Canalhice a toda prova
Quem não concordar que atire a primeira pedra: não há serviço mais humilhante, mais desrespeitoso e mais canalha do que o dispensado pelas empresas que atendem seus usuários pelo chamado call center. A começar pela interlocução inicial, que obriga o cidadão a escolher entre as infindáveis e confusas opções que lhe são impostas por uma voz metálica e impessoal. Mas a situação não pára por aí. Essa escolha nunca direciona para o atendimento que você deseja. É sempre necessário perambular por outras teclas, obediente ao comando imperturbável da dita e odiosa voz. Penso que o propósito inicial é mesmo fazer com que a pessoa desista logo de entrada, reduzindo a demanda pelo atendimento. Sem contar com a longa tortura inicial de espera, ao longo da qual a pessoa é obrigada a ouvir, numa interminável repetição, os apelos para aquisição dos mais variados pacotes de invejáveis serviços, como se ela não estivesse perdendo seu precioso tempo exatamente para reclamar deles. E sem contar, ainda, com toda a probabilidade de, na sorte de ser atendido, a ligação cair (será acidental?) e o otário (do cliente, é claro!) precisar iniciar todo o processo e entregar mais trinta minutos a uma hora de seu preciosíssimo tempo a esses abomináveis atravessadores de plantão. Recentemente fui vítima de uma dessas situações surrealistas e absurdas. Há quase uma semana sem o serviço de banda larga (?), vi-me obrigado a enfrentar esse rosário. Após fornecer repetidos dados de meu prontuário de cliente e os sucessivos intervalos de espera (o sistema está sempre muito, muito lento, embora a empresa venda serviços de banda larga), narrei minha história (inúmeras vezes interrompida pelo enfadonho pedido “um momento senhor”) e apelei pelas providências. Em seguida aos vários truques manjados de liga e desliga o modem, a voz da criatura sentenciou que no dia seguinte mandaria um técnico à minha residência, não sem antes, para minha surpresa, ameaçar que, caso não estivesse em casa, eu seria obrigado a pagar uma taxa de “visita improdutiva”. Indignado, lembrei-lhe que há uma semana estava improdutivo e perguntei quem pagaria por isso. Respondeu-me, armado de deboche e cinismo, quase rindo, que nada poderia fazer. Pedi para falar com seu superior, disse-me que não era possível. Insisti, apelando para os meus direitos de cidadão. A criatura fez ouvido de mercador e silenciou. Dei-me conta de que o mundo de lá é dos nets; o daqui, dos otários.


