Se a moda pega
Curioso esse velho detalhe de nossa cultura. Há leis e leis, embora todas religiosamente aprovadas no Congresso Nacional e, portanto, em plena vigência. Acontece que, independentemente da liturgia legal que as coloca em funcionamento, elas passam por um necessário estágio probatório, coisa impensável em outros países. Para isso até já pactuamos o alargamento do sentido de um verbo, a fim de aferir o cumprimento satisfatório ou não desse período de provação. Uma espécie de consulta às bases. Antes, porém, desse peculiar excesso de zelo democrático, faz-se bastante barulho, prende-se e arrebenta-se, sobretudo com a indispensável ajuda da mídia, que durante algumas semanas oferece destaques a casos pontuais e declarações bombásticas recheadas de rigor das autoridades da área. Costuma-se ter um veredito que indica se a lei pegou ou deixou de pegar. Se o resultado contempla o primeiro caso, cuida-se de criar mecanismos e procedimentos que dêem seqüência à fiscalização de seu cumprimento. Se contempla o segundo, lenta e paulatinamente a lei vai caindo no esquecimento e, um pouco lá adiante, passa a merecer o rótulo de lei que não pegou e, portanto, merece o descrédito e a indiferença tanto das autoridades quanto da população. Não foi diferente com a primeira versão da chamada “lei seca”, que, salvo engano (é no que dá cair no esquecimento!), estabelecia uma tolerância máxima de 4 ou 6 decigramas de álcool por litro de sangue. Como não pegou, o congresso lançou uma segunda versão, tipo 0.2% turbinada. Tão rigorosa, que os mais paranóicos suspenderam até o uso do Cepacol, similares e genéricos. Tão ostensiva, que não faz mais sentido dizer, como nos versos do poetinha Vinicius de Morais, que os bares estão repletos de gente, porque hoje é sábado. Apreciador que sou da loura suada às sextas-feiras, torço para que essa lei não corra nenhum risco de pegar ou não, mas que seja simples e naturalmente cumprida e fiscalizada como deve ser qualquer legislação. O resto fica por conta de uma radical mudança de hábito, compensada pelo reduzido número de acidentes fatais nas estradas, o que evita dor e sofrimento e gera uma enorme economia para a saúde do país.Curioso esse velho detalhe de nossa cultura. Há leis e leis, embora todas religiosamente aprovadas no Congresso Nacional e, portanto, em plena vigência. Acontece que, independentemente da liturgia legal que as coloca em funcionamento, elas passam por um necessário estágio probatório, coisa impensável em outros países. Para isso até já pactuamos o alargamento do sentido de um verbo, a fim de aferir o cumprimento satisfatório ou não desse período de provação. Uma espécie de consulta às bases. Antes, porém, desse peculiar excesso de zelo democrático, faz-se bastante barulho, prende-se e arrebenta-se, sobretudo com a indispensável ajuda da mídia, que durante algumas semanas oferece destaques a casos pontuais e declarações bombásticas recheadas de rigor das autoridades da área. Costuma-se ter um veredito que indica se a lei pegou ou deixou de pegar. Se o resultado contempla o primeiro caso, cuida-se de criar mecanismos e procedimentos que dêem seqüência à fiscalização de seu cumprimento. Se contempla o segundo, lenta e paulatinamente a lei vai caindo no esquecimento e, um pouco lá adiante, passa a merecer o rótulo de lei que não pegou e, portanto, merece o descrédito e a indiferença tanto das autoridades quanto da população. Não foi diferente com a primeira versão da chamada “lei seca”, que, salvo engano (é no que dá cair no esquecimento!), estabelecia uma tolerância máxima de 4 ou 6 decigramas de álcool por litro de sangue. Como não pegou, o congresso lançou uma segunda versão, tipo 0.2% turbinada. Tão rigorosa, que os mais paranóicos suspenderam até o uso do Cepacol, similares e genéricos. Tão ostensiva, que não faz mais sentido dizer, como nos versos do poetinha Vinicius de Morais, que os bares estão repletos de gente, porque hoje é sábado. Apreciador que sou da loura suada às sextas-feiras, torço para que essa lei não corra nenhum risco de pegar ou não, mas que seja simples e naturalmente cumprida e fiscalizada como deve ser qualquer legislação. O resto fica por conta de uma radical mudança de hábito, compensada pelo reduzido número de acidentes fatais nas estradas, o que evita dor e sofrimento e gera uma enorme economia para a saúde do país.


