No tempo das boiadas
Aquele grito esticado nas palavras soava, aos nossos atentos ouvidos, como uma senha a indicar que a festa poderia durar o dia inteiro e até entrar pela noite: “booooooi sooooolto!” A partir dali, todas as outras brincadeiras anteriormente agendadas perdiam prioridade. Acontece que, naquele tempo, quando o rio baixava e o igarapé ficava acanhado de água, formava-se uma belíssima praia de areia fina e cristalina, que começava na Beira-Mar, no bairro de São Raimundo, e se perdia de vista além da Ponta Negra. Nessa condição, os barcos que transportavam gado eram impedidos de chegar ao “curro” (era assim que chamávamos o matadouro), que ficava no vizinho bairro da Glória. Ancoravam distante. Cercas improvisadas eram instaladas entre a praia e o que restava do igarapé, ao longo de todo o trajeto até o matadouro. Nessas alturas, vestindo meu calção branquinho, habilmente confeccionado pela minha mãe com tecido de saco de trigo, compunha a barulhenta platéia ao lado dos amigos de minha meninice. Ficávamos ruidosamente disputando o cantinho mais privilegiado na parte mais alta da cerca. Impossível conter nossa alegria e admiração, quando vislumbrávamos, de longe, a silhueta do nosso herói cavalgando elegantemente em direção ao barco, ancorado a alguns metros da praia, pronto para liberar sua carga e a nossa emoção. Montado em seu vistoso cavalo de crinas salientes e todo paramentado, o bom vaqueiro farejava, também de longe, o seu grupo de pequenos fãs. Razão suficiente para tufar o peito, forçar as brilhantes esporas na barriga do animal, que passava a cavalgar em ritmo sincronizado de bailado, e erguer com vaidade a cabeça, exibindo o chapéu de cor marrom, o que, inevitavelmente, atiçava mais ainda a nossa vibração. Aquilo sempre fazia lembrar os caubóis de nossa convivência todos os domingos à tarde no cine Ideal. Todo esse charme era completado pelo rolo de corda diligentemente arrumado e pendurado no lado direito da sela. Ficávamos todos de olho naquele precioso instrumento de trabalho. O desejo silencioso era haver um forte motivo para ser usado, diante da eventual teimosia de algum garrote rebelde que se desgarrasse e se recusasse a seguir fielmente o resto da boiada. Num dado momento, ao sinal do vaqueiro, a porteira do barco era liberada e o gado nadava até a praia. Era o início do nosso espetáculo. Depois eu conto o resto.


