Odenildo Sena

17 Fev

De John Wayne a Machado de Assis

Afinal, que maluquice é essa de encontrar alguma relação, por mais tênue que seja, entre o cowboy e o nosso Machado de Assis? Bem que eu poderia apelar para o inquestionável argumento do personagem de Suassuna e dizer não sei, só sei que eu encontrei, e a coisa estaria resolvida. Mas isso não faz parte do meu temperamento. Pois bem, deu-se que, levado pelo meu espírito cinéfilo, comprei o DVD comemorativo dos cinquenta anos do clássico “Rastros de ódio” do respeitado diretor americano John Ford, estrelado por John Wayne. Havia assistido ao filme no tempo de eu menino, no velho cine Ideal, em São Raimundo. Devia ter uns 14 anos. Resgatei sem dificuldades na memória da infância as imagens belíssimas em plano aberto que dão toda uma grandiosidade ao filme, sem deixar escapar, é claro, a cena final, em que a câmera foca, de dentro para fora, o vão iluminado da porta da casa emoldurando o cowboy de costas, relaxado, ciente do dever cumprido. Ao rever o filme em casa, entretanto, senti-me agredido com uma passagem em que o personagem vivido por John Wayne, um ex-soldado confederado, tomado pela ira, saca de sua arma disposto a matar a sobrinha, mulher adulta, capturada quando criança e criada por índios Comanches, razão de sua persistente busca por cinco anos e mote principal do roteiro. Como alegação para o seu ato, ele ressalta, em tom agressivo e preconceituoso, que a sobrinha, pelo tempo de convivência, havia se transformado em índio, já não pertencia ao mundo dos brancos. Essa cena não mais estava latente em minha memória, mas com certeza havia marcado minha infância, que dava natural amparo e justificativa àquele ódio que o mocinho nutria pelos indígenas, os quais, por sua vez, certamente como viés dessa matriz ideológica, também habitavam nossas brincadeiras pelas ruas do bairro, sempre na condição de nossos inimigos imaginários. Tudo nesse e em outros filmes com semelhante temática conduzia à crença de que os índios, pelo seu natural espírito perverso e traidor, eram os grandes inimigos, e que os brancos e mocinhos, pelo seu natural espírito de bondade e defesa de uma causa sempre justa, eram nossos heróis. Outro dia, lendo uma crônica de Machado de Assis publicada em 26 de março de 1893, minha atenção foi despertada para um trecho que me pareceu explicar um pouco os mecanismos dessa manipulação: “A arte vale mais do que o céu. A própria guerra, cantada por ela, dá-nos a serenidade que não achamos na vida”. Tranquilizou-me, entretanto, uma frase com que o velho Machado neutraliza esse tom categórico e fecha seu texto: “É que o artificial morre sempre, mais cedo ou mais tarde”. É isso que nos salva a todos.

 

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