Sobre filmes e manias
Já falei noutro dia que, nos últimos tempos, tenho frequentado muitíssimo pouco os cinemas, embora seja um apaixonado pela Sétima Arte. Não daquele tipo rigoroso e seletivo que transforma cada filme assistido numa peça sempre digna de profundas e complexas reflexões sobre a alma e o comportamento social dos seres humanos. Nem daquele outro tipo que vive ligado nos últimos lançamentos. Sou daquele time que simplesmente acredita que o cinema continua sendo a melhor diversão. Quanto ao distanciamento das salas de exibição, atribuo ao meu incontrolável comodismo, que sempre acaba me convencendo de que ficar em casa ainda é o melhor negócio. Mas compenso esse aparente ócio montando meu próprio acervo, coisa que faço já desde muito tempo, mesmo em descompasso com relação aos filmes recém-lançados, que acho sempre muito caros. Considero-me uma espécie de Indiana Jones caçador de promoções. Chego a passar meses, com paciência franciscana, namorando um DVD, até o momento acertado de arrematá-lo. O diferencial é que, dispor dos filmes em casa, atende a uma velha mania minha de poder rever, em diferentes momentos, aqueles que, por razões às vezes até não tão claras, me chamaram atenção por um detalhe ou outro. Nesses dias, enquanto admirava os títulos em minha estante, todos cartesianamente em ordem alfabética, não me contive e de lá retirei, com enorme zelo, “Sociedade dos poetas mortos”, do diretor Peter Weir. Quis matar a saudade de uma cena que sempre teve, para mim, um exclusivo significado pedagógico. Talvez isso se explique pela minha longa quilometragem acumulada exercendo os desafios do magistério. Para quem se lembra do filme, trata-se do momento mágico em sala de aula quando o professor John Keating, vivido por Robin Williams, tendo já conquistado a simpatia e o carinho da turma, surpreende a todos, estimulando cada um a subir em sua mesa e, do alto, portanto de uma posição incomum, vislumbrar aquele espaço de outra perspectiva. Brilhante iniciativa! Oportuniza os alunos a perceberem e confirmarem que a leitura do mundo não se resume a um quadro único e estático, o que rompe com o velho e tradicional paradigma de que as pessoas pensam e agem de forma idêntica, como se fossem autômatos. A depender de onde parte o olhar, as verdades são múltiplas e a compreensão do mundo e das coisas que nele habitam são monitoradas por essa visão particular. E o que pode ser mais fantástico senão a certeza de que essa heterogeneidade é a grande responsável pela construção da harmonia que torna possível a convivência entre os seres humanos?


