que até hoje continua a se valer do mesmo termo para se referir ao episódio. Ou seja, os fatos não importam; importa, nessas alturas, manter arrogantemente a primeira versão, dando a ela o caráter de verdade. Não foi diferente com a enxurrada de matérias dando conta de que o presidente Lula planejava um terceiro mandato. Das poucas vezes em que ele se manifestou sobre o assunto, foi para repudiar a idéia. De nada adiantou. A mídia autenticou a versão como verdadeira. Lembram-se do “mensalão”? Sem entrar no mérito da falcatrua, que envolveu parlamentares de variados partidos, não se provou até hoje tratar-se de uma sistemática mensal de pagamento. Mas isso não tem importância, porque a mídia já decidiu que a verdade é outra. Estou aqui me lembrando de que há alguns anos um jornal local, em texto de matéria que relatava um desses tantos naufrágios, com vítimas fatais, de barcos de passageiros que acontecem no Amazonas, trazia o destaque de que a embarcação havia se partido ao meio, numa clara tentativa sensacionalista de remeter os leitores à tragédia do Titanic mostrada no filme de James Cameron. Isso com ilustração colorida e legenda. Três dias depois, o barco foi içado com o casco intacto. Mais uma vez, de nada adiantou o fato, pois uma outra verdade já havia sido anteriormente decretada. Está-se diante de uma prática perversa que lembra a fabricação da realidade pelo viés stalinista.

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