As metáforas da crise
Num desses dias ouvi não sei quem dizer que a crise é uma janela de oportunidades. Fiquei a especular com meus botões. Sob a ótica do senso comum, seria um grande paradoxo. Afinal, a crise se generaliza a cada dia e, embora o pai e a mãe da criança estejam distantes do território brasileiro, nos arrasta a todos para o mesmo e insensato barco. Sob a ótica do senso de oportunismo, entretanto, haveria uma face da crise não tão perversa assim. Dela se poderia até tirar grande proveito. Seria essa a tal janela de oportunidades? Neste caso, o que se tem, no fundo, é uma sofisticada construção discursiva. Sem rodeios, significa dizer que é possível alguns poucos faturarem à custa da desgraça e do infortúnio da grande maioria, o que, convenhamos, carrega um componente bastante sórdido. Mas, para além da discussão de mérito de tais questões, não se pode negar que, se de um lado a crise é responsável por consequências sociais e econômicas danosas à vida de todos nós, de outro tem a virtude de funcionar como uma ampla janela de oportunidades para o enriquecimento da língua materna. Comprovei isso outro dia. Ao término da leitura de um artigo do economista Nouriel Roubini, dei-me conta de que ficara voando. Obriguei-me a voltar à leitura, desta vez empunhando um marcador, e comprei o desafio de fazer um mapeamento mais preciso do texto. Pra início de conversa, descobri que há uma tal de recessão em forma de U que, dependendo do andar da carruagem, poderá vir a se transformar numa complicada depressão em L, ou, como de imediato procurou esclarecer Nouriel, numa estagdeflação. Francamente, se a coisa for tão feia e esquisita como essa palavra, coisa boa não nos espera. Aprendi, ainda, que na Zona do Euro e no Japão, os formuladores de políticas públicas estão “atrás da curva” e que, em função disso, os estímulos débeis não permitirão uma recuperação econômica sustentável. Apesar de redobrado esforço, não consegui saber onde fica essa curva, o que, imagino, coloca em risco qualquer outra zona. No que tange aos EUA e à China, informa-nos o analista que nesses países a demanda está bastante anêmica, o que, suspeito, é um elemento complicador, pois envolve, também, ações na área médica. Por outro lado, ao mesmo tempo em que o experimentado comentarista nos dá uma carga de ânimo, dizendo que os gastos pessoais subiram no último mês, ataca na contramão advertindo que isso não passou de um soluço temporário. Se o problema é esse, acho que a solução pode ser doméstica. No tempo de eu menino, curava-se soluço com um grande susto. É isso aí. Crise também é inovação linguística. Se não ajuda a resolver o problema, pelo menos faz com que nós, pobres mortais, continuemos sem entendê-lo.


