O metalúrgico e a ciência
Inevitável a comparação. No quase interminável reinado de Fernando Henrique Cardoso presidente, as universidades públicas federais e a ciência atravessaram momentos de extrema penúria. No primeiro caso, lembro-me de que essas instituições de ensino e pesquisa foram entregues às traças, sem reposição de seu quadro docente e administrativo, sem recursos para custeio e até para as necessidades mais elementares. Foi nessa época, inclusive, que se criou a figura do professor-substituto, espécie de boia-fria, com contrato precário de no máximo dois anos, para evitar o estabelecimento de vínculo empregatício. Essa figura existe até hoje. Como seu novo contrato só pode acontecer com uma carência de dois anos, trata-se de um replicante, nos moldes dos personagens do filme “Blade runner” do diretor americano Ridley Scott. Foi nessa época, também, que a expansão do ensino privado chegou ao seu auge. No segundo caso, da ciência, foi o período em que o Brasil mais se viu subtraído de cérebros, que buscavam abrigo em outros países, onde encontravam condições mais favoráveis para a pesquisa. As bolsas de estudo da Capes e do CNPq, destinadas à formação de mestres e doutores, ficaram com seus valores congelados durante mais de oito anos. Difícil aferir o tamanho do irreversível prejuízo causado ao futuro do país, que, com pouco investimento em pesquisa e reduzido capital intelectual, amargou a falta de competitividade na produção de conhecimento e de inovação tecnológica. Com isso, continuou à sombra de tantas outras nações e, inclusive, foi deixado para trás em relação àquelas que, com semelhante economia e condições, como a Coreia, a Índia e a China, fizeram a acertada opção por maciços investimentos em ciência, tecnologia e inovação. O paradoxal, nesse quadro de triste memória, é que o então presidente da República era o intelectual professor egresso dos quadros da Universidade de São Paulo, sociólogo-doutor com passagem pela Sorbone, autor de diversos livros acadêmicos, com “brilhantes” teses sobre dependência econômica. O mais paradoxal, ainda, é que com seis anos de sua administração, Luis Inácio Lula da Silva, egresso do ensino fundamental, com passagem pelo sindicato dos metalúrgicos de São Paulo, está promovendo um notável trabalho com decisivos impactos tanto nas universidades federais quanto na ciência brasileira. Para ficar só no exemplo do Amazonas, a Ufam expandiu suas ações e fincou raízes no interior, com a instalação dos novos campi em pólos estratégicos do Estado e a consequente realização de concursos para docentes e administrativos. Não foi diferente no restante do país. Há, por outro lado, um plano nacional de ciência e tecnologia em execução, com perspectivas de longo prazo e impactos em áreas prioritárias. A ciência nunca esteve tanto na ordem do dia. A se manter esse ritmo de vontade e investimentos, num futuro não distante o Brasil estará verdadeiramente ancorado em sua soberania. Muito mais pela determinação do metalúrgico do que do catedrático.


