O fim da mídia impressa
Tenho acompanhado com grande interesse as discussões e conjecturas acerca da morte anunciada da chamada mídia impressa. Alguns futurólogos lhe dão sobrevida muito curta; outros, mais otimistas, fazem projeções de médio prazo, mas se arvoram a definir data e hora para o fim da era de Johannes Gutenberg, que já reina há cinco séculos e meio; outros, ainda, simplesmente resistem a acreditar nesse implacável destino. Estou entre esses últimos. Acontece que já há fatos concretos a ilustrar esse cenário. Dias atrás li que um jornal americano de Denver, no Colorado, fechou as portas no dia 27 de fevereiro último, com hora marcada, depois de 150 anos a bom causar boa impressão em seus leitores. Numa coisa há consenso entre aqueles que não se espantam com esse melancólico fim: a vilã, que endeusa mentes e corações de crianças, jovens, adultos e velhos, é a Internet. Aliás, o próprio jornal reconheceu que o maior dos motivos para o fechamento de suas portas é que os leitores preferem navegar nas páginas da Internet a concentrar-se nas páginas de um jornal. Claro que há outras razões para essa corrente migratória, que não se explica de forma simplista, mas um detalhe me chamou atenção no texto de despedida do Rocky Mountain News (esse era o nome do falecido). O editor ressalta que as pessoas vivem numa busca frenética pela leitura de textos opinativos e que há uma fartura muito grande e de qualidade desse material na web. Até onde alcança meu espírito observador, isso é um fato inegável. E essa é uma questão que merece ser pensada. A mídia impressa, hoje, também se caracteriza pela produção de textos opinativos. Tornou-se raro encontrar uma matéria centrada nos acontecimentos. Pratica-se um jornalismo marcado pela especulação, no qual as fontes e os fatos têm pouca ou nenhuma importância. Nesse sentido, portanto, não consigo ver maior distinção entre o que se encontra na mídia impressa e o que se encontra com fartura, diga-se de passagem, na mídia eletrônica. E aqui está, penso eu, o espaço de reinvenção do velho e bom jornalismo impresso. Não há por que disputar leitores com a Internet. É preciso, sim, estabelecer nitidamente as diferenças, enterrando o “eu acho”, “eu penso”, “eu suponho”, “alguém teria me dito”, e fazendo vingar os textos centrados nos acontecimentos e nas fontes neles envolvidas, sem abrir mão das grandes reportagens. Saudosismo ou não, pra mim nada se compara ao manuseio diário de um jornal. Mas eu quero continuar fazendo isso na certeza de que, se acessar a Internet, não estarei em busca da mesma coisa.


