Vida (curta) de repórter
A experiência vivida nas séries finais do ensino fundamental editando o jornalzinho semanal do Marquês de Santa Cruz, em São Raimundo, serviu de estímulo para me considerar apto à gloriosa carreira. Pelas mãos de um amigo telegrafista (outro dia conto sobre minha, também, curta vida de telegrafista), conheci uma figura interessantíssima. De baixa estatura, bom humor fino e permanente, Ulysses Paes de Azevedo era o secretário de redação de O Jornal e do Diário da Tarde. Ficava na Eduardo Ribeiro. Para usar uma referência da época, mais precisamente entre o cine Odeon e o prédio dos Diários Associados. Horário de pouco movimento na redação, final da manhã, apresentei-me. Ulysses olhou-me com pouca fé por cima dos óculos e cravou: “Vamos começar pela polícia”. A partir daquele dia iniciei meus plantões no Casarão da Marechal. Assim era conhecido à época o prédio da central de polícia, na rua Marechal Deodoro. Volta e meia abria o livro de ocorrências, em busca de novidades. Passei uma semana escrevendo pequenos textos inexpressivos que davam conta de brigas em família, desentendimentos entre vizinhos, roubo de galinha e outras confusões. Sábado era dia de pagamento. Orientado por um colega mais experiente, cheguei à redação, debrucei-me sobre a coleção de jornais da semana, presa entre dois pedaços de cabo de vassoura com parafusos nas extremidades, e fui contar quantas colunas somavam a minha produção. Cada coluna, independente de sua extensão na vertical, tinha um valor único. Meu ganho sequer cobriu as despesas nos velhos ônibus de madeira. Não desanimei. Estendi meus plantões aos fins de semana. Eis que num domingo à tarde, único repórter no Casarão, aconteceu o que eu esperava. O comissário de plantão, talvez compadecido de mim, passou-me o furo tão esperado: estava acontecendo um derrame de dinheiro falso na cidade. Feitas as anotações e as entrevistas, parti em disparada rumo à redação. O espaço fervilhava temperado pela insistente cadência do ruído das velhas máquinas de escrever. Entrei no clima. Escrita a matéria (cinco laudas espaço três!), lá estava eu orgulhoso diante dos óculos do secretário Ulysses. Olhou-me sério, percorreu as primeiras linhas do texto e finalizou com duas indecifráveis balançadas de cabeça. Fui pra casa dormir o sono dos justos e sonhar com a certeira manchete de oito colunas: “Derrame de dinheiro falso”. Dia seguinte, fui o primeiro a pegar o jornal na portaria e invadir triunfalmente a redação. Ansiedade em guarda, abro diretamente no caderno policial. Primeira página, nada. Segunda, nada. Terceira, nada. Já em quase pânico, viro rapidamente para a última esperança. Das oito colunas, lá estava o meu precioso texto, imprensado, coitado, numa única coluna, parecia uma tripinha, ocupando, de cima abaixo, a extremidade direita da página. Suspendi precoce e temporariamente minha carreira.


