A dita nunca foi branda
Tremo nas bases quando alguém manifesta desejo de que a ditadura militar volte a imperar no país. Ou que detesta política e que não acredita em políticos. Há poucos dias li profissões de fé dessa natureza. E, repito, tremi nas bases, o que me leva a tocar num tema para o qual, imagino, conseguirei pouquíssimos adeptos. Mas faço isso com a convicção de que há momentos na vida do país em que é preciso quebrar a unanimidade. Quer seja para se vislumbrar a existência de outros caminhos, quer seja para se confirmar que aquele em evidência tem razão de ser. De qualquer modo, é sempre bom e prudente tratar a unanimidade com cautela. Não sei se vou conseguir relacionar uma coisa a outra, mas estou aqui me lembrando daquele episódio em que o ex-ministro Rubens Ricúpero, com cara e jeito de bom samaritano, deixou escapar para os indiscretos microfones que a coisa no então governo funcionava assim: o que era bom se mostrava; o que era ruim se escondia. Afora o espírito sórdido da frase, para o bem de todos e da democracia, não prevaleceu a vontade daquele senhor e do governo a quem ele servia. A tentativa de criar a nociva unanimidade de que tudo ia muito bem foi de pronto denunciado por grande parte da mídia. Salto para os dias de hoje e vejo com preocupação a unanimidade, em forma e conteúdo, com que a maior parte da mídia vem abordando os escândalos envolvendo as diferentes esferas de poder. Causa-me a sensação de que, na ordem inversa daquela odiosa frase do ministro de Collor, a ordem agora é: o que é ruim a gente mostra; o que é bom a gente esconde. Para ficar apenas em um exemplo representativo de tantos outros, observe-se o caso do uso das cotas de passagens pelos congressistas. E não quero aqui entrar no mérito da questão, que tem aspectos tenebrosos pertinentemente trazidos à tona pela mídia, que, nesse caso, cumpre um de seus papéis mais relevantes para a democracia e para a sociedade. Quero me referir ao viés categórico dado à abordagem, construindo uma unanimidade tal, que coloca todos, deputados e senadores, no mesmo e insensato barco de farristas, como se já não houvesse salvação, como se todos, indistinta e inapelavelmente, estivessem em mora com a sociedade. Não penso que a situação se reduza a isso. Se assim o fosse, não mais valeria a pena acreditar que uma instituição como o Congresso Nacional, tão cara a qualquer democracia, seja indispensável. Há, sim, deputados e senadores que trabalham, e muito, e que dignificam o voto de seus eleitores. Mostrar isso faz parte, também, do papel da mídia. Afinal, na ausência do parlamento ocupa o seu espaço a dita, que só foi branda para quem tem memória curta e brinca com a História.


