Odenildo Sena

09 Mar

A máscara que cai

Soube casualmente, lendo artigo da professora Maria Victoria Benevides na revista Carta Capital. Não chegou a me causar grande espanto, mas me surpreendeu. Primeiro, pelo extremo da estupidez e da negação à Verdade e à Memória de um período tão negro na história de nosso país. Segundo, pela total ausência de respeito para com a articulista e o professor Fábio Konder Comparato. Foram tachados de cínicos e mentirosos, por terem contestado, em carta dirigida ao jornal Folha de S. Paulo, o uso da expressão “ditabranda” em um de seus editoriais, referindo-se ao regime militar, de triste memória, que reinou no país a partir do golpe de 1964. Pretendeu o jornal advogar em prol da causa de que a ditadura implantada no Brasil, diferente de outras que reinaram na América do Sul, teve a virtude de ser uma ditadura palatável e tolerante. Ora, a derrubada de um regime democrático, em quaisquer circunstâncias, por si só já representa uma incontestável e odiosa afronta aos mais elementares princípios de liberdade, sobretudo porque fere o sagrado direito à escolha da maioria. Portanto, essa agressão é injustificável já na sua raiz, independentemente de argumentos que se pretenda usar para tal. Decorrente disso, toda e qualquer ação posterior traz consigo a marca da violência que a gerou. Trata-se, então, de manobra semântica cínica e sibilina a tentativa de qualificar como pior, ou melhor, uma ditadura. Como se fosse possível atenuar a culpa de um regime que tenha prendido, torturado, estuprado e assassinado frente a outro que tenha praticado as mesmas barbaridades em maior quantidade. Mas, dizia eu no início deste texto não ter causado a mim grande espanto o dito jornal ter colocado as unhas de fora. Ao meu ver, apenas deixou escapar o que sempre mascarou. Lembro-me de que em 1994, por conta do doutorado que cursava na Universidade Católica de São Paulo, debrucei-me durante um mês analisando quantitativa e qualitativamente as matérias políticas publicadas pelo dito jornal. À época, Fernando Henrique Cardoso, então ministro de Itamar Franco, começava a montar a estratégia que o levaria à presidência da República. Do exaustivo esforço, que gerou um trabalho acadêmico publicado na revista da Associação de Pós-Graduandos da PUC-SP, dei-me conta do quanto a Folha de S. Paulo, ardilosamente e sob o manto de guardiã da imparcialidade e da democracia, contribuiu para a construção da candidatura do sociólogo e a desconstrução da candidatura do metalúrgico. Encaminhei cópia do trabalho ao ombudsman do jornal. Nunca obtive resposta.

 

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