Odenildo Sena

02 Jun

Lição de anticidadania

Tenho poucas dúvidas de que a cara do Brasil mudou para melhor. A ditadura militar esfarelou-se, vieram eleições diretas em todos os níveis, defenestrou-se um aventureiro presidente da República, vices assumiram legitimamente seu papel, deputados e senadores acusados de falcatruas tiveram seus mandatos cassados, dezenas de prefeitos foram afastados por idênticas razões, pacientes operações da Polícia Federal têm desbaratado quadrilhas que fazem a festa com o dinheiro público, além de tantas outras iniciativas de moralização e ética que nos dão uma ponta de orgulho de respirarmos um ar mais sadio. Mas essa oxigenação não avança, quando se trata do poder público colocar-se no dia-a-dia a serviço do cidadão. A história a seguir é um típico exemplo dessa contra-mão.

Chego ao quarto andar de uma conhecida repartição pública. Por alguns minutos, não sou notado, apesar da barulhenta denúncia da dobradiça reclamando falta de lubrificação. O servidor me encara como um visitante indesejável disposto a incomodá-lo.“Eu gostaria de que estes documentos fossem conferidos, para eu entregá-los no protocolo, no térreo do prédio”. “Lamento, mas o único funcionário que trata disso não está”. “Tudo bem, eu aguardo um pouco”. “O senhor não entendeu, ele não virá, está de licença. Todos os processos iguais aos do senhor estão parados”. “Quando ele retornará?” “Eu não saberia informá-lo”. “Tudo bem que ele esteja de licença, mas eu quero que alguém pelo menos confira os documentos, para eu dar entrada no protocolo”. “O senhor continua sem entender. Só ele cuida desse assunto”. “Mas companheiro, eu só estou pedindo a conferência dos documentos. Quando retornar da licença, não sei quando, ele analisa e resolve o meu pedido”. “O que o senhor está querendo é muito complicado!” “Por favor, deve haver em alguma gaveta algum papel com a relação dos documentos exigidos. Aí é só você conferir. Eu dou entrada no protocolo e tudo bem”. O funcionário capitaliza a minha insistência em prol do seu mau humor, mas cede. “Tudo bem! Dona Maria, procure aí na gaveta uma lista dos documentos”. O entusiasmo da senhora ao lado dispensa comentários. Só de acompanhar a conversa e prever trabalho, o seu raro humor já havia chegado ao limite. Passam-se alguns minutos até a lista chegar às mãos do dito funcionário, que praticamente arranca de minhas mãos os documentos. “Documento tal, documento tal, documento tal… Pronto. Confere. O senhor pode dar entrada no protocolo”. “Está vendo, nem lhe deu muito trabalho, eu dou entrada nos documentos e não preciso voltar aqui só para isso”. Ele não me deu a mínima. Saí dali convicto de ter ampliado meu círculo de inimigos. Aguardei por 12 minutos a presença do pachorrento elevador, mas a certeza de ter conseguido vencer aquela etapa deu-me ânimo. Escondendo um sorriso de aparente vitória, amarguei uns quinze minutos de fila, consegui ficar frente a frente com a servidora do protocolo e, com orgulho de quem se sente na linha de chegada dos cem metros rasos, entreguei-lhe vaidosamente os documentos. Reinou um esquisito silêncio, quebrado apenas pelo folhear dos meus papéis em suas mãos. Ela passou a examiná-los vagarosamente. No silêncio, parafraseei a música do Adoniran. Cada folha que passava doía no coração. Foi bater e ver. “Eu não posso receber o seu documento”. “Mas eu fui orientado a dar entrada nele aqui”. “Acontece que o documento não foi conferido”. “Minha senhora, a conferência foi feita ainda há pouco pelo seu colega do quarto andar”. “O senhor está equivocado. Procure pelo seu Romualdo”. “E onde encontro o senhor Romualdo?” Cara feia, já de impaciência, esticando o lado direito do beiço: “Aqui ao lado”. Curtindo um misto de desalento e fé, amarguei mais vinte minutos de fila até o triunfo, efêmero por sinal, de ficar diante do senhor Romualdo, estrategicamente protegido num cubículo que mais parecia um daqueles tanques usados na Primeira Guerra Mundial. “Qual é o problema?” “A senhora do protocolo me orientou para eu pegar um visto do senhor nestes documentos”. Aquele célebre momento de silêncio. “O senhor tem que pegar uma senha e dirigir-se ao segundo andar”. “Mas eu já vim do quarto andar, onde o funcionário checou os documentos”. “Meu senhor, o visto em documentos é dado no segundo andar”. “Mas o visto não deve ser dado por quem confere os documentos? Ou uma pessoa confere no quarto e outra dá o visto no segundo?” “Meu senhor, quem entende disso sou eu”. “Vamos ganhar tempo. Então me dê uma senha para o segundo andar, por favor”. “Agora não posso”. “Como?” “O segundo andar está lotado”. “E quando eu posso pegar a bendita senha?” “Veja o aviso aí ao lado”. Em um quadro improvisado, escrito a caneta, com alguma dificuldade lia-se o seguinte: “Senha agora só as 10:30hs”. Só que ainda eram 10 horas. Senti a piração invadir minhas entranhas. Mas fui maior que eu mesmo. Prendi a respiração e veio-me um insight: voltar ao quarto andar, onde tudo começara. 10 minutos de espera pelo elevador. Exausto em razão de não sei o que, o mesmo funcionário que me atendera dispensa-me um perverso sorriso. Apaguei o senhor Romualdo e a senha da minha mente e tentei um atalho. “A senhora do protocolo me mandou aqui pegar o visto nos documentos”. “Esse pessoal já é muito complicado”. Automaticamente pegou o carimbo mais próximo, lascou sobre cada folha, fez alguns rabiscos que causariam angústia a Champollion e, exalando a sensação do dever cumprido, entregou-me os documentos. Enquanto dirigia-me novamente ao protocolo, construí uma cruel hipótese: e se o único funcionário que cuida desse assunto tiver acumulado três períodos daquela tal licença prêmio a que tem direito o servidor público? Bom, paciência, dali a nove meses eu volto.
(Originalmente publicado em 25/10/2004)

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