O jornalismo da neutralidade
Gosto muito mais do tempo em que se acreditava piamente que o chamado texto jornalístico era marcado pela neutralidade e que o jornalista era o sujeito que tinha a sagrada missão de passar aos leitores o relato fiel dos acontecimentos, sem nunca manchar a matéria com o que achava ou deixava de achar. Opinião? Nem pensar! Presença camuflada ou não das marcas da primeira pessoa do verbo? Uma mácula inaceitável que comprometia a pureza e a imparcialidade do texto! Uso de adjetivos? Ostensivamente proibido! Denunciava o supremo envolvimento do profissional com os fatos e dava margem a que seu texto fosse classificado como subjetivo. Palavras de efeito conotativo? Prática desaconselhável!Poderia suscitar interpretações dúbias, portanto diferentes daquela projetada pelo autor da matéria. A escolha deveria recair sempre nas palavras de efeito denotativo, tidas como as que melhor expressavam a realidade. Todo esse zelo chegava até aos editoriais. Apesar de tradicionalmente representarem o ponto de vista do veículo, eram produzidos com a parcimônia de quem falava na condição de um sujeito sempre distante, intangível, neutro e, por conseqüência, dono de verdades inatacáveis. Os textos que se permitiam contrariar essas regras eram assinados pelos colunistas, a quem era imputada a responsabilidade por eventuais desatinos. Lembro-me muito bem de que textos outros passíveis de transgredir as regras de imparcialidade apareciam, na mídia impressa, com uma cercadura. É fato, por outro lado, que os modernos estudos sobre o fenômeno da linguagem, notadamente no campo da Teoria do Discurso, desconstruíram a ilusão da neutralidade. Pelo princípio de que o social e o ideológico são constitutivos da linguagem, a subjetividade passou a ser vista como inerente a ela. Ainda assim, eu continuo gostando mais daquele tempo em que havia “neutralidade” nos textos jornalísticos. Pelo menos essa crença desafiava os profissionais da área a focar suas matérias muito mais nos acontecimentos, o que é perfeitamente possível, e menos naquilo que acham ou deixam de achar. Muito mais que mediadores, hoje eles se acham os donos absolutos e intocáveis da verdade.


