Armado até os dentes
Quem me contou foi um velho amigo. Um amigo seu vem amadurecendo a ideia de criar uma instituição que defenda os interesses do que ele chama de bons bebedores. Para isso, o amigo desse meu amigo tem discutido num seleto grupo questões jurídico-filosóficas basilares para dar concretude ao propósito, que ele jura ser pioneiro. Segundo andei sondando, são questões de grande complexidade, porque passam pela definição de alguns parâmetros que envolvem impensáveis nuances e filigranas, o que tem ocupado um considerável tempo desses militantes na busca não de um consenso – isso parece impossível –, mas pelo menos de alguma convergência que viabilize levar adiante o projeto. Contou-me um pouco esse meu amigo sobre as discussões homéricas que varam madrugadas nos fins de semana em torno, por exemplo, do que seja um bom bebedor. Isso porque surgiu a proposta de que o nome da instituição seja alguma coisa como Associação dos Amigos Bons de Bebida. O líder da ala mais moderada, dono de uma bancada bem reduzida, reduzidíssima, por sinal, teria defendido que o conceito se circunscrevesse aos limites do que determina a legislação federal, 0,2% decigramas de álcool por litro de sangue, entendendo que isso, sim, definiria o associado na categoria de bom bebedor. Outro, fechando o número de partidários dessa ala, teria feito um adendo no sentido de que se fizesse constar nos estatutos a obrigatoriedade da distribuição de bafômetros de bolso aos associados, de tal modo que se pudesse aferir o histórico mensal de seus decigramas. O líder do grupo aparentemente majoritário, por outro lado, alegando que ali não se estava discutindo a criação de uma associação cristã de bons moços, teria feito um inflamado discurso, evocando passagens da revolução francesa, para defender o que chamou de liberdade com responsabilidade. Os bares e botecos frequentados seriam identificados e veículos especiais cumpririam rotas catando os associados em diferentes horários. Esses estabelecimentos assumiriam, em contrato, o compromisso de descontos exclusivos. Um participante quase anônimo teria levantado uma questão de encaminhamento e sugerido uma discussão em separado sobre os níveis dos tais decigramas, com o argumento de que há diferenças abissais entre os bebedores de uísque e de cerveja, o que causou um princípio de tumulto. Outro, apreciador de uma terceira e popular via, teria se revoltado e levantado uma questão de ordem que pareceu pertinente à grande maioria: como condição preliminar para avançar nos trabalhos, se era que ali estavam reunidos cidadãos de ilibada reputação imbuídos dos mais nobres propósitos políticos, seria necessário esgotar o debate em torno do tema “bebedores e classes sociais”. Paro por aqui, com a certeza de que o título deste artigo nada tem a ver com o que escrevi. Na verdade, o texto seria outro. É no que dá a mania de começar sempre pela criação do título.


