Odenildo Sena

29 Dez

A doce ilusão do Natal

Não sabia, ainda, que surpresa o aguardava naquela caixa diligentemente coberta por um colorido papel de presente. Acabara de acordar e curtia aquele misto de ansiedade e controle. Não tinha certeza se corresponderia ou não ao pedido detalhado em sua carta deixada ao pé da minúscula árvore de natal, mas se segurava, dando vida longa à espera que o separava da emoção de conferir o que escondia aquele embrulho. Abraçou a caixa com firmeza, como quem não pretende correr qualquer risco de perder um bem precioso, encarou com firmeza o olhar da mãe e, do alto dos seus experimentados cinco anos de idade, cravou com maestria e objetividade. Você acredita no Papai Noel? Tentando dissimular a surpresa com a inesperada atitude, ela buscou cumplicidade no meu olhar e respondeu-lhe à altura da firmeza da pergunta. Acredito! Antes que a pergunta fosse refeita a mim, antecipei-me e bati firme na tecla. Claro que eu acredito! Seus olhinhos traduziram alívio e segurança. Estava dada a garantia para que iniciasse o lento ritual de abertura do pacote e resgatasse do interior da caixa de papelão a primeira das peças que compunham o presente. É um Tiranossauro Rex! A exata classificação denunciava o precoce espírito investigador de paleontólogo, que o faz trazer na ponta da língua os nomes mais esquisitos como Cryolophosaurus, Carnotaurus, Velociraptor, Oviraptor, Styracosaurus, Trigonosaurus, Iguanadon e por aí vai. Mas as dúvidas existenciais que o perseguiam naquela manhã de Natal não estavam todas resolvidas. Súbito, interrompeu a concentração, voltou-se para o nosso olhar de espectadores e nos conduziu até a sala, onde as luzes da árvore de natal ainda piscavam multicoloridamente. Queria saber agora como o Papai Noel havia atendido o seu pedido, se a carta a ele endereçada, posta há alguns dias sob a árvore, lá continuava do mesmo jeito, intacta. Grande equívoco, penso com meus botões, subestimar a perspicácia e o rigor dessas criaturinhas! Ensaiei a justificativa mais óbvia. O Papai Noel havia lido e deixado a carta no mesmíssimo lugar. Certo de que o convencimento não fora suficiente, busquei desesperada ajuda de minha cúmplice, que veio em meu socorro. O Papai Noel era poderoso. Ele sabia o que cada criança escrevia em sua cartinha. Não houve mais questionamentos. Não sei se até o próximo Natal o Eric ainda estará acreditando na lenda. De minha parte, tudo bem. Tudo tem seu tempo e sua hora. Eu me senti grato e feliz ao descobrir, num certo Natal, que o Papai Noel lá de casa era a minha irmã Chaguinha. E nem por isso guardo mágoa alguma do bom velhinho.

 

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