Odenildo Sena

02 Fev

O essencial e o acidental

Aprendi há muitos anos com o Carlos Eduardo de Souza Gonçalves, mestre amigo, querido e respeitado por tantas e tantas gerações. E foi logo no início do curso, em uma sala de aula que se abrigava do sol, nas tardes quentes de verão, por uma densa e copada jaqueira no antigo Seminário São José, onde funcionava o Instituto de Ciências Humanas e Letras da UFAM. Marcado pela forte tradição do ensino nas séries que antecederam o ingresso na universidade, a princípio impus a mim resistência àquele viés que contrariava a lógica consagrada de que, para bem aprender língua portuguesa, era preciso dominar as regras da gramática. Com a paciência, que lhe é peculiar, e com a magistral habilidade didática, que é sua marca registrada, Carlos foi desconstruindo passo a passo, de forma precursora ao que só anos depois começou a aparecer nos livros de linguística, a sucessão de equívocos a que tínhamos sido submetidos. Primeiro, a língua materna – no nosso caso a língua portuguesa – não se aprende na escola. Já se chega lá com o domínio natural de toda sua complexidade, aí incluída a gramática que lhe é inerente. A sua transmissão se dá pela convivência social. Depois, o papel da escola, pelo ensino da gramática normativa, é trabalhar o ajuste à norma padrão, aquela socialmente definida e socialmente privilegiada, mas sempre a partir do conhecimento prévio do estudante. Em outras palavras, não faz sentido o professor ensinar gramática normativa para o aluno aprender gramática normativa. Ela deve ser trabalhada não como um fim, mas na condição de meio para o aluno aprimorar o seu desempenho no uso da norma padrão e, a partir daí, dar efetiva função social às diversas possibilidades que a língua coloca a sua disposição. As lições do Carlos me saltam à lembrança em decorrência da nova temporada de discussões sobre o tal Enem – Exame Nacional do Ensino Médio. Todos os anos a ladainha se repete e os jornais fazem as comparações de praxe entre o conjunto de notas obtido por cada estado, sem falar no odioso deboche que circula fartamente pela Internet com o nome de “Pérolas do Enem”. E aqui não quero discutir a qualidade ou não dessa metodologia de aferição, embora ache que ela careça de muito aprimoramento. Deixo essa tarefa para os especialistas. O que me incomoda são algumas “mentes pedagogas brilhantes” apontarem como saída para as baixas notas obtidas pelas escolas no Estado o ajuste dos conteúdos trabalhados no ensino médio às provas do Enem, a exemplo de escolas que se julgam avançadas por transformarem o ‑mesmo ensino médio em cursinho preparatório para o vestibular. Trata-se de uma absurda inversão de princípios que confunde o essencial – a escola preparar para a vida, com o acidental – o Enem como simples consequência do trabalho pedagógico de qualidade desenvolvido pela escola.

 

Comments are closed.

© 2010 Odenildo Sena | Entries (RSS) and Comments (RSS)

GPS Reviews and news from GPS Gazettewordpress logo