O caos nosso de cada dia
Cruzamento qualquer. Sinal verde. Motorista acelera para avançar. Freada súbita. Susto. Um outro tranqüilo motorista avançara o vermelho. Indignação. Mãe ofendida. Para o primeiro, uma estupidez. Para o segundo, fato corriqueiro. Afinal, estamos na cidade de Manaus. O rigoroso Código Brasileiro de Trânsito ainda não entrou em vigor. O que vale e se respeita é uma estranha convenção de rua. Como se tivesse força de lei. Daí a necessidade de se oficializar o que teria como sigla CMT – Código Manauense de Trânsito.
No que tange aos equipamentos do veículo, esse código tem estranhas particularidades. O pisca, por exemplo, não tem nenhum valor. Dobrar a direita ou à esquerda, mudar de faixa, dá tudo no mesmo. Quando se trata de ônibus, às vezes ele é acionado. Mas para indicar ao motorista ao lado que deve proteger-se. Se, numa rua movimentada, o pisca-alerta é ligado, indica apenas que o motorista está trocando umas palavrinhas ao celular. Não deve ser perturbado. Enfim, é um acessório dispensável. No que tange à iluminação, também não é diferente. Lanterna, luz alta ou baixa, tanto faz. A conveniência é de cada um. O outro que fique cego e sem rumo. Os pneus, por sua vez, devem ser usados até o surgimento dos ferros. Mas se der para colocar um remendo, vão longe ainda. E a buzina? É uma válvula de escape. Nada de, numa situação extrema, dar aquele toque breve. Independente do local e da hora, ela pode ser acionada em alto e bom som. Já o sinto de segurança é um objeto puramente decorativo. E tudo isso é só um pouco das regras do CMT.
A circulação de veículos também tem suas particularidades. Caminhões, carretas pesadas e ônibus têm preferência pela pista da esquerda. E lá ficam grudados. Pequenos sinais de que alguém está pedindo passagem torna-se um insulto. Nesse caso, é melhor não insistir. O motorista à sua frente poderá reduzir a velocidade. A saída é ultrapassar pela direita. Não sem antes levar uma densa e negra baforada de monóxido de carbono. Quem manda importunar. Mas, se você estiver com seu carro na pista da direita, com velocidade reduzida, e perceber insistente luz alta e agressivas buzinadas, não hesite, sob pena de ser chamado de leso. Imprima bastante velocidade ou passe imediatamente para a pista da esquerda. O decente atrás quer apenas ultrapassá-lo. Nesse caso, perca a esperança de encará-lo e lançar um olhar de indignação. A película do carro dele é 100%. Por outro lado, se o veículo à sua frente trafega sobre a faixa que divide a pista, impedindo-o de qualquer ultrapassagem tanto pela esquerda quanto pela direita, entenda, por favor. A faixa tem outra função: auxiliar a atividade motora do condutor.
Tem mais. Estacionamento de veículos? Liberdade total. Pode ser em qualquer lugar. Na Bola do Mindu, por exemplo, nada mais comum que automóveis e caminhões parados na rótula. Os desinformados que dêem seu jeito de desviar. Mas a preferência de muitos é exatamente ao lado daquelas superadas placas que antes indicavam ‘proibido estacionar’. E à noite? O CMT também tem suas particularidades. Carretas, caminhões e ônibus ressonam, sem nenhum incômodo, no escuro meio-fio de qualquer pista. Mesmo as mais estreitas e movimentadas. Os incomodados que se lixem. Basta manter sempre luz alta e fazer desvios bruscos. Automóveis sem iluminação alguma vindo em sua direção? Não xingue, você poderá aborrecer o seu companheiro motorista e ter o nome de sua mãe envolvido. Lembre-se: aqui, à noite, no trânsito, todos os gatos são pardos.
Cruzamento qualquer. Sinal vermelho. O motorista olha para um lado e para o outro. Lentamente avança. Está apressado? Transporta alguém necessitando de primeiros socorros? Como se dizia no tempo de eu menino, vai tirar o pai da forca? Não. Apenas compulsivamente avança rumo a um irrefreável e doentio estado de barbárie. Assim funciona o Código Manauense de Trânsito. (Originalmente publicado em 25.6.2004)


