Da música e do ruído
Não havia me dado conta. O corre-corre e as infindáveis atribulações a que estamos submetidos nos dias de hoje, com o relógio a nos escravizar cada minuto da vida, nos condiciona aos hábitos mais inusitados. Foi necessário passar pela privação parcial e temporária do extraordinário sentido da visão para perceber o fato. Deu-se que, dias atrás, precisei passar por uma cirurgia corretiva na vista. Chegando em casa após a intervenção, dei início ao período de repouso, como manda o figurino. Nesse caso, já havia gravado na memória a periodicidade para aplicação do colírio salvador da pátria. Deitei-me e não precisou muito para bater a impaciência. Faria o quê? Como me ocuparia? De que modo daria distração ao tempo para me deixar em paz e distante dos muitos afazeres com os quais deveria estar me ocupando naquele momento? Inútil o esforço para negar acesso aos teimosos arquivos da vida armazenados no disco rígido da memória. Fiquei a maquinar possíveis formas de ocupação. Afinal, o tempo pela frente correria lento e seria longo. Descartei, por evidência, disputar a hegemonia do controle remoto da televisão com o Eric. O “Dinossauro Rei” estava a todo vapor. Além disso, associado ao incômodo da cirurgia, o máximo que eu conseguia visualizar era uma massa informe que me causava uma estranha agonia. Por tabela, descartada também estava a possibilidade de ligar o computador, escrever alguma coisa, navegar pela Internet, ler e responder meus imeils. Apelei para várias alternativas outras. Queria mesmo era uma forma de ocupação. Incrível a incompetência para não fazer nada! Restava-me o sagrado sentido da audição. Minha mulher veio em meu socorro com aquela infernal e miúda maquininha, maravilha tecnológica moderna que acumula em suas entranhas milhares de músicas. Levado não sei por que motivo, disse a ela que queria ouvir clássicos. Sugeri Beethoven. Com o passar das horas, deixei-me seduzir pelo encantamento e me distanciei da vida. Foi, então, que me dei conta de que fazia muito, muito tempo que não parava para ouvir música. Refiro-me ao sentido mais completo do termo. Os ouvidos distinguem com perfeição o tema condutor dos acordes secundários, registram a presença dos diferentes instrumentos e nos dão a certeza de que, embora com aparente independência, eles estão todos solidários em torno do fascínio da harmonia. E só a genialidade dá conta de tamanha beleza, independentemente de ser um Beethoven, um Chico Buarque ou um Noel Rosa. Estou aqui a me lembrar, por outro lado, que todos os dias quando chego do trabalho aciono a tal maquininha para ouvir música. Pura ilusão. Trata-se de um gesto inútil e mecânico. O que ouço são apenas e tão somente ruídos.


