Bush, Obama e os pajés
Passou quase despercebido. Ocupou apenas uma tripinha de coluna no canto esquerdo de página de jornal. Poucos notaram, pois dividia os demais 90% do espaço com um anúncio colorido que prometia fantásticos descontos na compra de carros zero quilômetro. Por isso mesmo não deve ter merecido atenção dos leitores. Eu mesmo, confesso, só cheguei a ele depois de algum tempo de viagem pelo dito anúncio, que desafiava qualquer espírito consumista com taxa zero de financiamento, zero de entrada, emplacamento grátis e Imposto sobre Propriedade Industrial reduzido, faltando pouco para dizer que o interessado receberia um folgado salário por mês para ficar com um dos carros. Digo isso por achar que o fato não é de menor importância. Afinal, para um país governado oito anos por um tosco, de pouca sabedoria e insensível ao destino do resto da humanidade, o ambicioso propósito de assumir, de forma escalonada, a redução das emissões de gases do efeito estufa representa uma novidade que deveria ocupar as primeiras páginas dos jornais e sites de notícias. Razões não faltam para isso. Estamos falando da nação que ostenta o troféu de maior responsável pela poluição mundial e que, sob a arrogante batuta do senhor Bush Júnior, manteve o propósito anterior, negando-se a subscrever o Protocolo de Kyoto e, com isso, prolongou a agonia do Planeta com consequências irreparáveis para a humanidade. De um lado, portanto, deve-se reconhecer como mérito a pressão de Barack Obama para que o Congresso dos Estados Unidos dê prioridade ao tema das mudanças climáticas, com vistas à elaboração de uma lei sobre “energia limpa”. De outro, por mais elogiosa que seja a iniciativa, não deixa de haver um forte componente, no mínimo, cômico no anúncio das novas medidas. Do protocolo de Kyoto até aqui já se vão doze anos e só agora, segundo a tripinha de notícia no jornal, a Agência de Proteção Ambiental americana declara serem “perigosas” para a saúde pública as emissões de gases do efeito estufa, razão pela qual o presidente Obama, ao participar em dezembro próximo da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, “quer mostrar ao mundo que os Estados Unidos tomaram consciência do que está em jogo”. Cômico, de fato, se não fosse trágico, pois tenta passar, com ostensiva desfaçatez, a ideia de pioneirismo sobre um tema que, na verdade, já está na agenda de preocupações do restante do mundo há décadas. De qualquer modo, repito, vale o mérito da decisão, embora chegue com bastante atraso. Afinal, até os nossos pajés do Alto Rio Negro se anteciparam, jogando a toalha e reconhecendo terem perdido a autoridade frente ao indócil comportamento da natureza. Os americanos nos devem mais essa.


