Odenildo Sena

02 Jun

O Enem ou a vida!

Para que guardar tanta tralha? Minha falecida mãe sempre implicava com esse meu hábito de querer guardar tudo. De velho já basta eu, dizia ela. Pois até hoje cultivo a mania. Sempre acho que lá na frente aquele guardado terá alguma utilidade. É bater e ver! Dia desses, revirando uma pilha de jornais vencidos, deparei-me com uma notícia que anunciava o efeito milagroso de um livro. Garantia o domínio de macetes para “entender até bula de remédio e se dar bem na prova”. Afora o teor ridículo e pedagogicamente insustentável do anúncio, chamou-me atenção o eixo central da promessa. Não importam os meios, os processos ou percursos, o fundamental é o indivíduo, no sentido bem “Gérson” do termo, já incorporado à nossa cultura, se dar bem na prova. O resto é o resto. Trata-se de uma concepção estreita que resume a complexidade do longo processo de aprendizagem de um cidadão a algumas horas diante de um punhado de questões geralmente cretinas de uma prova. Isso acabou me levando a pensar na nova onda do momento. Há dias que a mídia repercute o anúncio espalhafatoso de nossas sábias autoridades sobre o mais novo milagre da educação brasileira: o Enem. As notícias correntes dão conta tratar-se da “maior mudança desde a criação do vestibular em 1911. Uma verdadeira revolução!” Deixará de exigir dos alunos grande quantidade de informações para priorizar raciocínio lógico e capacidade na resolução de problemas. Absurdo acreditar que foi necessário aguardar um século para se descobrir que as provas dos vestibulares nunca se prestaram a avaliar o desempenho intelectual dos egressos do ensino médio. Absurdo maior, ainda, autoridades da área de educação manifestar, de pronto, a necessidade de se adaptar a grade curricular atual às características do exame salvador da pátria. Tudo em função do Enem! Décadas de pesquisas básica e aplicada voltadas para a educação – e o Brasil tem excelência nesse campo – têm como endereço a lata de lixo, numa inconsequente inversão de papéis que transforma uma atividade essencialmente intermediária – uma prova – em um objetivo supremo. Apenas mais um dos infindáveis modismos desastrados que sempre comprometeram a qualidade da educação no país.

 

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