Odenildo Sena

11 Nov

A brava resistência de Cuba

Abro o Diário do Amazonas. Desvio, de propósito, das matérias sobre economia. Já estou sem paciência para agüentar os humores do tal mercado. Ainda assim, não resisto a uma declaração, no mínimo, graciosa do presidente Obama. Ele afirma que a crise é global, por isso a solução tem que envolver a todos. Na leitura da declaração, eu já me permito construir paralelamente outra: “nós fizemos a farra, mas os prejuízos têm que ser divididos com todos vocês”. Tivesse em minha plena meninice, eu saberia muito bem responder a ele com aquela famosa história da pimenta, acrescida daquela frase que era muito do gosto de minha mãe: “quem pariu Mateus que o embale”. Passo a página e uma pequena manchete no cantinho me chama a atenção. Pela décima sétima vez a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução pedindo o fim do embargo econômico e comercial imposto pelos EUA a Cuba há meio século. Só que, desta vez, com um placar arrasador. Apenas três, dos 102 países que integram a ONU, incluindo naturalmente os donos da crise econômica mundial, votaram contra. Ato contínuo, ativo a memória e me vem à lembrança a recente e primeira viagem feita à Ilha, sonho quase tão antigo quanto o tempo de pura prepotência americana contra aquele minúsculo país do Caribe. Nada como ler, conhecer e conviver, ainda que por pouco tempo, para formar convicção das razões do ódio de meio século que os americanos nutrem por Fidel e seu regime. Note-se que, de propósito, excluí Cuba desse ódio. Sim, porque do ponto de vista geográfico e físico tudo no país, principalmente em Havana, me levou a crer o quanto os americanos adoravam e se deliciavam com os prazeres postos a sua disposição por Fulgencio Batista, uma espécie de capataz a serviço do tio Sam. Os vestígios dessa outra farra, inevitavelmente corroídos pelos cinqüenta anos desde a Revolução Cubana, espalham-se por todos os lados em Havana. As centenas e centenas de carros americanos das décadas de 40 e 50, todos modelos de extremo luxo para a época, circulam sofregamente, alguns, por puro milagre; outros, pelo excesso de zelo e conservação. Se, de um lado, representam a enorme capacidade de reinvenção e resistência do povo cubano, de outro, simbolizam o que foi uma ostensiva e descabida intromissão em terra alheia. Um antigo exemplo de que os americanos estão acostumados a promover a farra e cobrar a fatura de seu prejuízo e estupidez ao resto do mundo.

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