A devassidão do mercado
Não sei quem é o mercado. Nunca o vi mais gordo. Nem sei onde ele mora. Como diria o velho Machado, não o conheço nem de vista nem de chapéu. Também duvido muito que o nosso mais célebre escritor tenha tido qualquer interlocução com esse ente. Não me cabe, portanto, falar de nenhuma proximidade com a tal criatura. Tenho vivas na memória, entretanto, algumas lembranças de terceiros que diziam ou pareciam ter bastante intimidade com o dito. Sei, por exemplo, que no reinado do sociólogo-presidente-do-Brasil, dizia-se a bocas largas que o mercado era uma referência de juízo e competência, em quem se poderia depositar cega confiança. Tanto que carregava consigo o extraordinário poder de administrar as relações comerciais e empresariais entre os cidadãos de um país e do mundo. Tanto que a mídia, pela voz uníssona de nossos abalizados economistas de plantão, referia-se a ele na intimidade como “mercado regulador”, salvação de qualquer pedaço do mundo que compreendesse e se submetesse a uma tal de globalização, também conhecida por muitos, mas vista por tão poucos. Tanto que se generalizou a fé, ardorosamente, aliás, professada e defendida com fervor pelo sociólogo-presidente-e-seus-fervorosos-seguidores, de que ao Estado caberia recolher-se à sua insignificância e estupidez, entregando as rédeas da economia da nação ao mercado, só ele competente para dar conta da complexa tarefa de entender e bem administrar os desafios impostos a nós pobres mortais. Tanto que, em nome desses inabaláveis princípios, vivemos, como todos bem se lembram, a desenfreada febre da privatização. Vendeu-se quase tudo no país. A Petrobrás, nossa galinha dos ovos de ouro, escapou fedendo, como se diz pelas bandas de cá. Mesma sorte não coube à nossa Cosama, que, em compensação, teve merecidos momentos de glória nessa campanha eleitoral. Enfim, proclamava-se que o mercado tinha que ser grande e o Estado mínimo. Continuo sem entender muita coisa. Os jornais dizem que o mercado anda bastante nervoso e inquieto, tem perdido a calma. Na semana passada chegou a se estressar e entrar em pânico. Nem o velho Freud teria explicações para isso. Só sei dizer que, de minhas lembranças, sempre que enfrenta crises existenciais, o mercado torna-se perverso, devasso, irresponsável e oportunista. E tem sempre o odioso hábito de curar sua ressaca às custas de quem não comeu, não bebeu e nada teve a ver com sua orgia.


