Odenildo Sena

12 Jan

O incômodo chamado Lula

Nunca fui partidário do falecido governador Leonel Brizola, embora tivesse por ele admiração. A sua resistência ao golpe e aos golpistas, o seu destemor em enfrentar adversários poderosos, como a Rede Globo, a sua luta pelas liberdades democráticas e alguns outros momentos que marcaram a sua forte presença no cenário político brasileiro impuseram a mim esse respeito. Trago ainda hoje na lembrança um interessante episódio que me fez conhecer, na prática, uma indiscutível habilidade sua. Abri a porta do apartamento. A televisão exibia um desses programas partidários e lá estava Brizola. Fala mansa, sem pressa alguma, ênfase alternada nas palavras. Tomado por uma rapidez digna de John Wayne, dei três passos em direção à mesinha da sala e saquei agilmente o controle com o propósito de apagar a telinha. Cinco ou dez minutos depois, não sei precisar, dei-me conta, desperto pela entrada do comercial, de que estava sentado na poltrona e havia acompanhado na íntegra a fala de Brizola. Incrível era a sua competência de bem administrar o discurso. Um bruxo que hipnotizava o interlocutor brindando-lhe exatamente com aquilo que desejava ouvir, coisa que poucos conseguem. Certa vez, já incomodado com a ascensão política do líder petista, ele se referiu a Lula como o sapo barbudo. Queria expressar aquela condição de suportá-lo atravessado na garganta por força das circunstâncias. Estou-me lembrando disso a propósito de um artigo recente do jornalista Élio Gaspari, no qual ele tece elogios ao notável avanço, conseguido pelo governo federal, que tornou possível regularizar a aposentadoria por idade no prazo de trinta minutos. A mim me surpreende o reconhecimento, porque a mídia em geral sempre se pautou por uma indisfarçável má vontade em relação aos feitos do governo Lula, por mais inquestionáveis que tenham sido como a redução da pobreza e do desemprego, os investimentos maciços em educação, ciência e tecnologia e inovação, o inimaginável distanciamento da dependência com o FMI, a auto-suficiência na produção de petróleo, o enfrentamento firme e sereno da crise, culminando tudo isso com sua extraordinária popularidade. O bruxo Brizola jamais imaginaria que a elite não está tendo outra saída senão reconhecer o fato do quanto o país melhorou com o sucessor do sociólogo-presidente.

 

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