Odenildo Sena

16 Set

Da leitura à infância

Um texto não é apenas um repositório de informações. Esse é o mais visível de seus propósitos, mas há um sem número de outros que formam uma complexa teia de relações. Um texto não tem um fim em si. Ele é um elemento intermediário. No mínimo um pretexto que conduz o leitor a outros textos, outros mundos e a uma infinidade de situações vividas ou a viver. Um despertador que aciona lembranças e segredos adormecidos em nossa alma. Explico-me. Lia um pequeno texto, em uma dessas revistas de bordo, que falava de uma nova opção de lazer chamada “turismo eólico”. Trata-se de conhecer e curtir vastos campos enfeitados por gigantescos moinhos, usados para a geração de energia limpa e renovável, coisa que os europeus, com muita sensibilidade, apelidaram de “fazendas de vento”. Num dado trecho – e só me dei conta disso minutos depois –, em que autor ressalta ser muito antiga a admiração humana por moinhos, deixei lentamente a revista de lado e fui conduzido a um outro contexto, bem distante no tempo, mas vivo na memória. Meus moinhos e cata-ventos! Eu os construía com paciência e tenacidade quixotescas. Recolhia sobras de madeira desprezadas no fundo do quintal e aparelhava dois pedaços estreitos e retangulares. Calculava com exatidão o seu ponto central, no qual abria um pequeno furo com ajuda de uma ponta de um prego em brasa aquecida no velho fogareiro da casa, juntava-as em forma de cruz e fixava as duas peças com miúdos preguinhos. O passo seguinte era catar latas de óleo (os quintais de minha infância eram sempre férteis em matérias-primas!), abri-las com muito cuidado e cortar quatro pedaços em tamanhos iguais que, pregados na extremidade de cada haste de madeira, davam forma a uma espécie de hélice, que, com os complementos, lembravam um avião sem as asas. Restava o desafio de prender o cata-vento na ponta de uma longa vara, ergue-la e fixá-la com a ajuda de barbante e pedaços de arame velhos. Agora era deitar no chão do quintal e, tendo o céu por testemunha, ver o vento dando incessante vida àquela máquina maravilhosa. O motivo de minha paixão pela brincadeira, tão simples, um dia vou encontrá-lo em outros textos e outras leituras.

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