Odenildo Sena

13 Abr

O velho santo de casa

Caiu-me por um acaso nas mãos. O livro tem como título “Sob o céu da cultura” e tem organização de Gustavo de Castro e Florence Dravet. No prefácio, eles defendem a necessidade de reformar o conceito de comunicação, apontando-a como a ciência do diálogo. Gostei daquela provocação e dela me lembrei nesses dias santos, lendo matéria em que o pesquisador Ghillean Prance, fundador do curso de Botânica do INPA e de passagem por Manaus, destaca a necessidade de se levar ciência às escolas, pois lá estão os pesquisadores do futuro. Há muito a se pesquisar na Amazônia, mas poucos interessados em fazê-lo. Lança, ainda, um apelo para que essa prática, comum na instituição inglesa onde hoje trabalha, seja imitada por aqui. Pessoalmente, vejo como muito bom o tema ocupar espaço na mídia local, por tradição avessa às questões que envolvem a produção e a popularização da ciência. Razoavelmente compreensível, por outro lado, que Prance manifeste sua preocupação – pertinente em todos os sentidos! – como sendo inédita em território nativo. Afinal, não tem mais base fixa de trabalho em Manaus. Incompreensível, porém, que sua voz, no texto que compõe a matéria jornalística, seja única, dando a entender que a verdade está naquilo que sugere, não nos fatos. E, neste sentido, a bem da justiça, não lhe cabe nenhuma responsabilidade. Pois bem, foi isso que me fez resgatar o conceito de comunicação como a ciência do diálogo, o território, por excelência, da quebra da unilateralidade e da interlocução entre os acontecimentos. Penso que Prance ficaria muitíssimo feliz – e o texto jornalístico estaria mais completo –, se soubesse que, pelo terceiro ano consecutivo, professores e alunos do ensino fundamental e médio das escolas públicas municipais e estaduais do Amazonas estão pondo a mão na massa para fazer ciência e gerar conhecimentos. Pesquisar o processamento dos extratos de óleos essenciais, a reciclagem do óleo de cozinha como alternativa de renda, o imaginário infantil numa comunidade do Iranduba, a destinação do lixo doméstico, a forma mais adequada de cultivar uma horta comunitária, as causas do abandono escolar, impactos ambientais de usinas hidrelétricas e pesquisar o cultivo de orquídeas com aproveitamento do lixo orgânico são apenas alguns dos muitos projetos já desenvolvidos. Para este ano, serão 1.610 bolsistas, entre professores e alunos, trabalhando 230 projetos em todas as áreas do conhecimento. O Programa Ciência na Escola é pioneiro, foi criado aqui no Amazonas, está sendo copiado em outros estados, inclusive do rico sudeste. É muito, para o que nunca se fez, mas, infelizmente, a velha cultura do santo de casa não fazer milagre continua firme e poderosa. Lamentável.

 

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