Meu conto de Natal
Aquele dia era sempre diferente. Nem bem começava e meu inquieto espírito infantil ficava contabilizando o tempo, na ansiedade de que fosse consumido. Havia pressa em tudo. No café da manhã, a parte que me cabia daquele pão de meio quilo, hábil e milimetricamente dividido por minha mãe entre oito irmãos e agregados, era devorada numa rapidez pouco civilizada. As brincadeiras de rua com os pareceiros das casas vizinhas tinham pouca motivação. Até o banho e a algazarra debaixo da única torneira que abastecia a rua com água encanada, encanto cotidiano de toda a garotada, tinha pouca graça. O desafio diário das escaladas na frondosa mangueira que havia no quintal, pelo simples prazer de pôr as próprias mãos na fruta e gostosamente devorá-la nas alturas, não despertava nenhum interesse. Mesmo o improvisado balanço atado com cordas a um dos galhos da mangueira, instrumento de saltos colossais e perigosos, descansava sem ser importunado. Minha ilusão era de que, ignorando a recheada agenda diária de brincadeiras, o tempo se tornasse cúmplice e apressasse a chegada da noite. Diferente dos outros dias, em que mãe precisava usar de sua autoridade, eu me impunha a mais rígida disciplina e às sete da noite já estava recolhido à minha fianga. Era assim que ela sempre se referia à rede, debaixo da qual, especialmente naquele dia, eu arrumava com extremo zelo, lado a lado, meu único e desgastado par de chinelas. A ansiedade provocava uma indesejável insônia, o que me fazia sentir com mais vigor, por baixo da rede, o vento frio que invadia o quarto pelas brechas deixadas no chão de madeira da casa. Apenas a exaustão me apagava. Mesmo assim, o sono era interrompido sucessivas vezes. Eu me acordava sobressaltado, olhava para os furos no teto de zinco, a conferir alguma revelação do dia, e verificava se havia algo ao lado de minhas chinelas. Sem novidades, entregava-me de novo ao cansaço acumulado e ao sono, agora mais profundo. A princípio longe, o som marcado por uma doce melodia foi-se aproximando e se misturando àquele estado em que a embriaguez do sono é tão envolvente quanto a ansiedade de acordar. Num lampejo de lucidez, lembrei-me da razão das inquietações daquele dia e daquela longa noite, dei um salto para a beira da rede, segui a direção da cativante melodia e, tomado por um súbito encantamento, pude visualizar um objeto cônico que refletia o multicolorido de um arco-íris. Contagiado pela alegria, desci da fianga, deitei-me no chão e pude curtir sem pressa o giro sereno daquele mágico pião.


