Odenildo Sena

03 Nov

O mercado no divã

Os comentaristas econômicos me causam incômodo. Com espantosa naturalidade, atribuem personalidade e caráter a esse ente abstrato e materialmente inexistente chamado mercado de capitais, transferindo-lhe reações e sentimentos exclusivos do ser humano. Incomum, por exemplo, ouvirmos que o mercado, num dado momento, ficou inquieto e nervoso em conseqüência das declarações de fulano ou sicrano? Ou, ainda, que amanheceu disposto, provocando otimismo nos investidores, mas ao final do dia teria se estressado com a incerteza nos rumos da política americana, provocando uma forte queda nos índices das bolsas de valores? Essa odiosa personificação acaba rimando com a ilusão de que o mercado encarna a figura de um sujeito sensível, emotivo, responsável e extremamente preocupado com o bem-estar do próximo. E esse perverso jogo ganha extremo realismo com o papel coadjuvante da mídia. Dia desses, um certo jornal estampava em sua primeira página que nem Freud teria explicações para o atual comportamento do mercado. Simplesmente cômico, se não fosse trágico. Pois não é que a realidade imitou a ficção! O mercado acabou sendo o tema paralelo mais discutido entre os participantes do recente Congresso Brasileiro de Psiquiatria reunidos em Brasília! Aliás, não exatamente o mercado, mas as trágicas conseqüências – para entrar na onda da personificação – de sua explícita irresponsabilidade. Os especialistas ressaltam que as crises financeiras representam um elemento propulsor para o aumento das doenças psíquicas, do consumo de álcool e de drogas e que as pessoas com predisposição para determinados distúrbios mentais, levadas pelo estresse e pela ausência de perspectiva, tornam-se propensas a atitudes extremas, como o suicídio. Mas a tragédia não termina por aí. Mesmo quem não colocou um tostão sequer de seu parco dinheirinho nas mãos do mercado sofrerá as conseqüências dessa orgia na forma de recessão, menor crescimento econômico, desemprego e fome. Isso é o que verdadeiramente se chama de distribuição de lucros entre poucos (quando o mercado está um bom camarada) e socialização da desgraça entre todos (quando ele resolve ficar mal-humorado).

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