A ciência do olhar
Havia um padre holandês chamado João de Vries. Quase sem sotaque, falava do alto dos seus quase dois metros. Dividia seu tempo entre as obrigações sacerdotais e a fotografia. O meu curioso olhar ginasiano era espectador permanente das exposições que promovia de seus trabalhos. Eram pôsteres enormes, em preto e branco, retratando sempre o dia-a-dia da gente simples das redondezas e do bairro onde me criei. Nutria profunda admiração pela habilidade com que captava aqueles instantâneos, o que me deu o passaporte para uma duradoura amizade. Lembro-me do dia em que confiou a mim a chave do laboratório e um negativo com doze fotos para serem ampliadas. Com as substâncias químicas diante de mim, nas bandejas brancas de plástico, mergulhei a primeira folha de papel fotográfico na solução reveladora. A pinça com que eu fazia leves movimentos circulares naquela folha transformou-se, de repente, numa espécie de varinha com extraordinários poderes. Senti-me o senhor da criação. As imagens, lenta e gradualmente, saltaram para a vida diante de meus olhos naquela sala em penumbra, num momento repleto de fascínio e emoção que ficou tão bem guardado em minha memória. Preservada aquela agradável lembrança, descobri com o tempo que eu havia sido apenas instrumento intermediário de uma vida que, na verdade, nascera do afinado olhar do João de Vries. Isso mesmo! Porque, embora não se deva desprezar a contribuição sofisticada de um bom equipamento e domínio técnico, penso que a fotografia depende muito pouco de um simples clique. Se assim não fosse, com a popularização das máquinas digitais, os grandes mágicos da fotografia já teriam sumido. São fundamentais, muito aquém e além dos cliques, a empatia e a emoção com o objeto; a sábia opção, nem sempre fácil, pelo momento mais apropriado; a sensibilidade na escolha do ângulo inusitado; a paciência como arma para a perfeição; a busca contumaz pelos detalhes, muitas vezes, só revelados pela paixão que atravessa as lentes do equipamento. Essas qualidades são alimento indispensável para o que eu chamaria de a ciência do olhar. E essa eu devo ao João de Vries.


