Odenildo Sena

08 Jun

Meu Cinema Paradiso

Sempre que me perguntam qual o filme de minha vida, respondo na bucha: “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore. Durante anos, da meninice à adolescência, grande parte de meu tempo foi vivida naquele mundo mágico chamado cine Ideal. Ficava em São Raimundo, onde me criei. Guardo até hoje infindáveis histórias que, pelo sabor de encanto e aventura, entrelaçavam-se de tal modo com minha existência, que perdiam a fronteira entre a realidade e a ficção projetada naquela imensa tela do cinema de minha infância. Lembro-me, por exemplo, de que eu e meus colegas tínhamos por predileção um namoro de horas e horas com o material de propaganda dos filmes exposto em quatro vitrines protegidas por vidros e situadas horizontalmente na fachada principal do prédio. A primeira delas, da esquerda para a direita, acima da estreita abertura onde funcionava a bilheteria, exibia sempre os cartazes da atração do dia. As demais apresentavam as futuras estreias. Sem dinheiro para os ingressos, fazíamos daquele namoro um compromisso diário, espécie de expediente sempre cumprido religiosamente com zelo e dedicação. Era a alternativa que encontrávamos para compensar o perverso muro que nos impedia de partilhar com nossos heróis suas aventuras. Aliás, nem sempre entendíamos o porquê de ficarmos do lado de fora. Afinal, eram tantas as afinidades com esses heróis, que julgávamos aquele impedimento uma profunda injustiça. Mas lá ficávamos, olhinhos vidrados nos cartazes. Cada um, por sua vez e ao seu modo, embalado pela vital necessidade de sonhar, contribuía para construir imaginariamente uma história paralela àquela que a falta do ingresso nos impedia de ver. Sempre que um de nós exagerava na fuga àquele texto coletivamente construído, alguém apontava o desvio e aqueles fragmentos iam, pouco a pouco, ganhando incrível nexo em nossa cabeça. Quando notávamos, por outro lado, que a projeção do filme havia começado, corríamos para a lateral do cinema, que dava para uma rua – quanta coincidência! – chamada Boa Vista. É que havia uma janelinha, bem no alto, daquelas de treliças, por onde conseguíamos vislumbrar pedaços de imagens no canto direito da tela. Mas o encanto não ia longe. Sabedor do nosso hábito, o gerente do Ideal, implacável e friamente, acionava um cordãozinho e fechava a janela, negando-nos aquele prazer. Era o carrasco do nosso cinema Paradiso.

 

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