Odenildo Sena

07 Out

O fantástico mundo do texto e da leitura

Não estou dizendo nenhuma novidade. Apenas lembrando um fenômeno pouco perceptível, mas de enorme alcance e complexidade. Ao se postar diante de um texto, incluindo naturalmente este que você começa a ler, o leitor nunca se comporta como um ser passivo. Embora, no geral, ele não tenha consciência disso, a sua interlocução é permanente, sem que para isso precise esboçar qualquer manifestação visível: algumas vezes torna-se cúmplice do que lê, outras, reage com indignação; num dado momento propõe correções ao rumo do texto, em outro, silencia ou até se acovarda; em certas circunstâncias absorve linearmente o que está sendo dito, em outras, remete o texto a outros textos e contextos, além de, ao longo da leitura, construir textos paralelos que obedeçam aos seus interesses e às suas representações sociais internalizadas. Enfim, o texto não é um objeto acabado. Trata-se de uma obra sempre aberta, de uma rede complexa de infinitas relações que estão sempre além e aquém dele próprio. Um exemplo? Quem já não passou pela experiência de produzir um texto, permitir a ele um período de descanso em algum canto da mesa ou alguma gaveta e, num dado momento, reencontrá-lo e se dar conta de que não era bem aquilo que se desejaria dizer, não era bem daquele jeito que se queria construir algumas frases, não era bem aquela a melhor posição de um adjetivo ou advérbio, não era exatamente aquele efeito de sentido que se desejaria atribuir? Uma explicação? Ao retomar contato com aquele texto, outras e infinitas leituras já haviam gerado tantos e tantos outros textos que passaram a ocupar espaço no disco rígido de nossa memória, desbancando, inclusive, outros textos aparentemente salvos e consolidados. Razões não faltam para isso. Uma delas está no fato de que um texto, seja ele qual for e de que natureza for, nunca reflete um produto de pura originalidade. Sempre será resultado de fragmentos de outros textos que, velada ou explicitamente, ao longo de nossa experiência de vida, acabaram sendo absorvidos. Trata-se da intertextualidade ou da interdiscursividade referidas pelos estudiosos da literatura e do discurso. O trabalho, portanto, de quem escreve um texto consiste na tentativa de dar unidade a pedaços de textos que não são seus e, o que é mais sério, sob ordens que a própria razão desconhece. Trata-se de uma obra de engenharia e arquitetura. Somos, enfim, meros atravessadores dos textos alheios. Ou você ainda tem alguma dúvida de que este texto que acaba de ler é, no fundo, uma uma bem engendrada colcha de retalhos?

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