A gramática Sateré-Mawé
A conversa fluia em bom português, até que o índio tukano fez um repentino silêncio e, em seguida, confidenciou-nos algo que parecia ser normal. Numa ocasião, perguntado como se dizia tal coisa em sua língua, viu-se agoniado, pois já não se recordava exatamente. Precisou de algum tempo para remoer a memória e dela arrancar aquela palavra e seus variados efeitos de sentido. Dia desses o episódio voltou-me à lembrança. O que fora dito num misto de fatalidade e conformismo era representativo, na verdade, de uma tragédia de singular brutalidade. Fiquei tentando reconstituir, num breve lapso de tempo, o cruel e imperceptível itinerário de uma língua social e politicamente privilegiada que, de forma lenta e gradual, apaga uma outra, numa espécie de ritual fascista que retira do falante da língua mais fragilizada o direito de se expressar em sua cultura. Engana-se quem pensa que a extinção de uma língua se resume apenas ao desuso de um sistema de códigos. Entranhado nesse sistema, há uma forma de apreender o mundo, de senti-lo, de projetar conceitos, de estabelecer crenças. Enfim, a crueldade está no fato de que, quando uma língua é extinta, está-se diante de um genocídio cultural. E no Brasil, ao longo de nossa história, essa prática é assustadora. Quando os portugueses aqui chegaram, calcula-se que havia em torno de 1.270 diferentes línguas. Hoje elas se resumem a 180. Urge, portanto, pelo menos aliviarmos essa impagável dívida com nossos povos indígenas. Neste sentido, a sistematização da Gramática Sateré-Mawé, elaborada sob a coordenação da pesquisadora Dulce Franceschini, a partir de um projeto financiado pela Fapeam e publicada pela Editora da Universidade Federal do Amazonas, é uma das tantas e valiosas iniciativas que, aliando o conhecimento tradicional à ciência da linguagem, resultam num poderoso mecanismo de revitalização e fortalecimento da língua do povo Sateré-Mawé, que já usa em suas escolas o material como apoio didático. Fundamental acrescentar que o trabalho de pesquisa e elaboração da gramática contou com a participação de 12 jovens pesquisadores indígenas dessa etnia, o que, além do efeito de inclusão social pela ciência, deu um toque especial à pesquisa e ao seu produto, na medida em que provocou a quebra do paradigma que, não raro, coloca-os na condição de objeto. Neste caso, eles assumiram o papel de sujeitos em defesa de seu maior patrimônio cultural: a língua materna. Oportuno lembrar isso, quando se realiza em Manaus a II Conferência Estadual dos Povos Indígenas.


