Manual de sobrevivência nos aeroportos
Meu inflamado espírito socializante não me permite guardar a sete chaves as lições que tenho aprendido nos aeroportos brasileiros. Vou-me sentir mais aliviado partilhando com os marinheiros de primeira viagem alguns dos meus encontros e desencontros, mais estes do que aqueles. Quer ver uma coisa? Ao entrar na sala de espera para aguardar a chamada de seu vôo, nunca confie na referência do portão constante em seu cartão de embarque. Consulte o painel mais próximo para tirar dúvida. Mantenha-se, entretanto, na dúvida. A indicação de um outro portão não significa ser o definitivo. Um terceiro ou quarto podem aparecer. Na dúvida mesmo, desconfie que o primeiro poderá voltar a ser o oficial. Por segurança, fique de guarda em frente a um portão neutro. Há risco de você ser chamado a embarcar por ele. Se, entretanto, nenhuma das opções anteriores se concretizar e aquela voz de metralhadora anunciar que você deverá se dirigir ao “embarque remoto”, no piso inferior (opção comum no confortável aeroporto de Brasília), prepare o seu valoroso espírito Indiana Jones. Você, com certeza, descobrirá por que é “remoto”. Toda calma, nessas horas. Pense no melhor. Pior mesmo é se anunciarem que você deverá seguir rumo ao malfadado portão “F “. Neste caso, meu propalado espírito socializante não chega a ser tão radical. Me dou o direito de não entrar em detalhes. Por outro lado, uma dica preciosa, porque envolve segurança, mais especificamente a sua integridade física: não se deixe conduzir pelos recorrentes alarmes falsos promovidos pelos solícitos funcionários das companhias aéreas, principalmente, como já reconheci antes, no confortável aeroporto de Brasília. A cada vez que eles indicam um falso portão para embarque, a multidão não pensa duas vezes. Acometida pelo desespero, recolhe às pressas e freneticamente malas (como elas são grandes!) e tralhas e dispara em desabalada carreira, numa impressionante batalha corpo-a-corpo que, em geral, deixa dois ou três bem maltratados no meio do caminho. Você poderá ser um deles, se desprezar essa importante recomendação de quem tem algumas horas rodadas nessa estrada. Cautela. Muita cautela nessas horas. Se quiser alguma orientação da companhia quanto a tanta indefinição, dirija-se ao funcionário. Não se irrite. Tanto quanto você, ele estará absolutamente desinformado.


