Parâmetros de civilização
Sei que não é assunto ideal e agradável para se iniciar um artigo. Alguns vão dizer que estou baixando o nível, outros, que a nobreza do espaço merece coisa melhor. Não importa. Conto o que vi e afetou o meu nobre espírito de pessoa civilizada. Entrei em um banheiro público e lá estava, improvisado em um amassado pedaço de papel fixado à parede com a ajuda de quatro assimétricas tiras de fita adesiva, o inusitado e surpreendente aviso, escrito com pincel e caligrafia graúda e firme de quem fora bem alfabetizado: “Não faça necessidades fora do vaso sanitário”. Permiti-me um enorme esforço para tentar compreender as razões pelas quais, diante do mais evidente fim a que se presta um vaso, alguém, deliberadamente, contraria esse acordo tácito entre os seres humanos desde tempos imemoriais. A questão, aliás, vai além desse fato. Sabe-se que esse milenar espaço, por muitos com justa sabedoria e nobreza designado de trono, historicamente sempre ensejou momentos da mais alta contrição e recolhimento que se desdobraram nas mais profícuas teses filosóficas, em grandes soluções para os dilemas aparentemente sem saída da humanidade, em momentos de auto-confissão e arrependimento, nas mais profundas e concentradas leituras e nas mais dignificantes e diversas decisões que vieram a nortear o futuro da presença do ser humano nesse vasto e complexo universo. Difícil, repito, entender as razões de um gesto de tamanho radicalismo, senão pela lógica da barbárie e da ignorância. Aquele aviso ficou martelando em minha memória. Dia desses, numa dessas horas de puro recolhimento, entabulei uma reflexão que me levou a construir a tese, naturalmente sujeita à contestação científica, de que o grau maior ou menor de civilidade de um povo é proporcional à sua convivência com um maior ou menor número de avisos espalhados pelos quatro cantos de uma cidade. Neste item, arrisco-me a dizer que somos imbatíveis. Estou aqui me lembrando de alguns. Após usar o banheiro, acione a descarga. Não urine fora do vaso. Não jogue objetos no vaso sanitário. Não jogue absorvente no vaso. Não ultrapasse a faixa de segurança. Aguarde antes da faixa amarela. Não ultrapasse a velocidade permitida. Dê preferência ao pedestre. Lugar de lixo é no lixo. Não pule a cerca: cachorro feroz. Não fale alto nesta biblioteca. Não pise a grama. Não ultrapasse a faixa amarela. Respeite a fila. Pensando bem - e para encerrar por hora essa reflexão – , diria que a gravidade não está apenas na proliferação e na diversidade de avisos com que convivemos, mas sobretudo naquilo que eles representam de óbvio. Francamente falando, ignorar o vaso é demais. É o império da estupidez.


