O amor é lindo
Juro que a história é verdadeira. Quem me contou foi a protagonista. Por formação, ela costuma ser muito factual naquilo que partilha com os amigos. Pois bem. Deu-se que estavam vivendo o mágico momento de reinvenção de suas vidas, o que os tornava absolutamente crentes naquilo que, outrora, encaravam com a solene descrença dos desiludidos: Deus escreve certo por linhas tortas. Afinal, vivendo em espaço geográfico distinto, cada um a seu modo havia enfrentado as tardias descobertas e os dissabores daquela ocasião em que o amor deixa de ser eterno e passa a ter os limites da tolerância, o que Vinícius de Moraes, hábil e poeticamente, traduziu como eterno enquanto dure. Entre a primeira troca de palavras e a súbita descoberta das afinidades, o tempo não lhes exigiu muito de estágio probatório. Estavam ali, os dois, indiferentes às conversas barulhentas e às gargalhadas alheias, que, misturadas ao velho e conhecido som de barzinho, espalhavam-se por todo o ambiente e se transformavam em ruídos indecifráveis. Depois de consideráveis idas e vindas do garçom, para repor o estoque de chope, tomaram a decisão de fazer daquela a primeira noite no apartamento dele, onde a interminável saideira quase desmente a assertiva do Cazuza de que o tempo não pára. O sono dos justos já ia longe, quando ela recebeu o primeiro sinal de que não deveria ter emborcado aquele derradeiro copo. Não, impossível ser essa a causa, resmungou consigo mesma e partiu para o veredicto, invocando sua experiência no ramo. Deve ter sido aquele último pedacinho de batata frita. Olhou para o lado. Melhor não incomodá-lo, afinal, não cabia vexame justo naquele primeiro dia. A luz era tímida. Lembrou-se de que não havia tido o cuidado de fazer o reconhecimento do terreno. Onde andaria a sensatez naquelas alturas? Mesmo assim, partiu para o desconhecido. Foi tateando as paredes até chegar ao que deveria ser a cozinha. Vasculhou o que pode, mas nada encontrou que parecesse um antiácido. Redirecionou sua expedição até encontrar o banheiro. Aproveitou para olhar-se no espelho. Sem comentários. Pelo menos uma pista. Encontrou um vidrinho de Mertiolate. Lembrou-se de um detalhe. Em uma das conversas, ele havia dito que raramente tinha problemas de saúde. Já na iminência de entrar em pânico, eis que descobre, quase escondido, no cantinho superior do armário, um vidro do milagroso Leite de Magnésia. Na ausência de um Mylanta Plus, vai tu mesmo! Não contou dúvida. Deu uma respeitada golada. Acordou com o final da manhã invadindo o ambiente. Disposta e sem ressaca. Ele entra no quarto, já havia tomado banho, vidro de Magnésia na mão, sorridente. Ao mesmo tempo em que lhe dá bom dia, derrama um pouco do líquido branco e viscoso sobre a ponta dos dedos e tranquilamente passa nas axilas. A silenciosa reação não poderia ser outra. Meu Deus, bebi o desodorante do homem!


