Maquiagem ortográfica
Não, nada de estresse com as novas regras decorrentes do acordo para unificação ortográfica da Língua Portuguesa. Não se trata de nenhuma maluquice de última hora. Elas vêm sendo gestadas desde 1986 e, para isso, muito se deve à participação do falecido filólogo Antônio Houaiss. Ele fez lembrar à época, com muita sabedoria, os prejuízos linguísticos (isso mesmo, o trema saiu de moda, exceção para os nomes próprios estrangeiros!) , pedagógicos e políticos trazidos a todos com a ausência de uniformidade no registro escrito de nossa língua, por sinal a única no Ocidente com duas grafias diferentes – a europeia (Agora é assim mesmo! Não são assinalados com acento gráfico os ditongos ei e oi de palavras paroxítonas) e a brasileira. Mas, para melhor entendermos as consequências (de novo, sem o trema!) práticas dessas novidades, é prudente lembrarmos um princípio fundamental: a unificação ortográfica nada tem a ver com a uniformização da Língua Portuguesa. Afinal, uma língua não se resume apenas a um instrumento de comunicação. Muito mais que isso, reflete um fenômeno de natureza cultural, social, histórica e ideológica. Em outras palavras, a forma como a língua nos é transmitida, no universo das mais diferentes circunstâncias de convívio, vai determinar o modo particular de apreendermos o mundo em nosso redor, aí incluídas nossas crenças, nossas convicções políticas, nossa sensibilidade, enfim, aquilo que somos e como somos e que está além e aquém de nossa vontade. Queremos, com isso, dizer que uma língua não se muda por decreto, pois se trata de um sistema complexo do qual a ortografia efetivamente não faz parte. Tanto que, para ser falante da Língua Portuguesa, eu não preciso dominar a sua ortografia. A condição é a convivência com outros falantes da língua. Daí os linguistas (que perderam o trema!) afirmarem que, diferentemente da língua falada, que nos é transmitida, a língua escrita é adquirida, resulta de um processo pedagógico de aprendizagem. Dito de outra forma, o acordo ortográfico – sobre o qual incidem as mudanças em questão – resulta apenas de um esforço de padronização da forma gráfica que não terá nenhuma influência determinante na cultura de brasileiros, portugueses ou angolanos, mas é muito bem-vindo, na medida em que, unificando e simplificando a parafernália da língua escrita, contribuirá para uma maior aproximação entre as mais de 230 milhões de almas que comungam do mesmo idioma. Ainda assim, vale ressaltar que as novas regras não serão assimiladas do dia para a noite. Representarão um desafio a mais para professores e alunos e um cuidado extra para nós que, por força do hábito, seremos frequentemente (assim mesmo, sem o trema!) flagrados acionando a tecla do computador com aquela maquiagem fora de moda.


